Você pode ter lido recentemente em sites como o Washington Post , NBC e, é claro, a Newsweek , que algumas pessoas estão desenvolvendo um “chifre” ou “espinho” na parte de trás do crânio de tanto usar o celular.

Se você estava empolgado em ganhar uma protuberância futurista, lamento desapontá-lo, mas a ciência por trás disso não é muito consistente.

Estudos dos pesquisadores australianos David Shahar e Mark Sayers, da University of the Sunshine Coast, espalharam-se pela mídia australiana, com manchetes como “As gerações mais jovens estão desenvolvendo chifres na cabeça”. Esses artigos já foram citados por jornalistas de todo o mundo. Os pesquisadores estudaram projeções ósseas anormalmente grandes que parecem crescer a partir da base do crânio de algumas pessoas. A cobertura de notícias resultante afirma que o aumento do tempo que se passa em frente às telas causou mais desse fenômeno em pessoas mais jovens.

Mas esses estudos não provam, de fato, uma ligação entre o uso de celulares e o tamanho desses “chifres”. Um dos documentos frequentemente citados diz no abstrato: “Nossa hipótese é que a EEOP [protuberância occipital externa ampliada, sigla em inglês] pode estar ligada a posturas aberrantes irregulares associadas ao surgimento e uso extensivo de tecnologias contemporâneas que requerem o uso das mãos, como smartphones e tablets”. É uma hipótese. Não é uma hipótese comprovada. A maioria das pessoas que compartilharam o artigo provavelmente ficaram surpresas por termos um pedaço de osso em nossa cabeça, quanto mais que algumas pessoas têm uma versão ampliada disso.

O que os estudo realmente dize? Bem, um deles demonstrou que essas projeções parecem maiores para certas amostras de pessoas mais jovens (como de 18 a 30 anos). Outro estudo revelou apenas quatro adolescentes com tais crescimentos do osso, observando que “influências mecânicas”, como o estresse nas articulações, “são uma causa potencial para esse fenômeno nesta amostra”. O terceiro comparou o tamanho do “chifre” para estudar a idade dos participantes, sexo, e quão pra frente sua cabeça era projetada comparada à espinha.

Para esse terceiro estudo, os pesquisadores analisaram os números e relataram que muitos (35% a 40%) dos jovens que eles estudaram pareciam ter crescimentos ósseos maiores na parte de trás da cabeça, e que os meninos tendiam a ter protuberâncias maiores, embora os gráficos apresentados no estudo não pareçam realmente sustentar essa segunda conclusão, como aponta o antropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison, em um blog post. Mas, talvez o mais importante, eles não realizaram testes comparando aqueles que usaram smartphones a um grupo de controle que não utilizou ou que usaram menos os smartphones. Isso significa que você não pode culpar os celulares pelos crescimentos ósseos.

Existem outros problemas potenciais também. O New York Times apontou que os dados vieram de pessoas que já estavam com dor suficiente para visitar um quiroprático, de acordo com esse documento – outra possível razão pela qual tantas pessoas apresentaram a anomalia.

Mesmo que os estudos encontrassem algum tipo de correlação entre os celulares e esses crescimentos ósseos anormalmente grandes, outros ainda precisariam replicar o trabalho antes que pudéssemos confiar totalmente nas conclusões.

Claro, é uma hipótese interessante, e se a má postura está levando a um crescimento ósseo anormal, isso é ruim – e, sim, já sabemos que há consequências físicas em ficar em frente a telas o dia todo, como dor no pescoço e nos ombros. Mas se vamos entrar em pânico com o crescimento ósseo em nossos crânios induzido por smartphones, devemos nos basear em estudos que realmente se dedicam a provar essa hipótese.