Uma carta publicada em um periódico científico no ano passado questionou a segurança da promissora ferramenta de edição genética CRISPR, inquietando tanto pesquisadores quanto investidores. Agora, diversos estudos recentes redimem os perigos da tecnologia ao mostrar como o CRISPR pode precisamente atingir doenças.

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As ações de empresas biotecnológicas que investem no CRISPR despencaram em maio passado depois que cientistas publicaram resultados de um estudo que utilizou a técnica para curar cegueira em ratos – resultou não apenas em alguns, mas em milhares de efeitos não intencionais. O estudo sugeria que, caso o CRISPR fosse usado para curar doenças em humanos, ele poderia potencialmente resultar em desastrosos efeitos colaterais. Foi um balde de água fria na indústria que pretende usar a técnica para curar inúmeras doenças, como anemia falciforme e distrofia muscular. Não é preciso nem dizer que a pesquisa causou mal-estar.

No mês passado, no entanto, um outro grupo de pesquisadores replicou o estudo, descobrindo que os alertas iniciais eram demasiadamente exagerados – e resultado de descuidos científicos. Agora, diversos outros estudos reforçam sua confiança no CRISPR, apontando como potencialmente limitar efeitos não intencionais que possam acontecer.

Esforço em tornar CRISPR mais exato

Apesar do CRISPR ser alardeado como uma técnica de precisão que torna a edição genética algo tão simples quanto cortar e colar, ela não é tão exata quanto sugerem as manchetes, e efeitos não intencionais podem acontecer. Assim, cientistas estão desenvolvendo maneiras de tornar o alvo, bem, ainda mais exato.

Às vezes, as moléculas que guiam as tesouras do CRISPR para o local exato de corte do genoma podem acidentalmente atingir códigos de sequência genética semelhantes, mas não exatamente correspondentes.

Uma maneira de corrigir isso seria alterando as enzimas no sistema CRISPR que buscam pelo alvo, conforme os pesquisadores do Broad Institute fizeram em um estudo publicado na semana passada na Nature. Nesse estudo, eles alteraram a enzima Cas9 de maneira que ela pudesse mirar em mais alvos de uma única vez na mesma região, além também de fazer isso com mais precisão.

No caso das chamadas bases editoras, que miram letras individuais do DNA, o CRISPR pode ser treinado para, por exemplo, mudar um único C genético para um T. Nosso código genético é constituído de apenas quatro letras – A, C, T e G –, assim, mudar uma única letra é, em alguns casos, tudo o que é preciso para corrigir uma doença. No entanto, efeitos não intencionais ainda podem acontecer; como quando uma mesma letra se repete duas vezes no trecho do código em que o CRISPR é treinado, e ele pode transformar um outro C em T acidentalmente.

Em uma pesquisa ainda a ser revisada por pares publicada na semana passada no site BioRxiv, cientistas do Hospital Geral de Massachusetts desenvolveram uma maneira de fazer bases editoras mudarem um C para um T apenas se existir um G antes disso. Esse passo extra torna um erro algo mais difícil de acontecer na edição. A técnica foi testada em células humanas em um laboratório. O editor alterado ainda cometeu alguns erros, mas estes aconteceram em menores números do que na versão original.

A possibilidade de efeitos não esperados ainda é uma preocupação no desenvolvimento de qualquer tratamento CRISPR – um outro estudo publicado online na semana passada como pré-impressão mostrou que, ao utilizar uma forma “deliberadamente promíscua” de CRISPR no fígado de um rato, houve centenas de edições fora do alvo.

Mas o rápido avanço das melhorias sugere que os riscos de efeitos não intencionais na técnica CRISPR não são tão altos quanto se esperava. O mesmo estudo que utilizou um CRISPR promíscuo descobriu que, quando a técnica é projetada de forma mais apropriada, efeitos não intencionados não são detectados. Cientistas estão a caminho de entender como utilizar essa ferramenta de maneira segura para curar doenças em pessoas.