Duna, clássico de Frank Herbert, retrata uma galáxia futurista governada por uma classe de casas familiares. Elas lutam pelo recurso mais valioso da região, chamado “tempero”, um alucinógeno que alimenta as viagens interestelares no planeta desértico Arrakis.

Corta para 2021, vida real. O mundo todo discute alternativas para o combate às mudanças climáticas na COP26, em Glasgow, na Escócia — na tentativa de frear o aumento das temperaturas, o degelo dos oceanos e, no fim das contas, a nossa própria extinção.

“Mas o que essas duas coisas tem a ver?”, você, leitor, pode estar se perguntando. Nós explicamos: o longa oferece uma visão alegórica da “corrida pela África”, na qual impérios europeus dividiram o continente em regiões colonizadas baseadas puramente na busca de vantagens comerciais.

O resultado dessa busca por progresso econômico, no fim das contas, é uma África do Sul clamando por um acordo na COP26 para acabar com a dependência do carvão em 2021, por exemplo. Ou algumas cidades tropicais do planeta ultrapassando os 50ºC por conta das mudanças climáticas. Assim como em Arrakis, os recursos naturais (humanos e não humanos) estavam sendo explorados para atender aos mercados coloniais ocidentais.

Um grupo de cientistas da Universidade de Sheffield e da Universidade de Bristol, na Inglaterra, modificou um modelo climático e o aplicou ao mundo de Duna,, provando que a criação é um paralelo muito adequado para o que vivemos hoje. 

A ideia da equipe era saber como um planeta como Arrakis poderia realmente funcionar e se os humanos poderiam viver lá. O resultado da simulação foi descrito num artigo para o site The Conversation.

Ao Gizmodo US, Alex Farnsworth, meteorologista da Universidade de Bristol e colaborador do projeto, disse que ficou muito surpreso com a precisão de Herbert ao “imaginar um mundo desértico sem ter formação em física ou um supercomputador para executar qualquer tipo de cálculos.”

Vários fatores foram levados em consideração no protótipo; como a topologia do planeta e  quantidade esperada de exposição à estrela mais próxima. Os cientistas presumiram uma composição atmosférica de 350 partes por milhão de dióxido de carbono (CO2), em comparação às 417 partes por milhão da Terra, e aumentaram a quantidade de ozônio, que é 65 vezes mais eficiente do que o CO2 no aquecimento da atmosfera em um período de duas décadas, de acordo com os cientistas.

Em Duna, as regiões polares do planeta são descritas como sendo mais hospitaleiras do que em outras áreas. Mas as simulações mostram uma história diferente. De acordo com o modelo dos cientistas, as áreas tropicais atingem 45ºC durante os meses mais quentes e não menos que 15ºC durante os meses mais frios (o que não está muito longe das condições da Terra).

Foto: divulgação

Apesar disso, as temperaturas mais extremas foram observadas nas latitudes médias e regiões polares, onde as temperaturas do verão eram tão altas, chegando a 70ºC na areia e os invernos perto dos -40ºC, com os polos atingindo -75ºC. 

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Ainda que alguns locais na Terra estejam perto das mesmas condições, a mensagem de Duna e do modelo criado é, segundo os pesquisadores: proteja o que você tem, pois um clima como o de Arrakis não é algo que jamais desejaríamos experimentar.