Cientistas nos EUA, Itália, e em outros locais, estão experimentando um tratamento médico para o novo coronavírus. Eles iniciaram ensaios clínicos para descobrir se o óxido nítrico inalado pode salvar pessoas que estão gravemente doentes de COVID-19. Esse tratamento poderia até ser utilizado de forma preventiva para manter os profissionais de saúde livres de infecções.

O óxido nítrico, ou NO, é uma parte fundamental da nossa biologia (e não deve ser confundido com o óxido nitroso, também conhecido como N2O ou gás do riso). O óxido nítrico ajuda os nossos vasos sanguíneos a dilatar, acelerando o fluxo de sangue e oxigênio em todo o corpo.

Durante décadas, o NO tem sido utilizado pelos médicos para aliviar a pressão sanguínea nas artérias pulmonares dos pacientes privados de oxigênio cujos pulmões falharam. Essas artérias coaguladas tornam mais difícil para que os pulmões processem o oxigênio, mesmo quando fornecido por um ventilador.

Essa aplicação de óxido nítrico foi testada pela primeira vez em recém-nascidos que sofriam de metemoglobinemia infantil nos anos 1990, e se tornou um tratamento aprovado pela FDA (agência americana equivalente à Anvisa) em 1999; desde então foi ampliada para uso em outros grupos de pacientes.

“Cerca de meio milhão de americanos já respiraram NO. Principalmente adultos com cirurgias cardíacas, entre outras coisas. E, claro, 30.000 bebês por ano”, disse Warren Zapol, anestesista-chefe emérito do Massachusetts General Hospital e professor na Harvard Medical School, ao Gizmodo esta semana, por telefone.

Muitas pessoas que contraem COVID-19 sofrem sintomas leves, mas os casos graves podem desenvolver a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), uma condição assustadora e mortal. Os pulmões das pessoas com SRAG ficam inundados de fluido corporal, cortando o fornecimento de oxigênio e afogando-as.

Embora intervenções como a ventilação por entubação possam salvar alguém com SRAG, esse prognóstico é sombrio, uma vez que infecções generalizadas e a falência de órgãos acontecem frequentemente. A SRAG não é apenas um perigo para pacientes com COVID-19 – as intervenções necessárias para salvar vidas podem expor os profissionais de saúde a doses concentradas e aerossolizadas do vírus de um paciente.

“Trata-se, em primeiro lugar, de uma lesão pulmonar. Todos nós sabemos isso. Mas se não contermos isso, a infecção chega ao coração, ao fígado, ao resto dos órgãos, matando o paciente”, disse Zapol.

Entendendo o óxído nítrico no tratamento de COVID-19

O óxido nítrico já é utilizado como “terapia de resgate” para casos de SRAG em que as pessoas não conseguem obter oxigênio suficiente por meio de um ventilador. Assim, Zapol e os seus colegas argumentam que o NO também poderia ser usado para casos graves de COVID-19.

E não é apenas o impulso crucial para a função pulmonar que o óxido nítrico oferece que deixou Zapol e os seus colegas interessados neste tratamento.

Há quase duas décadas, cientistas na China encontraram evidências que sugeriam que o próprio gás poderia matar ou inibir o crescimento do coronavírus da SARS em pessoas doentes, enquanto outros cientistas encontraram o mesmo padrão em laboratório.

Como o COVID-19 é causado por um coronavírus intimamente relacionado com o coronavírus da SARS, (e até é chamado apropriadamente SARS-COV-2), eles esperam que esse mesmo método funcione contra ele.

Zapol e colegas iniciaram dois ensaios clínicos aleatórios e controlados no Massachusetts General Hospital. Um irá envolver doentes com COVID-19 que já lidam com problemas respiratórios graves; o outro irá envolver doentes com COVID-19 com sintomas leves e moderados. Em ambos os ensaios, a esperança é que o óxido nítrico possa impedir que as coisas piorem.

Outro ensaio que eles esperam aprovar e iniciar testaria se o óxido nítrico pode realmente ajudar a proteger os funcionários em hospitais que tratam as pessoas doentes. A equipe de Zapol teoriza que se puderem aplicar óxido nítrico antes e depois dos turnos, o vírus teria mais dificuldade em infectá-los. As pessoas que tomam óxido nítrico ficam com os níveis de oxigênio temporariamente mais baixos, mas teoria devem conseguir trabalhar normalmente.

“Detesto ver médicos e enfermeiros positivos para COVID-19. Eu odeio”, disse Zapol. “Por isso, esperamos ver se conseguimos evitar que os profissionais de saúde passem a testar positivo.”

Qualquer tratamento potencial para COVID-19, por mais útil que tenha sido para outras condições, terá de passar pelos ensaios clínicos antes de ser amplamente utilizado.

A equipe de Zapol já trabalha com pesquisadores na Itália e na China para testar o óxido nítrico em doentes desses países, como parte de uma colaboração de longa data entre os grupos. Portanto, se esse tratamento funcionar, teremos casos em mais de um lugar do mundo.