Nesta terça-feira, Ciro Winckler, doutor em Educação Física, professor da Unifesp e membro do Comitê Paralímpico, ofereceu uma palestra na Campus Party sobre próteses biônicas e paralímpiadas.

Atletas paralímpicos possuem uma simbiose com a tecnologia: As próteses não só ajudam a pessoa com deficiência a se locomover, elas podem levar o desempenho de um corredor a níveis “super-humanos”.

Mais do que uma peça de plástico adaptada, as próteses esportivas tem dois grandes desafios: Resolver a mecânica do tornozelo, de maneira que o pé tenha um determinado retorno, com redução de impactos para o restante da perna, e uma coordenação de movimentos de maneira geral. Além de tornar os joelhos inteligentes com software e hardware precisos.

 

 U.S. Pacific Fleet/Flickr
U.S. Pacific Fleet/Flickr

 

Durante sua palestra, focada em corredores paralímpicos, o professor citou dois tipos principais de próteses de pernas. A C-leg, que se encaixa acima do joelho, deve ser carregada a cada três dias na tomada. Ela possui um controle remoto que permite controlar a velocidade das passadas. Já o Power Knee, que possui um sensor que automaticamente ajusta o movimento do joelho para o terreno em que se encontra o corredor (escada, plano, plano inclinado), é um dos modelos mais utilizados.

Oscar Pistorius é um atleta paralímpico sul-africano que tem ambas as pernas amputadas. Em testes, houve a comprovação de que as próteses tornaram o atleta deficiente em um atleta extremamente eficiente: Quando comparado à atletas sem deficiência, Pistorius ingere um volume de oxigênio 17% menor. Ou seja, ele corre na mesma velocidade com menos oxigênio. Além disso, ele pisa com mais frequência que um atleta olímpico. Mais impulso por tempo, sem contar o retorno elástico da prótese, que também aumenta o movimento, tornam os atletas paralímpicos, super-atletas.

 

Donnr MB/Flickr
Donnr MB/Flickr

 

Além de corredores, jogadores de basquete em cadeira de rodas também desfrutam da tecnologia. As cadeiras são cuidadosamente desenhadas, aumentando o desempenho de 5 a 15% com o formato mais aerodinâmico, rodas inclinadas, redução da massa da cadeira de rodas (o atleta pode acelerar mais e enfrentar menos atrito) e redução do arrasto aerodinâmico.

 

Ben Rodford/Flickr
Ben Rodford/Flickr

 

O mundo das próteses

Ainda falando em paralímpiadas, Ciro destaca o alto preço de próteses. Algo perfeitamente explicado pelos diferentes times de vôlei paralímpico: Nas competições de vôlei sentado, sem próteses, países mais pobres conseguiam medalhas. Já em esportes que demandam próteses, a vitória fica nas mãos de países ricos, como Alemanha. Segundo o professor, o alto valor das próteses, que custam em média 150 mil reais, limitam o uso das mesmas. Tal diferença levou ao banimento do vôlei em pé das paralímpiadas.

Além de atletas, as próteses melhoraram a vida de muitos deficientes. É possível encontrar excelentes próteses de braço e dedos, além da grande evolução estética que tais peças sofreram. O professor ainda ressaltou o uso de próteses animais, como em cavalos fornecedores de sêmen e vacas na Índia.

O Futuro dos homens biônicos

Criar exoesqueletos que se movimentem não é tão difícil. Os desafios que muitos pesquisadores, como o brasileiro Miguel Nicolelis, abrangem:

  • Conexão neural: pensar no movimento para mover um membro biônico proporciona alto gasto metabólico
  • Propriocepção: além dos estímulos “entrarem”, estimulando o movimento, eles também devem sair e passar a noção de toque e dor.
  • Velocidade e processamento: A transmissão do estímulo para mover um membro acontece em poucos milissegundos em pessoas sem deficiência. Tal velocidade requer grandes processadores e um bom software: ainda há um logo caminho até a perfeição.
  • Refinamento de movimentos: Muitos já conseguiram mover peças com o pensamento, mas todos realizavam movimentos grosseiros, apenas.

Miguel Nicolelis trabalha principalmente com pessoas com paralisia severa (paraplégicas, por exemplo), mas próteses biônicas também podem ser montadas e controladas remotamente para ir a lugares que humanos não poderiam ir com segurança. Veja o vídeo com um exemplo um tanto bizarro:

[youtube bwa8m8VwhWU 640 360]

O professor acredita que algumas melhorias (e inovações) ainda vão acontecer na tecnologia de próteses paralímpicas para melhorar o desempenho dos atletas: Sensores em pílulas aumentariam os controles, assim como roupas computadores. A dinâmica dos fluídos computacionais também deverá ser estudada para melhorar equipamentos e roupas. Nanotecnologia deve ser implantada em equipamentos e todo o desempenho deve ser analisado em vídeo para que cientista e atleta busquem juntos a super-eficiência característica dos atletas paralímpicos.

Durante a palestra de pouco menos que uma hora, uma pergunta não foi resolvida. Seria ético um atleta paralímpico competir em olímpiadas com pessoas sem deficiência? Como as regras esportivas podem ser alteradas para evitar este tipo de problema? Uma coisa ficou certa: uma hora é pouco tempo para discutir um assunto tão complexo.

Imagem de capa por Tee Time Tony/Flickr