Em um terreno mal cuidado e aparentemente vazio a 95 quilômetros ao leste de Los Angeles, a Dra. Alexis Gray, uma antropóloga forense do Departamento de Polícia do Condado de San Bernardino, aponta para uma cerca de arame no horizonte, as montanhas estendendo-se ao infinito na atmosfera abafada. “Existem 7.000 pessoas entre nós e aquela cerca”, ela diz. Por quase uma década, seu trabalho tem sido identificar cada uma dessas pessoas.

De 1908 até 2008, esse terreno de 1 hectare e meio nos limites de um cemitério de San Bernardino se tornou o local de descanso da maior parte dos corpos não-identificados do condado. Nem todos os corpos, no entanto, são não-identificados: muitos dos cadáveres são de indigentes, o que significa que seus parentes não tinham dinheiro para um enterro, ou que ninguém se ofereceu para pagá-lo. Mas cerca de 10% desses corpos — cerca de 700 cadávares — foram enterrados sem nenhuma identificação. Alguns foram vítimas de assassinatos ou sequestros, mas a maioria simplesmente foi apagada da sociedade. O governo pagou seus funerais, e se assegurou de que eles seriam enterrados propriamente. Mas décadas depois — ou um século depois, em alguns casos — ninguém sabe quem eles são.

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Alças de caixões enferrujadas descansam sobre lápides de pedra. Muitos dos corpos nesse terreno foram enterrados há 70 ou 80 anos.

Graças aos avanços na ciência forense que ocorreram nos últimos anos, existem mais chances de identificar esses corpos. Desde 2006, Gray e sua equipe têm exumado os corpos não-identificados, confirmando suas descrições com o certificado de enterro, e mandando amostras de seus restos mortais para o norte da Califórnia, onde elas passam por um teste de DNA.

Até o momento, eles exumaram 79 corpos. Desses, oito foram identificados.

Nomeando os mortos

O Projeto de Pessoas Não-Identificadas do Condado de San Bernardino é uma das várias iniciativas que foram lançadas no estado na rebarba do projeto de lei 297 do estado da Califórnia, oficializado em 2001, que obrigava todos os condados a usar análises de DNA modernas para identificar restos mortais não-identificados. O único porém, e o que vem atrasando o progresso de vários condados, é que o projeto de lei não assegura nenhuma ajuda financeira para a identificação desses corpos. O que significa que os cientistas tem que improvisar.

Falando rápido e com sílabas cortadas, com os cabelos presos em um rabo de cavalo debaixo de um chapéu de caubói branco, Gray poderia facilmente interpretar uma detetive forense genial em CSI: San Bernardino (na verdade, ela já foi uma consultora da série Bones). Não é de se surpreender que tenha sido dela a ideia de transformar o projeto de San Bernardino em um programa de estudo para os alunos do Instituto de Pesquisa de Campo.

“Se chamássemos uma empresa privada para vir aqui e usar uma escavadeira, como em um processo mortuário comum, cada desenterramento custaria US$2.000”, diz Gray. “Ao transformar isso em um estudo de campo, criamos uma experiência única — não existe nada parecido com isso no país”. Ao invés de passar suas férias na praia, ou trabalhando em um laboratório com ar-condicionado, esses 24 estudantes decidiram escavar sepulturas em um calor de 40 graus.

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Gray, usando seu chapéu branco, se posiciona ao lado do Dr. Craig Goralski e dá instruções para os estudantes, que estão examinando um corpo.

No futuro, alguns desses estudantes irão trabalhar em condições igualmente desconfortáveis e perigosas, identificando vítimas de genocídio ou desastres naturais.  “Estamos os ensinando a coletar amostras de DNA, mas ao mesmo tempo estamos ensinando técnicas que alguns estudantes irão utilizar em outras partes do mundo, como na Bósnia e na Argentina, lugares onde existem muitas valas comuns de pessoas desaparecidas”, afirma Gray. Nesses lugares eles podem não ter luxos como um GPS ou imagens de satélite, o que também é o caso nessa escavação. Ela segura um pedaço de isopor para mostrar o tipo de informação disponível para esses estudantes: um mapa do cemitério de 1949, criado pela Diretoria de Supervisão do condado.

O mapa, que contém cada túmulo numerado de acordo com os documentos oficiais, está quase sempre correto: as covas estão organizadas em ordem cronológica, com pequenas lápides enterradas no canto de cada tumba. Mas, como os estudantes já descobriram, o mapa não abarca as improvisações feitas ao longo dos anos. Alguns coveiros decididiram cavar covas mais estreitas do que o mapa descreve, mudando vários caixões de lugar para economizar um pouco de espaço. A largura dos espaços entre as covas aumenta e diminui de acordo com o meio de transporte utilizado nos enterros — carroças, caminhonetes, escavadeiras. A cerca que serve de referência já foi expandida três vezes.

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O não-muito-confiável mapa de 1949 mostra a localização de 7.000 covas.

Radares, que poderiam ser utilizados para localizar covas específicas, não funcionam muito bem aqui — existem corpos demais, espremidos um do lado do outro, e é difícil dizer onde uma cova termina e a outra começa. Usando uma bússola e uma pá, os estudantes tem que contar com a sorte e cavar sem parar. Quando eles localizam os corpos, os estudantes marcam o local geograficamente e utilizam um taqueômetro (o que engenheiros de trânsito usam para construir ruas) para inserir essas coordenadas no mapa que estão construindo. O grupo está basicamente digitalizando um cemitério de 65 anos.

Exumando os corpos

Hoje, há quatro grupos amontoados debaixo de tendas azuis, que fornecem a sombra que esses estudantes precisam para trabalhar. Cada grupo irá desenterrar e analisar apenas uma cova, um processo trabalhoso graças à natureza das valas de indigentes custeadas pelo Estado: a maioria dos “caixões”, se é que podemos chamá-los assim, era feita de madeira compensada, e muitos já se deterioraram completamente. Alguns deles, graças aos 1000 quilos de solo que os afundam há mais de um século, quebraram em cima de seus ocupantes, quebrando ossos importantes. É um trabalho delicado, e o parceiro de Gray, o antropólogo Dr. Craig Goralski, me explica exatamente como ele é feito.

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Madeira de um caixão deteriorado, enfiado na terra retirada de uma cova.

Os estudantes começam com pás. Quando o buraco chega entre os 60 e 90 centímetros de profundidade, os estudantes encontram madeira — ou qualquer outro fragmento ainda existente, que são recolhidos e postos de lado. Na sequência, os estudantes mudam para as espátulas, depois pequenos pauzinhos, depois pincéis, para não danificar os corpos. Eles retiram toda a terra e fotografam os restos mortais. É aí que vem o momento crítico: medir os ossos para descobrir pistas como a idade, o sexo e a ancestralidade dos corpos. É assim que eles descobrem se escavaram o Fulano ou a Fulana certos.

Comparar o mapa com os documentos do cemitério e do próprio governo ajuda a confirmar a descrição de quem eles exumam. Para cada corpo, há um laudo que registra as informações anatômicas básicas, incluindo qualquer trauma em potencial, que costuma ser a parte mais importante para o processo. “Se sabemos que o Fulano que estamos procurando levou um tiro no peito e uma das suas costelas está quebrada, podemos conferir esses dados para saber se escavamos o cara certo”, diz Goralski. “Precisamos chegar às mesmas conclusões que o legista chegou há 60 anos atrás.”

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Os corpos são postos em sacos mortuários marcados com todas as informações necessárias, e depois enterrados mais uma vez. Nenhum dos restos mortais deixa o cemitério.

Um detalhe que eles sempre tem que corrigir, no entanto, é a classificação de raça do legista. “Descobrimos que a forma com que a ancestralidade era documentada no passado é bem diferente de como ela é documentada hoje”, diz Goralski. Naquele tempo, a raça padrão para quem não fosse branco ou negro era “mexicano”, mesmo que a pessoa não tivesse nenhum ascendência hispânica. Aqui, o time se atêm às características osteológicas, traços no esqueleto particulares a certas etnias. Incisivos em formato de pá, por exemplo, são uma característica comum a várias culturas Nativo-Americanas — cujos membros podem ter sido descritos, no passado, como “mexicanos”.

Após a confirmação, uma amostra do corpo deve ser mandada para o Departamento de Justiça do Estado, para a análise genética. Apesar dos laboratórios preferirem um osso grande e denso como o fêmur, eles não precisam de um osso tão grande para conseguir um resultado correto. “Os ossos dos dedos do pé tem sido supreendentemente úteis”, diz Gray. “Nós costumávamos usar dentes, e, se os dentes ainda estão inteiros, é o que mandamos para o laboratório. Mas, normalmente, nós usamos um dedinho.”

Analisando o DNA

É nesse ponto que toda a informação coletada pelo programa vai parar nas mãos de Bob Hunter, um investigador do Departamento de Polícia de San Bernardino, que trabalha com o Departamento de Justiça em todos os casos relacionados ao cemitério. “Mandamos um pedaço de osso de uma pessoa desconhecida para Sacramento — as instalações oficiais ficam em Richmond, na Califórnia — e se eles conseguirem analisar os alelos do osso, o DNA é inserido no banco de dados CODIS”, diz Hunter.

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Apesar da análise de DNA ser uma tecnologia de última ponta, a maioria das ferramentas utilizadas no campo são tradicionais, como as peneiras utilizadas para achar fragmentos de ossos.

CODIS é o Sistema de DNA Combinado organizado pelo FBI, um programa nacional responsável pela classificação e análise de DNA.  Hunter afirma que, apesar da análise de DNA ter sido uma ferramenta muito útil durante a última década, a tecnologia melhorou drasticamente nos últimos anos. “Existem casos ainda mais antigos nos quais as amostragens foram refeitas, e que finalmente resultaram em uma análise de DNA adequada”. Mas mesmo com uma boa amostra, o CODIS precisa ter algo a que ela possa ser comparada: um parente da pessoa desconhecida também deve ter disponibilizado seu DNA para o sistema, seja voluntariamente ou através de uma investigação criminal anterior.

O que significa que às vezes, Hunter tem que voltar à investigação. Armado com todas as informações biométricas confirmadas pelo processo de exumação, ele mergulha nos registros do governo, que existem desde 1890, ou revira jornais velhos. Normalmente, ele não teria o pessoal necessário para cuidar de todos esses casos, mas com as novas estratégias desenvolvidas pela pesquisa, ele consegue solucionar esses mistérios com mais frequência. “Temos muita sorte pelo IRF ter iniciado esse programa”, ele diz. “Ele nos possibilita pegar casos antigos e recolocá-los no sistema.”

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O estudantes estão exumando quatro das 30 covas que o programa irá escavar durante o verão.

Isso não significa que o Estado compartilha esse sentimento de urgência. Existe uma parte do processo que está além do poder dos pesquisadores: a análise de DNA no laboratório da Califórnia, onde os cientistas priorizam os homicídios recentes. Apesar de alguns casos do Projeto de Pessoas Não-Identificadas terem sido solucionados em alguns meses, eles ainda estão esperando pelo resultado de casos que foram exumados em 2004. “Estamos lidando com os casos mais engavetados de todos”, diz Goralski. “Não temos prioridade.”

 

Mas há um prazer em trazer um caso engavetado à superfície — tanto literal quanto metaforicamente — através desse projeto. Recentemente, o grupo exumou um homem encontrado em um campo póximo, que, segundo o laudo do legista, morreu de overdose alcoólica. O caso era tão antigo que a carta do FBI acerca da investigação foi assinada por J. Edgar Hoover. Eu pude estudar todo o caso — o laudo do legista, recortes de jornais antigos, as fotografias da cena do crime, a definição da vítima como “mexicano”, que, como eu havia descoberto antes, era uma classificação geral aplicada à maioria das pessoas não-caucasianas. Tudo isso, somado ao fato do corpo ter sido enterrado em uma cova a alguns metros de onde eu estava, transforamaram essa vítima em uma pessoa de verdade.

Eu ainda não consegui esquecê-lo. Será que eles irão encontrar a família desse homem? Será que alguém se preocupou com seu sumiço?

Um final feliz para as famílias

Enquanto bebericávamos Gatorade debaixo das tendas azuis, Gray me contou a história de uma garota que desapareceu nas montanhas quando andava para o colégio, nos anos 60. “Isso sempre envolve um pouco de sorte, porque precisamos que algum membro da família do desaparecido tenha dado uma amostra de DNA para o sistema”, ela diz. “Mas nesse caso, sua irmã não havia desistido dela”. Quando eles exumaram o corpo em 2012, o laboratório encontrou um DNA correspondente — o da irmã da garota desaparecida, que havia registrado seu DNA no sistema, na esperança de que sua irmã fosse encontrada. Ambas a irmã e a mãe da menina ainda estavam vivas. Gray pode dar um pouco de paz para essa família, 40 anos depois.

“Só isso já compensou cada segundo que eu passei nesse calor, porque eu também sou uma mãe”, ela diz, sua fala rápida se desacelerando e seus olhos ficando mais suaves. “Eu nem consigo imaginar como é ter um filho desaparecido por 40 anos. É por isso que a gente faz o que a gente faz”.

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Uma tumba que foi exumada, investigada e marcada com uma nova etiqueta digital, e que está sendo coberta mais uma vez. Os resultados dos testes de DNA podem demorar anos.

Obrigar cada californiano a disponibilizar seu DNA seria uma medida controversa e polêmica, e existe uma probabilidade mínima do estado aplicar qualquer tipo de registro mandatório. Mas se algo ficou na minha cabeça mesmo após sair do cemitério, esse algo foi o seguinte: se algum parente seu desapareceu, registre o seu DNA. Mesmo que nenhum membro da sua família tiver desaparecido, Gray recomenda que todos registrem seus DNAs. “E se eles não puderem se comunicar? E se eles sofrerem um acidente e não puderem falar? Um DNA registrado nos ajudaria a achar algum parente.”

Alguns minutos depois, Gray estava de volta ao modo velocidade máxima, metralhando os membros do seu time com uma série de perguntas rápidas. “Olha esse ângulo subpúbico aqui, você definiria ele como amplo ou estreito?” “Os buracos no crânio, você vê um ou dois?” Como a antropóloga forense de um dos maiores condados dos enormes Estados Unidos, Gray tem que investigar muitos casos, em lugares muito distantes, e ela não tem o luxo de perder tempo. Ela ensina seus alunos a serem tão eficientes quanto ela.

Mas existe outra razão para esse projeto ser tão apressado. O corpo mais antigo que eles já exumaram é de alguém que morreu em 1927. As chances de uma dessas pessoas ter parentes vivos diminui a cada dia.

Todas imagens fotografadas por Alissa Walker