Cerca de 1,5 mil anos atrás, uma poderosa erupção vulcânica devastou o que hoje é El Salvador, levando a civilização maia a um período temporário de declínio. Hoje, uma nova pesquisa sugere que a pirâmide monumental, conhecida como estrutura Campana e localizada perto do vulcão, foi construída pelos maias logo depois, como uma resposta ao desastre natural.

A erupção da Tierra Blanca Joven foi o evento vulcânico da América Central mais significativo dos últimos 10 mil anos e uma das erupções mais fortes da Terra ocorridas nos últimos 7 mil anos. A estimativa é que a caldeira de Ilopango explodiu por volta de 539 dC, devastando as áreas circundantes, incluindo assentamentos nas proximidades. A cinza vulcânica branca, conhecida como tephra, chegava à cintura até 35 km da abertura vulcânica e, em alguns lugares, tinha até 10 metros de espessura.

“Imagine só – parecia neve cobrindo o mundo tropical”, disse Akira Ichikawa, autor do novo artigo e arqueólogo da Universidade do Colorado em Boulder, ao Gizmodo. “Portanto, teria sido fatal para plantas e animais que viviam perto do local.”

A erupção foi um desastre local, mas também causou um resfriamento temporário do clima em todo o hemisfério norte. Muitas comunidades maias ao redor do vulcão tiveram que ser abandonadas, resultando em um período histórico conhecido como “Hiato Maia”.

A pesquisa, publicada na revista científica Antiquity, revisita esse evento cataclísmico para entender melhor como ele afetou o sudeste dos maias e quanto tempo levou para se recuperar. Há um debate sobre o assunto, com uma linha de pensamento acreditando que os maias levaram séculos para se recuperar, enquanto outras especulam sobre um retorno rápido. A falta de consenso tem a ver com a escassez de evidências arqueológicas, como Ichikawa escreveu em seu estudo:

As tentativas de correlacionar mudanças ambientais abruptas com declínio social ou desenvolvimento são complicadas por vários fatores, incluindo tamanho da população, complexidade social e desigualdades econômicas e políticas. Além disso, pode ser difícil medir o impacto desses desastres nas sociedades humanas com base apenas na magnitude de tais eventos perigosos. Assim, para avaliar o impacto da erupção [Tierra Blanca Joven] nas comunidades locais, são necessários mais dados arqueológicos com contexto cronológico claro em relação ao evento.

O cientista investigou o sítio maia de San Andrés, no Vale Zapotitán, um antigo assentamento localizado a 40 km a oeste do vulcão. De 2015 a 2019, ele conduziu escavações e datação por radiocarbono para analisar as fases iniciais de construção de várias estruturas, incluindo a pirâmide monumental.

Construída sobre uma plataforma, ela era a maior estrutura do Vale do Zapotitán na época. Com um volume total de 33 mil metros cúbicos, a Campana tinha 13 metros de altura e cerca de 40 metros de largura.

O trabalho do pesquisador mostrou que a construção começou nos primeiros cinco a 30 anos após a erupção vulcânica, e não mais do que 80 anos depois. Portanto, os maias não apenas retornaram a San Andrés com bastante rapidez, como também decidiram construir uma pirâmide gigantesca. Isso, ele argumenta, é a evidência de uma rápida recuperação após o desastre.

Além disso, Ichikawa acredita que os “sobreviventes e/ou reassentados no Vale do Zapotitán podem ter construído o monumental edifício público em San Andrés em resposta à maciça erupção”, como ele escreve no estudo. A pirâmide pode ter servido a um propósito religioso e possivelmente foi vista como uma espécie de proteção contra a catástrofe, disse ele.

Como detalha o artigo, a estrutura foi construída a partir de uma combinação de tefra vulcânica e preenchimento de terra. Incrivelmente, uma boa parte da pirâmide, portanto, foi construída a partir do próprio vulcão. Isso faz sentido do ponto de vista prático, já que a tephra é um material de construção eficaz, mas a “cinza branca emitida pela erupção pode ter sido percebida como tendo um significado religioso ou cosmológico poderoso”, de acordo com o estudo. Na verdade, muitos mesoamericanos viam as montanhas e vulcões como lugares sagrados. Para Ichikawa, o uso significativo de cinzas vulcânicas é a chave para sua hipótese.

“Estruturas monumentais ou pirâmides eram consideradas metáforas para montanhas sagradas”, escreveu ele por e-mail, acrescentando que esses lugares estavam ligados à origem da criação, considerados espaços de vida para divindades e um canal para o céu e o mundo subterrâneo. É possível, disse ele, que algumas pessoas tenham percebido a erupção como um sinal de “terra furiosa” e que, ao construir uma importante estrutura monumental de cinzas vulcânicas, eles tenham possam ter encontrado uma solução para acalmar essa raiva.

Mas, como Ichikawa também argumenta, o projeto em grande escala também ajudou a restabelecer a ordem social e política no Vale do Zapotitán. Teria sido um grande esforço da comunidade (entre 500 e 1,5 mil pessoas), exigindo cooperação e integração social — e provavelmente reuniu sobreviventes da erupção e recém-chegados à região.

Além do mais, o projeto de construção poderia ter restabelecido o poder político dos governantes após o desastre. Dito isso, Ichikawa não acredita que houve coerção durante o processo, já que não existia uma sociedade altamente hierárquica na época. O projeto pode ter começado como um esforço comunitário e colaborativo, mas alguns líderes podem ter surgido naquele momento, explicou o especialista. Curiosamente, San Andrés se tornaria o principal centro do vale.

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O novo artigo é fascinante e o cientista pode estar correto sobre a rápida recuperação e como a pirâmide foi construída em resposta à erupção, mas são necessárias mais evidências. Ele admite isso no artigo, dizendo que “são necessárias mais investigações de locais afetados por eventos vulcânicos”. Independentemente disso, o novo estudo está nos ajudando a entender como algumas sociedades humanas se recuperaram de mudanças ambientais repentinas e calamitosas.