Quando Kevin Esvelt, biólogo evolucionário no MIT, começou a pensar em usar ratos geneticamente modificados para combater a doença de Lyme, entre seus primeiros compromissos estava uma reunião comunitária na pequena cidade de Chilmark, na ilha Martha’s Vineyard. Esvelt faz excursões constantes para conversar com o público sobre seu trabalho. Se um dia o potencial de ferramentas como o CRISPR para a solução de problemas de doenças, fome e catástrofe ambiental se concretizar, ele racionaliza, primeiro o público precisa ser convencido de que não está prestes a se instaurar o apocalipse.

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Conforme tecnologias como a modificação genética estão cada vez mais prontas para alterar o mundo em que vivemos, cientistas como Esvelt estão descobrindo que a divulgação ao público é tão parte de seu trabalho quanto a ciência em si.

Um novo estudo, no entanto, coloca dúvidas sobre se mais informações sobre a ciência podem de fato mudar a opinião de uma pessoa. Se alguém já está predisposto a descreditar evidências científicas sobre tópicos como a evolução humana, a mudança climática ou a pesquisa de células-tronco por causa de visões religiosas ou políticas, um estudo feito por cientistas sociais do Carnegie Mellon e divulgado no Proceedings of the National Academy of Science descobriu que aprender mais sobre o assunto pode na verdade aumentar sua descrença.

Isso, é claro, é um desafio enorme à ideia de que a educação conquista tudo.

“Descobrimos que crenças estão correlacionadas com identidade tanto política quanto religiosa em relação à pesquisa de células-tronco, ao Big Bang e à evolução humana, e com identidade política por si só em relação à mudança climática”, escreveram os pesquisadores. “Indivíduos com mais educação, educação científica e literária, demonstram crenças mais polarizadas sobre essas questões.”

Para julgar o quão “educado” alguém era, os pesquisadores observaram marcadores como o número de anos na escola, os graus de escolaridade mais altos obtidos, a aptidão para fatos científicos gerais e o número de aulas de ciência a que essa pessoa havia comparecido.

Houve algumas boas notícias: aqueles já predispostos a confiar na ciência corroborada por especialistas têm tendência maior a sempre acreditar nela. E dois tópicos que eles observaram — organismos geneticamente modificados e nanotecnologia — pareceram não ser afetados por crenças políticas ou religiosas.

Em um mundo altamente politizado, em que notícias científicas falsas podem ganhar tanta tração quanto as verdadeiras, cientistas têm cada vez mais focado em entender por que as pessoas não aceitam as descobertas de especialistas científicos sobre assuntos controversos.

“A negação da ciência, como um comportamento, e não um rótulo, é uma parte consequencial da sociedade que não deve ser ignorada”, escreveu John Cook, cientista cognitivo na Universidade George Mason, no início desse ano na National Review. “Quando as pessoas ignoram mensagens importantes da ciência, as consequências podem ser terríveis.”

Recentemente, vimos essas consequências terríveis se desenrolarem nos Estados Unidos. Os sentimentos dos anti-vacinas, apesar de a ciência claramente mostrar que elas são seguras, estimularam enormes surtos de sarampo no Minnesota. No Texas, a influência desse sentimento anti-vacina começou a tomar posse da legislação do estado (sem falar na Casa Branca).

Em Key West, embora cientistas tenham viajado até o local para reuniões comunitárias para ajudar a explicar a ciência por trás de uma proposta para liberar o combate ao Zika por modificação genética na área, a comunidade, por fim, acabou com a proposta — apesar de uma crise de Zika existente —,  em meio a rumores de que a presença de mosquitos geneticamente modificados poderia resultar em efeitos indesejados, como crianças estéreis.

A ciência já nos diz que as opiniões do público estão frequentemente separadas das da ciência. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center em 2015, embora 88% dos cientistas acreditem que seja seguro comer alimentos geneticamente modificados, apenas 37% do público acreditam. De modo parecido, 87% dos cientistas acreditavam que o planeta estava aquecendo por causa da atividade humana, enquanto apenas 50% do público creem no mesmo. O novo estudo, infelizmente, não explicou por que a discussão racional parece fracassar em espalhar a verdade aos lares.

O que tudo isso significa é que cientistas como Esvelt têm um trabalho muito mais duro do que imaginávamos — eles precisam apelar não apenas para nossas versões racionais, mas também para as nossas ideologias emocionais, políticas e religiosas na discussão pelo progresso.

Imagem do topo: AP