Às vezes no silêncio da noite, como diria aquela canção, eu fico imaginando nós dois. Mas eis que o sinal não abre, os carros não se mexem, as buzinas não param e eu, claro, não consigo transformar essa música num programa de sexta à noite. Viver numa cidade grande é passar uma boa parte da vida nas vias que ligam bairros e regiões. É preciso praticar a paciência e o desapego porque, a qualquer momento, um carro quebrado, uma manobra mal feita ou qualquer outro nó desfeito neste delicado ecossistema de trânsito pode transformar nossas vidas num micro-ondas de angústia. Nossos melhores sentimentos explodem como pipocas de saquinho.

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Desde que nós nos conhecemos por gente, uma pergunta nos persegue. Por que a sociedade que inventou a internet ainda não foi capaz de desinventar o trânsito? Nas viagens do Gizmodo pelo mundo, nós tomamos notas das tecnologias que cidades e países estão usando para facilitar as idas e vindas dos seus habitantes e visitantes.

E, depois de termos visto tanta coisa,decidimos imaginar um futuro em que a tecnologia vai transformar os congestionamentos em coisas tão remotas quanto os computadores em verde e preto. Porque as máquinas vão entender as cidades, traduzir o que elas falam para nós e, finalmente, vamos conseguir criar cidades que funcionam. As cidades serão enormes sensores, com implicações enormes não apenas para mim e para você – mas para toda a economia.

O que pode acontecer

Quando nós vemos um problema muito grande, pensamos em soluções muito grandes. É instintivo. Quando você era criança pequena lá em Barbacena, passou por isso. Como enfrentar o valentão grandão da escola? Com um valentão grandão que seja simpático à sua causa (ou à sua capacidade de passar cola). Agimos como se todos os problemas fossem um jogo de espelhos. Embora alguns problemas grandes peçam grandes soluções, outros problemas grandes só podem ser resolvidos com uma série de soluções pequenas e eficientes. Achamos, do alto da nossa humildade, que este é o caso da mobilidade.

Ao longo das últimas décadas, nós respondemos ao acúmulo de veículos nas ruas com vias cada vez maiores para comportar mais veículos. Fazia sentido. Você não tinha ferramentas boas o suficiente para entender padrões de locomoção nem uma estrutura produtiva que permitisse o trabalho além da forma presencial. Nós tínhamos de sair de casa tal horário para estar no trabalho em tal horário. Esse era o jogo. A massificação do transporte público facilitou um pouco a vida – foi possível entender melhor as rotas das pessoas, os horários de pico, a formação de multidões. Porém, estava longe de ser suficiente. Ele jamais conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento da população e a complexidade de uma cidade. Esteve sempre atrás, nos transformando em sardinhas atrasadas. Faltam dados.

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Portanto, quando nós imaginamos o futuro da mobilidade, bem, nós pensamos em tecnologias que tornariam o uso das vias e das modalidades de transporte mais eficiente. Tudo seria cheios de sensores, para que tivéssemos uma quantidade enorme de dados sobre as cidades. Assim, seríamos capazes de ver os padrões e interferir neles. O planejamento combinado com dados criaria novos padrões de arquitetura, de design e de uso do espaço público. As obras de infraestrutura seriam feitas de acordo com padrões que, hoje, desconhecemos. Poderíamos planejar a oferta de casas de acordo com padrões de deslocamento. As cidades seriam infinitamente mais inteligentes. Porque todas as cidades e o que há nelas seriam enormes sensores, permitindo que as cidades falem – e que nós, finalmente, pudéssemos ouvir.

Isso tem implicações não apenas para nós, brasileirinhos, que só temos o sonho de um dia, quem sabe, perder menos tempo com deslocamentos. Cidades com sensores podem tem um impacto enorme na economia, especialmente nas indústrias. Imagine o que vai acontecer, por exemplo, com a indústria de veículos – carros, ônibus, trens, metrô. Uma cidade cheia de sensores vai permitir que tecnologias de última geração, algumas delas já testadas por grandes empresas em projetos muito específicos de infraestrutura, sejam massificadas para outras indústrias.

Hoje, há trens inteligentes, capazes de funcionar sempre no limite da eficiência, evitando quebras. Os sensores espalhados pela cidade vão produzir muitos dados. Esses dados podem ser compartilhados, com a devida privacidade (nunca identifique o condutor, claro), com as indústrias. Isso pode criar meios de transporte absurdamente eficientes, capazes de funcionar em sincronia, sempre no máximo da sua capacidade. Cada meio de transporte será uma unidade que produz e consome informação em tempo real. O uso dessa informação pelas indústrias terão impactos enormes na forma como nós nos movimentamos.

“Hoje, há trens inteligentes, capazes de funcionar sempre no limite da eficiência, evitando quebras. Os sensores espalhados pela cidade vão produzir muitos dados. Esses dados podem ser compartilhados, com a devida privacidade (nunca identifique o condutor, claro), com as indústrias. Isso pode criar meios de transporte absurdamente eficientes, capazes de funcionar em sincronia, sempre no máximo da sua capacidade”

Outra indústria que seria enormemente impactada pelos setores seriam as de construção civil e de infraestrutura urbana. Imagine comigo. Hoje, nós erguemos prédios que mal falam com o entorno. São fechados em si. Com esse mundo de sensores, as construtoras terão de imaginar seus prédios como unidades de diálogo dentro de uma grande malha de comunicação. Esses prédios terão de conversar uns com os outros para que o uso de energia elétrica, água e toda a enormidade de serviços de infraestrutura urbanos sejam usados da maneira mais eficiente possível por toda a comunidade. Chega de vazamentos, chega de apagões, chega de buracos nas redes de energia e água. Vamos conseguir prever o desgaste dos materiais antes que eles, de fato, se rompam – e vamos evitar que isso tenha implicações para todos os nossos vizinhos.

Afinal, uma vez que os sensores estão lá, quem disse que eles só podem ser usados para mobilidade? Eles poderão ser usados para tornar o uso de todos os recursos muito mais eficientes, com uma prevenção de acidentes sensacional. Duvida? Coisas assim já estão acontecendo em experimentos-piloto ou em indústrias muito específicas. Agora, só faltam ser massificadas pelas indústrias.

O uso do tempo

Quando falamos de mobilidade e da expansão do uso de tecnologia avançada para vários setores da economia, estamos pensando não apenas em inovações pontuais, com impactos residuais. Estamos pensando no uso do seu tempo e dos recursos disponíveis da melhor forma possível. É coisa grande.

A internet aumentou o tempo livre disponível ao acelerar drasticamente as comunicações. O futuro da mobilidade, certamente, passa por melhorar, com todas as tecnologias à disposição, o uso dos espaços que usamos para trabalhar, morar e nos divertir. Só que os sensores vão muito mais longe. Eles vão nos ajudar a economizar vários recursos fundamentais para as nossas vidas em várias frentes. Tempo, água e energia são só os mais visíveis.

Algumas dessas tecnologias não são tão fotogênicas quanto uma Ferrari voadora, é verdade. Sistemas só são sexys entre quem os programa. Mas o impacto dos sistemas e dos sensores para melhorar as nossas vidas é muito maior do que um carro lindo e flutuante.

PS: Esse artigo só foi possível graças à GE. A empresa inaugura, nesta semana, um novo Centro de Pesquisas no Brasil, para desenvolver o futuro. Para comemorar, a empresa veio até o Gizmodo e nos pediu para imaginar o futuro em qualquer área. Como bom filho de uma grande cidade, decidimos imaginar o futuro da mobilidade. Mais do que carros inteligentes, nós acreditamos em cidades conectadas e eficientes.

Aliás, várias das tecnologias que inspiraram esse texto vieram de inovações que a GE já está testando. Para saber como elas são e como funcionam, visite o canal da empresa dentro do Gizmodo e confira os Postais do Futuro. De verdade, de coração: vale muito a pena!

#postaisdofuturo