Maior parte dos americanos (e do mundo) pensa na Nova Zelândia como o lugar em que O Senhor dos Anéis foi gravado, ou como a terra com mais ovelhas do que pessoas. Nesta semana, no entanto, o país capturou a imaginação dos Estados Unidos, depois de um artigo na New Yorker revelar que o território na Oceania era o melhor local no planeta em que americanos ricos poderiam adquirir propriedades.

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O New Zealand Herald até mesmo descobriu que o bilionário Peter Thiel, membro da equipe de transição de Donald Trump, adquiriu cidadania e é dono de centenas de acres por lá. “Comprar uma casa na Nova Zelândia” agora é tão comum para os mais afortunados que a frase se tornou um código para ter um plano de emergência para quando o mundo ficar uma droga, de acordo com o que disse um mega investidor à New Yorker.

Porém, surpreendentemente, houve um curto período no século XIX em que parecia que a Nova Zelândia poderia se juntar aos Estados Unidos. E havia muitas razões perfeitamente lógicas para isso.

A Nova Zelândia se tornou uma colônia britânica em 1841, mas a emigração branca para a ilha-nação, que era habitada pelo povo nativo Maori, não aconteceu em massa até a descoberta do ouro no local, em 1861. A corrida do ouro fez a população do país explodir nos anos 1860, de aproximadamente 99.000 no começo da década para 256.000 em 1871. Ela fez com que muitos californianos aparecessem, e a colônia se tornou inundanda por um relativamente pequeno, mas barulhento grupo de americanos que não reconheciam fidelidade alguma ao Reino Unido.

Como explica o historiador Gerald Horne no livro The White Pacific, de 2007, “quando o ouro foi descoberto em Otago, em 1861, foram os neozelandeses que atraíram atenção da Califórnia o suficiente para que houvesse conversas temporárias sobre se tornar parte dos Estados Unidos. Tanto na Inglaterra quanto no país do Pacífico, muitos acreditavam que uma independência da Nova Zelândia gravitaria em direção dos Estados Unidos.”

Se a pequena colônia da Nova Zelândia tivesse buscado independência do Reino Unido nas décadas de 1860 e 1870, poderiam muito bem estar chamando-a de seu território, ou mesmo estado, hoje em dia. Afinal de contas, havia apenas 33 estados americanos em 1860.

A corrida do ouro neozelandesa também acabou coincidindo com o início da Guerra Civil Americana. Após o conflito, houve uma diáspora dos Estados Confederados ao Pacífico Sul — ex-donos de escravos no sul dos Estados Unidos que mantinham comércio de escravos em lugares como Fiji e Austrália.

Antigos americanos confederados escaparam para locais como a Nova Zelândia, que, particularmente, já havia abolido a escravidão, mas que ainda estava a um pulo de onde a comercialização de seres humanos ainda era tacitamente aceita.

Algo entre 60.000 e 120.000 escravos foram levados à Austrália para trabalhar em plantações de algodão e açúcar, entre as década de 1860 e 1900, apesar do fato de que o país havia oficialmente proibido a escravidão. O comércio entre os Estados Unidos e a Nova Zelândia disparou na segunda metade do século XIX, como resultado da crescente atividade de californianos e confederados no Pacífico Sul — comerciantes traficando na “corrida do ouro” de seres humanos, impulsionada pela demanda britânica e americana por algodão barato, e na corrida de ouro literal.

Gerald Horne escreve no The White Pacific:

Este poderoso oceano foi uma correia de transmissão transportando homens e mulheres de um local distante ao outro. Assim, G.N. Parkinson, vice-cônsul da Nova Zelândia em São Francisco em 1959, lembrou que seu avô e seu pai vieram à Califórnia, em 1848, tendo migrado antes do Reino Unido para Nova Orleans e Texas, antes de se mudarem para Melbourne em 1853 e, então para a Nova Zelândia, onde sua família se envolveu em conflitos violentos com os indígenas.

Os cidadãos modernos dos Estados Unidos podem até não pensar na Nova Zelândia como algo que poderia ter sido “naturalmente” parte do país em algum momento, mas basta olhar para as ambições imperiais do país no século XIX e no início do século XX para ver que a distância não era obstáculo algum.

Quando você lembra que o país controla terras muito além dos Estados Unidos Continentais, tornar a Nova Zelândia parte disso não parece tão maluco. Pegue, por exemplo a Samoa Americana, um minúsculo território no Pacífico Sul, a 9673 quilômetros. Tornou-se parte dos Estados Unidos em 1900, e, por contraste geográfico, é muito mais mais próxima da Nova Zelândia, com 3262 quilômetros entre os dois. O Havaí é outro exemplo geograficamente distante.

As conversas sobre a Nova Zelândia fazer parte dos Estados Unidos podem ter sido breves, mas não era tão esquisito quando você levava em consideração que a expansão americana na segunda metade do século XIX. Muitos pessoas dirigiram-se à Califórnia, mas algumas simplesmente continuaram indo ainda mais a oeste, em busca de seus futuros, chegando até à Nova Zelândia. E para esses americanos daquela época, fazia completo sentido que o país se juntasse aos Estados Unidos.

Imagem do topo: Hulton Archive/Getty Images