Uma nova pesquisa aponta que os cachorros podem ser treinados para detectar o parasita da malária em indivíduos infectados, usando seu olfato apurado.

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Em 2016, um número estimado de 445 mil mortes em todo o mundo foi atribuído à malária, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O número pouco mudou em relação ao ano anterior, quando 446 mil pessoas sucumbiram ao parasita da malária, o Plasmodium falciparum, que se espalha por meio de mosquitos Anopheles fêmeas. No geral, as taxas de infecção global são ainda menos encorajadoras: em 2016, cerca de 216 milhões de casos de malária foram documentados, um aumento de cinco milhões em relação ao ano anterior.

“De modo preocupante, nosso progresso no controle da malária estagnou nos últimos anos, então nós precisamos desesperadamente de ferramentas inovadoras para ajudar no combate à doença”, disse James Logan, chefe do Departamento de Controle de Doenças da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), em um comunicado. De fato, diagnosticar pessoas com infecções suspeitas é um processo trabalhoso e que consome bastante tempo. Novas abordagens ajudariam muito no problema da detecção e, por consequência, reduziriam a taxa de transmissões de malária.

Freya, um Springer Spaniel treinado para farejar o odor da malária. Imagem: Medical Detection Dogs

Para esse fim, Logan, com a ajuda de seus colegas da Universidade de Durham, buscou descobrir se cães farejadores podiam ser usados para diagnosticar a malária em pessoas que não exibem quaisquer sintomas. A ideia não é tão ultrajante quanto parece. Cães de detecção já estão sendo usados para farejar alguns cânceres e detectar também baixos níveis de açúcar em donos diabéticos.

Os resultados dessa investigação preliminar, cujos detalhes foram divulgados no encontro anual da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, em Nova Orleans, sugerem que os cães conseguem farejar a doença em indivíduos infectados. Isso significa que os cães poderiam representar uma ferramenta rápida e não-invasiva para detectar a malária. No futuro, cães de detecção de malária poderiam ser usados em aeroportos, por exemplo, onde os animais já estão sendo usados para farejar narcóticos e alguns gêneros alimentícios ilegais. Ao sinalizar viajantes suspeitos, esses cães farejadores poderiam evitar que a malária se espalhasse entre países, ajudando também pessoas infectadas a ter um tratamento cedo.

Para o estudo, cientistas do LSHTM e do Medical Research Council Unit-Gambia (MRCG) coletaram amostras de odor de pé de crianças de cinco a 14 anos na região Upper River, da Gâmbia, na África Ocidental. Usando um teste padrão de picada no dedo, os pesquisadores foram capazes de determinar qual dessas crianças tinha o parasita da malária Plasmodium falciparum no sangue. Suas meias foram então enviadas para a instituição de caridade Medical Detection Dogs (MDD), em Milton Keynes, no Reino Unido, onde os cães foram treinados para distinguir as meias usadas por indivíduos infectados e não infectados.

Das 175 amostras testadas, os cães foram capazes de identificar corretamente 70% das amostras infectadas pela malária, enquanto 90% foram capazes de detectar meias usadas por indivíduos não infectados. Os resultados não são perfeitos, mas estão longe de ser apenas acaso. Em um cenário do mundo real, os cães de detecção poderiam sinalizar indivíduos para uma triagem extra, permitindo que funcionários de saúde realizem testes de diagnósticos padronizados.

Embora promissora, essa estratégia de triagem não vem sem desafios. Ela pode exigir contato próximo entre um cão e um indivíduo, o que pode ser assustador para algumas pessoas. Além disso, peças de roupa teriam que ser removidas e cheiradas pelos cães, o que também não é ideal. No mínimo, essa última pesquisa fornece uma importante prova de princípio, mostrando que os cães podem ser úteis para detectar a malária em alguns locais.

“O possível potencial de treinar cães para detectar doenças tropicais onde os diagnósticos são ruins… é enorme”, disse Claire Guest, CEO da Medical Detection Dogs e coautora do estudo, em um comunicado. “Acredito que esse estudo indica que os cães têm uma excelente capacidade de detectar a malária, e, se apresentados diante de um indivíduo infectado com o parasita ou uma peça de roupa recentemente usada, seus níveis de precisão serão extremamente altos. Trata-se de um teste confiável e não invasivo e que é extremamente animador para o futuro.”

Essa é, sem dúvida, uma boa ideia, mas o valor verdadeiro dessa pesquisa pode ser a forma como ela inspira soluções tecnológicas. Se o nariz de um cão pode farejar a malária, é concebível que um dispositivo de diagnóstico portátil modelado a partir do sistema olfativo canino possa ser desenvolvido. Mas falar é fácil: os cães têm 300 milhões de receptores no nariz, em comparação com os seis milhões no nariz humano. Vai levar algum tempo para a nossa tecnologia alcançar a evolução.

[University of Durham]

Imagem do topo: Medical Detection Dogs