O dentista Eudes Gondim Júnior sofreu uma série de ofensas e ameaças no começo do ano após agredir um pitbull da modelo Luize Altenhofen. Ele alega que o cachorro invadiu a sua casa, e ela diz que foi sem motivo. Esse caso pode tirar o Facebook do ar no Brasil a partir de amanhã.

ATUALIZAÇÃO: o Facebook decidiu cumprir a ordem do juiz e excluir as 22 mensagens ofensivas que motivaram o processo na justiça. A rede social não sairá do ar.

O que aconteceu? Bem, vamos ver os dois lados da história, que ganhou dimensões muito maiores do que deveria por causa de uma caça às bruxas míope proporcionada pela histeria coletiva nas redes sociais.

Primeiro, vamos ver o que o dentista diz sobre o caso. No dia 24 de janeiro, ele postou a seguinte mensagem no Facebook:

Amigos,
lamentavelmente vejo o meu nome vinculado a uma notícia mentirosa e com afirmações torpes. Sábado passado, um cão da raça Pitbull pertencente a uma moradora da minha rua, escapou de casa pela enésima vez e adentrou no quintal de minha residência. Sem pensar duas vezes, agindo em legítima defesa e em defesa do meu filho de 5 anos, desferi alguns golpes no tal cão. Fomos a delegacia, fizemos o BO e, para minha surpresa, já tarde da noite a dona do cão invadiu minha residência derrubando muro e portão com a sua Amarok! Infelizmente, a cidadã dona do animal está utilizando-se de artimanhas e artifícios baixos a fim de reverter a situação e ainda, utilizando a mídia para veicular informações descabidas. Mas, a impressa séria procurou os envolvidos para apurar os dois lados da estória e neste final de semana, a matéria sairá na Veja São Paulo.

Resumo: o cão de Altenhofen teria invadido a sua casa e, para proteger seu filho de cinco anos, ele agrediu o cachorro.

Para Altenhofen, o que aconteceu foi o seguinte:

Minha filha (Greta, de 3 anos) apertou o controle do portão sem querer e ele saiu para fazer xixi. Minha mãe viu quando ele foi agredido. Estou em choque até agora. Sempre soube do preconceito que as pessoas têm com a raça, mas nunca imaginei que pudesse chegar a isso.

Revoltada com o que aconteceu com o seu cachorro, Altenhofen foi ao Facebook, Instagram e Twitter comentar o ocorrido. Ela postou uma foto do cão violentado com uma mensagem “ele não merecia isso”.

Mas vamos com calma. Estamos no Gizmodo Brasil, um site de tecnologia, não em um site de celebridades nem de briga entre vizinhos. O que nos interessa é o que aconteceu depois disso. A internet facilita a disseminação de informação, mas isso também permite alguns casos no mínimo assustadores. E as proporções do caso envolvendo o pitbull são mais do que assustadoras.

Fãs de Altenhofen e amigos da modelo se revoltaram com a história. Sites de celebridades publicaram matérias relatando o sofrimento dela e do cachorro. O ódio aumentava a cada dia. Patrícia Maldonado, jornalista da Band, postou o nome completo do agressor e um link para o seu Facebook pelo Twitter. O dentista diz que seu endereço foi colocado na web para todo mundo ver. Não era mais uma disputa entre vizinhos causada por uma agressão a um cachorro: tornou-se uma caça ao dentista. Uma sede de justiça por parte da população que alega que a lei brasileira não pune agressores de animais. Se a lei não pune, então vamos todos nós punir, certo? Não, não! Não vamos não. Vamos primeiro entender o que aconteceu.

 

Gondin Júnior citou uma reportagem que seria veiculada pela revista Veja São Paulo. Ela foi e está aqui. Segundo a matéria, que conversou com vizinhos dos dois, o pitbull de Altenhofen só parecia um cão inocente: um vigilante da área foi mordido pelo cachorro certa vez, e outros moradores alegaram temer as vezes que o cachorro circulava livre pela rua, sem coleira nem nada. Some a isso a legislação estadual de São Paulo que define que pitbulls não podem circular em vias públicas sem coleira, enforcador e corrente de até dois metros. Ou seja, ao soltar o cachorro na rua, ela descumpriu uma lei paulista, e o cão, não tão dócil assim, teria invadido a casa de Gondin, o que motivou o seu ataque.

Quem está certo, quem está errado? Sinceramente, pouco nos importa. Essa é uma questão a ser decidida em âmbito judicial – quando Altenhofen publicou os posts que geraram a revolta coletiva e a perseguição a Gondin, a questão deixou de ser entre os dois apenas. Tornou-se mais um caso da tentativa de usar a internet para fazer justiça de maneira torta.

Lembra-se da investigação feita pelo Reddit em busca dos responsáveis por explodir as bombas na maratona de Boston? Ela foi completamente errada e chegou a pessoas sem relação nenhuma com o caso. Aqui a história não é lá muito diferente: em vez de usar os meios legais para resolver a questão, a força da internet tentou solucionar por conta própria. Não deu certo.

E quem pode pagar por isso é a própria internet, se o Facebook realmente for bloqueado no Brasil a partir de amanhã. Se isso acontecer, devemos sentar no canto da sala e nos questionar se estamos usando a internet da maneira certa. Temos uma plataforma extremamente poderosa para disseminar informação e conhecimento e usamos para perseguir pessoas sem saber exatamente o que elas fizeram. Vendo por esse lado, talvez a punição seja justa para todos nós.

[Imagem via Stephen Oung/Flickr]