Os cientistas Hillel Furstenberg e Gregory Margulis ganharam o Prêmio Abel deste ano, que é considerado uma das maiores honras da matemática.

Os cientistas ganharam o prêmio “pelo pioneirismo no uso de métodos de probabilidade e dinâmica na teoria dos grupos, teoria dos números e combinatória”, de acordo com a citação do prêmio. Eles dividirão uma quantia de aproximadamente US$ 834.000, concedida pela Academia Norueguesa de Ciências e Letras.

“Os trabalhos de Furstenberg e Margulis demonstraram a eficácia de atravessar fronteiras entre disciplinas matemáticas separadas e derrubaram o muro tradicional entre matemática pura e aplicada”, disse Hans Munthe-Kaas, presidente do comitê do Prêmio Abel, em comunicado à imprensa.

Furstenberg nasceu na Alemanha em 1935, em uma família judia que fugiu para os Estados Unidos pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Ele foi criado em um bairro ortodoxo na cidade de Nova York e recebeu seu bacharelado e mestrado na Universidade Yeshiva antes de obter seu doutorado em Princeton em 1960. Ele trabalhou como professor assistente e depois professor titular da Universidade de Minnesota. Em 1965, foi trabalhar na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde ficou até 2003.

Enquanto isso, Margulis, nascido em Moscou em 1946, recebeu seu Ph.D da Universidade Estadual de Moscou em 1970 e ganhou a famosa Medalha Fields em 1978 — embora o governo soviético tenha se recusado a deixá-lo viajar para recebê-la. Trabalhou em várias instituições na Europa até a década de 1980 e está na Universidade de Yale, nos EUA, desde 1991.

O trabalho dos pesquisadores demonstra o uso de aleatoriedade e probabilidade para entender tópicos que abrangem os vários campos da matemática. Esta pesquisa baseia-se em ferramentas da teoria ergódica, o estudo de sistemas que visitam todos os seus possíveis estados ao longo do tempo, cuja evolução é analisada usando a teoria da probabilidade. Furstenberg concebeu disjunção nesses sistemas — um conceito semelhante à coprimalidade, em que dois números são chamados coprimos se o único divisor que compartilham é 1 — que encontrou aplicações na geometria, na engenharia e na teoria dos números.

Furstenberg também usou a teoria ergódica para fornecer uma nova maneira de provar o teorema de Szemerédi, que se refere a séries de números em que a diferença entre termos consecutivos é constante (como 1, 3, 5, 7, 9…), fornecendo novamente uma maneira entender um campo da matemática nos termos de outro — nesse caso, combinatória aritmética entendida através da teoria ergódica.

Margulis escreveu teoremas classificando e analisando objetos em álgebra abstrata chamados latices de grupos semi-simples. Suas técnicas também contavam com o uso de métodos da teoria das probabilidades. Furstenberg e Margulis não colaboraram diretamente, confiando nas ferramentas uns dos outros para fazer sua pesquisa.

Juntos, os dois cientistas desenvolveram dispositivos matemáticos que criaram ordem do caos — usando a aleatoriedade para produzir teoremas e ferramentas em campos não probabilísticos da matemática. Essas ferramentas são usadas hoje no estudo da teoria dos grafos, ciência da computação, álgebra abstrata e outros campos matemáticos díspares.

O prêmio foi uma surpresa total para Furstenberg, de acordo com uma entrevista. “Eu conhecia o prestígio do Prêmio Abel e conhecia a lista de ex-laureados com o prêmio Abel, por quem tenho uma grande consideração”, disse ele. “Simplesmente senti que eram pessoas de uma determinada categoria e eu não estava nessa categoria.”

Enquanto isso, Margulis disse que considerava o prêmio uma grande honra, mas destacou que muitas outras pessoas também o mereciam, já que a pesquisa de qualquer cientista deve se basear no trabalho de outros.

A cerimônia do Prêmio Abel havia sido agendada para 19 de maio, mas foi adiada devido à pandemia de COVID-19.