Centenas de criaturas marinhas mortas apareceram na costa do Extremo Oriente da Rússia. Todos os sinais apontam para a poluição da água, neste episódio que integra uma série de catástrofes ambientais que estão acontecendo na Rússia este ano.

A contaminação, relatada pela primeira vez no mês passado, deixou uma lama amarela borbulhante na água da costa da Península de Kamchatka, um pedaço de terra que fica entre o Mar de Bering e o Mar de Okhotsk. O caso está sendo investigado atualmente pelo Gabinete do Procurador Ambiental regional de Kamchatka, mas ninguém ainda tem certeza de onde veio os corpos dos animais mortos.

A lama espessa, que contrasta fortemente com as águas cristalinas da região, está agora se movendo para o sul ao longo da costa russa. Nas redes sociais, ativistas do Greenpeace Rússia disseram que a lama amarela está se aproximando dos vulcões da Península de Kamchatka, que são reconhecidos internacionalmente como Patrimônio Mundial. Em um post no Twitter, os ativistas acrescentaram que obtiveram amostras de água da região e descobriram que continham níveis de petróleo quatro vezes maiores que o normal e níveis de fenol 2,5 vezes maiores que o permitido.

Os moradores locais também encontraram focas mortas e polvos na Praia Khalaktyrsky, um local popular entre os surfistas, conhecido por sua areia negra vulcânica. Não são apenas os animais que estão sendo feridos pela gosma tóxica e misteriosa. Surfistas e nadadores dizem que tiveram visão turva, olhos ardentes, náuseas, febre e fadiga.

No Twitter, Nikolai Lyaskin, que trabalha para a campanha do líder do partido de oposição mais conhecido da Rússia, Aleksei Navalny, compartilhou um vídeo que mostra uma praia completamente coberta por centenas ouriços-do-mar e estrelas do mar mortos:

Kamchatcka é uma das áreas mais remotas da Rússia, conhecida por sua beleza e vida selvagem. Em um comunicado, o Greenpeace Rússia pressionou o Ministério de Recursos Naturais, o Ministério da Defesa e a Procuradoria-Geral da República a não apenas investigar o incidente, mas também pagar para limpá-lo. Segundo o grupo de ativistas, a região está enfrentando uma potencial “catástrofe ecológica”.

As autoridades estaduais estão minimizando a ameaça que a poluição representa. Em uma entrevista à agência de notícias RIA, o ministro do meio ambiente russo, Dmitry Kobylkin, sugeriu que as pessoas afetadas simplesmente usassem colírios para tratar a ardência nos olhos, alegando que “ninguém ficou ferido” e que a poluição provavelmente veio de causas naturais.

No entanto, especialistas discordam, incluindo o biólogo e especialista em focas Vladimir Burkanov. Em um artigo publicado no jornal Novaya Gazeta, ele disse que as toxinas podem ter vindo de vazamentos de estoques de combustível de foguete antigos armazenados em bases militares nas proximidades. Ele observou que, pouco antes de a poluição ser documentada pela primeira vez no mês passado, uma tempestade trouxe fortes ventos para a região, o que poderia ter causado os danos. Em comentários à Deutche Welle, o chefe da organização ambiental sem fins lucrativos Sakhalin Environmental Watch, Dmitry Lisitsyn, observou que dois locais de testes militares ficam próximos ao local poluído.

Na última segunda-feira (5), o governador de Kamchatka, Vladimir Solodov, disse a repórteres que cientistas estaduais estão investigando se esse for o caso. Ele afirmou que outros possíveis culpados pelos animais mortos são a atividade vulcânica na área e a proliferação de algas que ocorrem naturalmente, mas são mortais. Em um vídeo do Instagram na terça-feira (6), ele acrescentou que a contaminação está diminuindo devido à capacidade do oceano de manter sua estabilidade marítima, mas que a investigação será mantida.

O incidente ocorre poucos meses após a ruptura de uma usina elétrica acima do Círculo Ártico que derramou 20.000 toneladas de óleo diesel no Rio Ambarnaya, na Rússia. Além disso, os ambientalistas criticaram o governo por minimizar a ameaça. E não vamos nos esquecer dos incêndios florestais alimentados pelas mudanças climáticas que têm marcado a região.