A vida de um caranguejo eremita é feita de repetições: encontrar uma casca de caracol abandonada; viver nela; se alimentar de manchas de detritos; crescer; encontrar uma concha ligeiramente maior; e repetir todos os passos até o resto de sua vida crustácea. A parte mais onerosa é estar continuamente melhorando sua casca, um processo que pode ficar bastante competitivo, com outros caranguejos ao redor. Entretanto, uma recém-descoberta espécie de caranguejo eremita evita todo esse aluguel de cascas, optando por residir dentro de um coral vivo, que cresce junto com o caranguejo, significando que não existe mais a necessidade dele se realocar uma vez que seu cômodo fica um pouco apertado.

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Conheça o Diogenes heteropsammicola, descoberto por cientistas da Universidade de Kyoto, no Japão, e descrito em um artigo publicado nesta quarta-feira (20), no periódico PLOS ONE. Os pesquisadores encontraram a espécie pela primeira vez durante pesquisas de habitats de água rasa nas Ilhas Amami, uma cadeia de ilhas subtropicais ao norte de Okinawa. O minúsculo novo caranguejo eremita é certamente incomum em sua aparência — vermelho com garras brancas e com membros mais longos e finos do que o normal para um caranguejo eremita — mas é o que o caranguejo carrega em suas costas que é tão incomum. O Diogenes heteropsammicola parece apenas usar corais vivos, isolados e em crescimento como casas. Embora alguns caranguejos eremitas sejam conhecidos por ter casas que crescem com seus corpos (como esses carinhas do fundo do mar recém-descobertos que carregam por aí uma colônia de anêmonas), essa nova espécie japonesa é a primeira a usar um coral vivo — comportamento que é ainda mais surpreendente considerando que esses corais em particular são famosos por abrigar um inquilino completamente diferente.

Os dois tipos de corais isolados em que o novo caranguejo eremita foi encontrado (Heteropsammia Heterocyanthus) são normalmente ocupados por um verme marinho simbiótico (“sipuncula”). O sipuncula e o coral evoluíram em torno de um acordo mutualmente atrativo. O verme vive em uma cavidade na base do coral, tendo abrigo e proteção dos tentáculos picantes do coral. Conforme o sipuncula coloca a cabeça para fora e se projeta para frente em busca de comida no fundo macio do mar, ele arrasta o coral consigo. O pólipo de coral ganha então transporte através do habitat como resultado. O amiguinho verme do coral fornece um serviço premium a ele, continuamente garantindo que o coral não seja enterrado pelo sedimento do fundo do mar.

O acordo é tão atrativo que parece que o caranguejo eremita decidiu que quer fazer parte. O Diogenes heteropsammicola parece ter evoluído de forma a agir como um substituto completo do sipuncula no relacionamento entre verme e coral. Ele tem várias características físicas que sugerem um estranho “télson”, que é o segmento do abdômen mais distante da cabeça. Para maioria dos caranguejos eremitas, a ponta da frente pode ser adoravelmente nervosa, mas a ponta traseira é definitivamente nada bonita, parecendo um rabisco de queijo triste e empapado. Esse télson macio tipicamente fica torcido para a direita, tendo evoluído para encaixar com a costumeira direção das espirais de conchas de caracol. Mas no Diogenes heteropsammicola, o traseiro é simétrico, provavelmente uma adaptação para viver nos corais, que têm cavidades que podem torcer para ambas as direções.

Os cientistas também observaram o comportamento de caranguejos eremitas coletados de uma rede de arrasto e colocados em um aquário e descobriram que, assim como o sipuncula, o caranguejo é meticuloso ao limpar detritos e sedimentos de seu gracioso anfitrião. Portanto, não apenas ele roubou a casa do verme, mas também seu trabalho.

A tática de pouco desperdício e sustentável desse caranguejo na habitação é algo não convencional entre caranguejos eremitas, e o bangalô de coral não encontra precedentes, mas a verdadeira maravilha biológica é o envolvimento de sua intromissão em um relacionamento simbiótico já estabelecido. Estamos falando de um animal que evoluiu para tirar proveito ao se colocar perfeitamente em um papel ecológico altamente específico já ocupado por uma criatura completamente não relacionada a ele. Quando espécies se veem presas em uma situaçao de codependência mútua e evoluída, qualquer alteração de responsabilidade para outras espécies é rara, e só se ouviu falar disso entre espécies muito próximas. Graças a essa descoberta, agora sabemos que esse nem sempre é o caso.