Não é nenhum segredo que o gelo ao redor do mundo está recuando à medida que as temperaturas aumentam. Mesmo assim, a repentina desestabilização de uma calota de gelo no Ártico Russo deixou cientistas boquiabertos, a ponto de usarem termos como “extraordinário” e “sem precedentes”.

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As imagens mais detalhadas já vistas da espessura das calotas polares da Terra

O espanto é porque a Calota de Gelo Vavilov, localizada na Ilha da Revolução de Outubro, situada entre os mares de Kara e de Laptev, fica em um deserto polar. Nessa região, as geladas temperaturas e o tempo seco deveriam manter o gelo firmemente ligado ao solo. Porém, o que está acontecendo é justamente o contrário: parte do gelo de Vavilov está indo em direção ao oceano. Na década de 90, esse deslocamento era de meras polegadas por dia; em 2015, ele já havia acelerado para 25 metros por dia.

A descoberta levanta a problemática possibilidade de que outras calotas de gelo do deserto polar — mantas de gelo em miniatura que são encontrada principalmente em grandes elevações — podem sofrer com desestabilizações rápidas e repentinas causadas pelo aquecimento terrestre.

“É surpreendente que a Calota de Gelo Vavilov, que até pouco tempo atrás era uma calota de gelo aparentemente estável, com um alicerce quase completamente congelado e praticamente todo acima do nível do oceano, possa descarregar uma proporção tão grande de seu gelo no oceano em um período de tempo tão curto”, escrevem os cientistas em um novo artigo na Earth and Planetary Science Letters.

A equipe de pesquisa — liderada pelo geologista Mike Willis, da Universidade do Colorado em Boulder — usou satélites operados pela DigitalGlobe para monitorar a velocidade e da espessura da calota de gelo ao longo do tempo. Por volta de 2010, eles notaram que a o desprendimento da calota estava formando uma geleira, que crescia na margem oeste. O deslocamento ficou muito mais rápido em 2015.

A região de gelo avançou apenas 400 metros entre 1952 e 1985, diz o artigo, mas, entre 2015 e 2016, o deslocamento foi de 5 quilômetros oceano adentro. A aceleração é retratada no time lapse feito por imagens de satélite no vídeo acima.

Os autores suspeitam que o deslizamento repentino aconteceu porque a parte de baixo do gelo ficou mais úmida, possivelmente porque a água formada pelo derretimento da camada superior percolou pelas fissuras. Outro fator é a progressão da frente da geleira em sedimentos mais escorregadios. Ela ficou mais lenta por volta de 2017; mesmo assim, dizem os pesquisadores, é “improvável” que a calota recupere a massa perdida por causa do clima cada vez mais quente.

Stef Lhermitte, especialista em satélites e detecção remota na Universidade de Tecnologia de Delft que estuda geleiras e mantos de gelo por todo o mundo, chamou o que vem ocorrendo com a Calota de Gelo Vavilov de “notável”, em um e-mail ao Gizmodo.

“Nós temos conhecimento de 2300 geleiras surgindo dessa forma, mas não há evidências históricas de comportamentos parecidos com a Calota de Gelo Vavilov”, diz Lhermitte. “Apesar de ser difícil fazer a previsão de eventos similares no longo prazo, isso mostra que as condições limites podem mudar rapidamente em ambientes de regiões frias.”

Calotas de gelo como a Vavilov cobrem cerca de 440.000 km² da superfície do nosso planeta e têm o potencial de aumentar o nível dos mares em 30 cm, de acordo com o estudo. Os satélites que monitoram as regiões geladas da terra vêm passando por melhorias. Logo, vai ser possível olhar melhor para essas regiões e verificar se elas são tão estáveis como pensávamos. Não seria a primeira vez que questionamos essa premissa.

Imagem do topo: Ilha da Revolução de Outubro, local da Calota de Gelo Vavilov, no centro da imagem de satélite da NASA em 2001. Créditos: NASA/GSFC (Wikimedia)