Em 2016, uma equipe de cientistas marinhos de diversos países viajou para a Antártica para aprender sobre os misteriosos ecossistemas sob suas vastas plataformas de gelo. Um grupo de geólogos recebeu a tarefa de fazer vídeos debaixo da plataforma de gelo Filchner-Ronne, que fica no sudeste do mar de Weddell.

Foi um desastre. Os cientistas perfuraram mais de 900 metros de gelo. Mas uma grande pedra cinza atrapalhou sua capacidade de obter uma boa amostra. Eles trouxeram as imagens para um laboratório na Universidade de Cambridge, mas ficaram desapontados – eles queriam sedimentos da plataforma de gelo para estudar, não vídeos de um pedaço de rocha.

Mas quando os biólogos em Cambridge viram a amostra, eles ficaram maravilhados, porque os pesquisadores acidentalmente encontraram uma série de criaturas estranhas que pareciam ser esponjas do mar da Antártica e capturaram o breve contato com a vida não identificada em uma GoPro conectada à broca.

Os pesquisadores ficaram chocados, porque as condições sob a segunda maior plataforma de gelo da Antártica onde eles viviam não são exatamente hospitaleiras para a maioria das formas de vida. As temperaturas lá ficam bem abaixo de zero, atingindo até -2,2 graus Celsius, e está sempre escuro. Suas descobertas foram documentadas em um novo estudo divulgado na segunda-feira (15).

“É como encontrar um pedaço da floresta tropical no meio do Saara”, disse Huw Griffiths, biólogo marinho do British Antarctic Survey que liderou a observação dos animais. “É o lugar errado para aquela coisa. Essa descoberta vai contra o que esperávamos ver até agora sob as plataformas de gelo”, acrescentou.

O mundo sob o gelo é um ambiente dinâmico, embora inóspito. Rochas alojadas na parte inferior de grandes pedaços de gelo podem cair à medida que as camadas se separam, fazendo com que caiam na água, representando um perigo para os submersíveis humanos. Mas essa “pedra suspensa” tornou-se o lar de várias espécies, algumas suspeitas de serem esponjas do mar da Antártica, assim como outros animais com ainda menos certeza sobre suas identidades.

Ainda mais incrível, os cientistas de laboratório reconheceram imediatamente que os animais eram alimentadores de filtro, ou seja, se alimentam separando a matéria suspensa e as partículas de comida da água. Mas as esponjas viviam a 260 quilômetros de distância do oceano aberto, de onde aquele alimento devia ter vindo. Elas não poderiam ter viajado para encontrar comida em outras fontes, porque estavam presos à rocha com pequenos caules carnudos.

“Esperávamos encontrar animais móveis, como peixes ou crustáceos, que pudessem viajar para encontrar as pequenas quantidades de alimento disponíveis”, disse Griffiths. “Os animais do vídeo estão presos à rocha, portanto não podem se mover. Isso significa que eles devem esperar que a comida chegue até eles!”

Griffiths é o principal autor do estudo sobre essas descobertas surpreendentes, publicado na segunda-feira na Frontiers in Marine Science. É o primeiro registro de uma comunidade de animais que vivem em uma superfície dura sob uma plataforma de gelo e desafia todas as teorias sobre quais tipos de vida podem sobreviver nessas condições extremas. Griffiths e sua equipe ainda não conseguiram descobrir como exatamente esses animais obtêm comida suficiente para permanecer vivos. Eles esperam aprender mais sobre as criaturas bizarras.

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“Embora seja baseado em observações limitadas, é uma descoberta surpreendente que é uma peça importante do quebra-cabeça sobre as esponjas antárticas”, escreveu César Cárdenas Alarcón, biólogo do Instituto Antártico Chileno que não era afiliado ao recente artigo. “Este trabalho também destaca a importância de desenvolver mais cruzeiros de pesquisa interdisciplinares para melhorar nossa compreensão dessas comunidades raras e também para entender os cenários potenciais, já que se espera que o colapso das plataformas de gelo aumente à medida que o aquecimento continua afetando a Antártica.”

A existência dos animais pode ter alguns biólogos revisando a hipótese da bola de neve da Terra, que sustenta que a vida complexa e multicelular não poderia ser iniciada até que o planeta saísse de uma fase gelada (que seria muito mais intensa que as eras glaciais mais recentes) há mais de 600 milhões de anos. Por mais extremos que sejam seus ambientes, Griffiths apontou, essas criaturas enigmáticas estão conseguindo sobreviver. Para aprender mais, será necessário algum planejamento, no entanto.

“Para responder às nossas perguntas, teremos que encontrar uma maneira de nos aproximarmos desses animais e de seu ambiente, que está abaixo de 900 metros de gelo”, disse ele. “Isso significa que, como cientistas polares, teremos que encontrar maneiras novas e inovadoras de estudá-los e responder a todas as novas questões que temos.”

As novas descobertas mostram o quanto os cientistas ainda estão aprendendo sobre as partes da Terra que geralmente ficam escondidas longe dos olhos humanos. Como observa o estudo, porém, a janela de oportunidade para estudar esses ecossistemas pode estar se fechando. Como as águas estão esquentando, muitas plataformas de gelo na Antártica correm o risco de desabar no mar. Isso inclui aquela sob a qual vivem as esponjas, a Plataforma de Gelo Filchner-Ronne. Se essa plataforma desabasse, não está claro se os animais enigmáticos recém-descobertos sobreviveriam por tempo suficiente para que os cientistas os descobrissem. Eles são apenas uma pequena parte do vasto mundo natural que podemos perder devido à crise climática.

“Os biólogos gostam de pensar que sabemos como tudo funciona”, disse Griffiths. “Quando alguém mostra algo que vai completamente contra tudo o que sabemos, isso deixa você meio animado de qualquer maneira.”