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Como a mudança climática afeta a saúde ao redor do mundo

Os combustíveis fósseis que impulsionam as mudanças climáticas deixam as pessoas doentes, assim como impactos do calor extremo, incêndios florestais e tempestades extremas, de acordo com uma pesquisa publicada nesta quarta-feira (13). Resumindo, a crise climática é uma crise de saúde pública.

O novo relatório da revista científica Lancet registra o número recorde de pessoas expostas a ondas de calor e a uma propagação quase recorde da dengue a nível mundial. Os cientistas também analisaram números sobre incêndios florestais pela primeira vez e descobriram que 77% dos países estão enfrentando mais vezes esse tipo de desastre do que estavam no começo dessa década.

Apesar dos números serem preocupantes, o relatório mostra também que melhorar o acesso aos cuidados de saúde pode ser um dos métodos mais benéficos para nos adaptarmos às mudanças climáticas.

O estudo, batizado de Lancet Countdown, é publicado anualmente desde 2015. Ele agrega dados de todo o mundo sobre clima e saúde que foram coletados no ano anterior. Os autores do relatório destacaram em uma coletiva de imprensa que as descobertas tem como objetivo mostrar que estamos vivendo a mudança climática aqui e agora.

“Esta é a primeira vez que sentimos que podemos dizer que esses impactos sobre a saúde [a partir da mudança climática] nos atinge em cheio”, disse Renee Salas, principal autora do relatório e médica de Harvard, em uma entrevista coletiva. “Quanto mais olhamos, mais vemos os efeitos em todos os lugares”.

As ondas de calor estão entre os efeitos mais óbvios ligados às mudanças climáticas, e o relatório descreve como o fenômeno já está prejudicando o mundo. No ano passado, ondas de calor intensas dispararam em todo o mundo, do Reino Unido, passando pelo Paquistão e até mesmo no Japão, em meio ao quarto ano mais quente já registrado.

O relatório do Lancet constatou que um recorde de 220 milhões de pessoas com mais de 65 anos – ou seja, as mais vulneráveis ao calor – tiveram que enfrentar calor extremo. Desses, 45 milhões estavam na Índia, onde milhões permanecem em extrema pobreza, o que significa que os mais vulneráveis entre os mais vulneráveis estavam em risco.

O relatório também constatou que 2018 marcou o segundo pior ano de propagação do mosquitos portadores de dengue desde o início da coleta de registros precisos em 1990. Os dois tipos de mosquitos que transmitem a dengue têm aumentado suas populações à medida que as temperaturas aumentam; nove dos dez piores anos de registros da dengue vêm acontecendo desde 2000, segundo os pesquisadores.

A gama de mosquitos portadores de malária também se expandiu, assim como as condições adequadas para bactérias vibrião, responsáveis por doenças como a cólera.

Há ainda os resultados dos incêndios florestais, que são novos no relatório deste ano. Os cientistas descobriram que mais de três quartos dos países em todo o mundo estão vendo um aumento da prevalência de incêndios florestais, que causam doenças respiratórios por causa da fumaça.

Os maiores aumentos aconteceram em países em rápido desenvolvimento como a Índia e a China, locais onde o fogo é frequentemente utilizado para para limpar terras e criar pasto para agropecuária ou regiões agrícolas. Porém, como pudemos ver na Califórnia, os países desenvolvidos não estão imunes.

Embora esses sejam os riscos visíveis do aumento das temperaturas, existem também os riscos para a saúde decorrentes da queima de combustíveis fósseis. A poluição do ar vai parar nos pulmões das pessoas, onde pode causar asma e outros problemas respiratórios, mas também atinge locais menos óbvios, como cérebros e placentas. Isso significa que, desde o nascimento até à morte, estamos expostos a potenciais danos da poluição do ar. O relatório observa que 2,6 milhões de pessoas morreram em 2016 devido a essa poluição.

Os dados são assustadores, mas o relatório também mostra algumas soluções que já estão prontas, incluindo algumas que protegem as pessoas não apenas da devastação causada pelas alterações climáticas, mas também da pobreza.

“Podemos fazer melhor do que nos concentramos no problema”, disse Gina McCarthy, ex-diretora da Agência de Proteção Ambiental e atual professora de saúde pública de Harvard, na coletiva de imprensa.

O relatório constatou, por exemplo, que, apesar do aumento das ondas de calor e das fortes chuvas que podem provocar doenças como a diarreia, os surtos se tornaram menos comuns.

O mesmo se aplica à subnutrição relacionada com as proteínas, apesar do impacto que o calor intenso tem sobre valor nutricional das colheitas de alimentos básicos e da onda de calor oceânico que mata recifes de corais que são essenciais para alguns peixes.

Parte disso atribui-se à melhoria do acesso a cuidados de saúde, oportunidades socioeconômicas e saneamento básico em algumas regiões.

Muitas vezes pensamos em na construção de paredões ou outras infraestruturas que poderiam nos proteger das alterações climáticas, como o aumento do nível do mar. Porém, postos de saúde em áreas rurais e saneamento básico também são opções necessárias para que as pessoas não sofram tanto.

O relatório sugere a melhoria do acesso ao financiamento de projetos climáticos voltados para a saúde, o que poderia gerar enormes ganhos, garantindo que as pessoas se protejam dos impactos das mudanças climáticas ao mesmo tempo que auxilia a saída da pobreza.

É claro que isso também exige a redução da poluição por carbono o mais rápido possível, porque mesmo o hospital mais bem equipado do mundo não será o suficiente para proteger as pessoas dos impactos das mudanças climáticas.

Este post foi modificado em 15 de novembro de 2019 18:04

Brian Kahn

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