O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, fez um anúncio perturbador na sexta-feira (22) sobre a B.1.1.7, a variante do coronavírus encontrada pela primeira vez no Reino Unido que se espalhou pelo país e por outros lugares. De acordo com dados recentemente analisados ​​por cientistas britânicos, ela não só é mais transmissível do que as cepas anteriores, mas também tem probabilidade maior de causar mortes. Embora essas conclusões ainda sejam preliminares, parece que vale a pena levá-las a sério.

O anúncio foi baseado em dados avaliados pelo Grupo Consultivo de Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes, ou NERVTAG, um grupo independente de cientistas que ajudou o governo em sua resposta à pandemia. Em dezembro passado, foi o trabalho desse grupo que solidificou o consenso de que a variante era mais transmissível do que as cepas que circulavam anteriormente. Inicialmente, a análise deles não encontrou nenhuma evidência de que B.1.1.7 estava causando casos mais graves ou mais mortes do que antes. Mas parece que não é bem assim.

De acordo com o novo estudo divulgado na sexta-feira, agora existem várias análises independentes dos dados de casos coletados nas últimas semanas apontando para a mesma tendência: um aumento nas mortes por B.1.1.7 em comparação com outras cepas do vírus. Embora os números exatos sejam diferentes entre os grupos, eles sugerem que a nova variante tem probabilidade cerca de 30% maior de causar a morte do que as cepas anteriores. Observe que, embora um aumento de 30% pareça enorme, a taxa de mortalidade geral ainda seria algo em torno de 1%.

“É claro que isso é bastante preocupante, dada a velocidade com que essa variante superou as cepas circulantes em diferentes regiões e nossa incapacidade de controlar a transmissão geral em muitas partes do mundo”, disse Jason Kindrachuk, virologista da Universidade de Manitoba, no Canadá, disse ao Gizmodo por e-mail. Kindrachuk não esteve envolvido nessa última pesquisa.

Como os autores do novo artigo enfatizam, há limitações para suas descobertas. Os dados que os cientistas do Reino Unido estão usando para estudar o coronavírus cobrem apenas uma pequena parte do total de casos e mortes no país em um determinado dia. Também leva mais tempo para coletar algumas dados de outras fontes, como os resultados de pacientes hospitalizados. Isso pode explicar por que os dados de hospitalização especificamente não parecem mostrar que a B.1.1.7 é mais mortal — eles podem não estar atualizados o suficiente para encontrar esse padrão ainda. Também é possível que a variante esteja colocando mais pessoas no hospital, mas não necessariamente mudando as chances de sobrevivência de um paciente hospitalizado.

Hospitais sobrecarregados com mais casos causados ​​por uma variante mais transmissível poderiam explicar indiretamente esse aumento na mortalidade, mas isso não parece ser um fator muito importante. Uma análise da London School of Hygiene & Tropical Medicine contabilizou “covariáveis ​​de pressão hospitalar” como o número de leitos hospitalares disponíveis para pacientes que precisam de um respirador, mas não encontrou nenhuma mudança substancial. O aumento nas taxas de mortalidade também foi consistente em diferentes grupos de idade, o que sugere que a B.1.1.7 por si só representa um maior risco real de mortalidade.

Vários países estão agora preocupados com o crescimento da B.1.1.7 e de outras variantes semelhantes. Se ela se tornar predominante fora do Reino Unido, como alguns especialistas alertavam, o recente declínio de casos e hospitalizações visto em alguns países pode ir por água abaixo.

“Minha preocupação imediata, obviamente, é para o risco que esta doença representa a quem vive em instituições de cuidados de longo prazo no Canadá e o que essa variante pode representar em uma situação já precária”, disse Kindrachuk. Assim como nos EUA, os casos e hospitalizações vêm caindo no Canadá, mas surtos de variantes parecidas com a B.1.1.7 já foram registrados em asilos locais.

É necessário que se faça mais pesquisas para confirmar essas descobertas. Independentemente disso, fazer o possível para reduzir a propagação da pandemia continua sendo fundamental: usar máscaras, evitar reuniões em ambientes fechados quando isso for possível e tomar a vacina quando ela estiver disponível.