Com as primeiras vacinas contra covid-19 sendo aplicadas em mais e mais brasileiros, muito tem sido falado sobre a eficácia desses imunizantes. São tantas porcentagens que pode rolar uma certa confusão no entendimento: ué, se uma vacina tem 50% de eficácia global, por exemplo, por que então ela pode ter um percentual menor ou maior quando se tratam de casos leves ou graves?

A matemática para compreender esses números é mais simples do que parece, mas desde já é importante salientar o seguinte: todas as vacinas, independentemente da porcentagem que cada uma atinge, oferecem níveis aceitáveis de proteção. É verdade que umas protegem mais do que outras, porém todas alcançam o mesmo objetivo, que é o de imunizar as pessoas contra o novo coronavírus e outras doenças infecciosas.

Também é fundamental diferenciar eficácia de efetividade. Mas vamos por partes. Para me ajudar a esclarecer essa e outras dúvidas, eu conversei com Denise Garrett, infectologista, ex-integrante do Centro de Controle de Doenças do Departamento de Saúde dos EUA e atual vice-presidenta do Sabin Vaccine Institute (Washington); Luiz Gustavo Almeida, microbiologista da Universidade de São Paulo e do Instituto Questão de Ciência; e Marco Aurélio Sáfadi, diretor do Departamento de Pediatria e presidente do Departamento de Infectologia Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Os testes

O desenvolvimento de uma vacina engloba dezenas de testes divididos em muitas fases. Contudo, podemos delimitar os experimentos em duas etapas, sendo a primeira feita exclusivamente em testes pré-clínicos animais e a segunda, que se divide em outras quatro fases, em seres humanos. O processo é basicamente o mesmo em todas elas: um grupo toma a formulação do imunizante e o outro uma solução placebo, que nada mais é do que uma substância neutra sem efeito algum no organismo.

A primeira fase é composta por testes em animais. Eles tomam a vacina ou o placebo e, após um período médio de um mês, é checado se foi gerada uma resposta imune. Nesse momento, os animais também são expostos de propósito ao vírus, algo que dificilmente é realizado com seres humanos por ética e medidas de segurança. O Reino Unido até aprovou um experimento que realizaria esse tipo de procedimento em humanos, mas aparentemente a ideia não foi tocada adiante.

Caso a vacina testada nos animais apresente resultados satisfatórios de proteção contra a doença, ela passa a ser testada em humanos. É aí que os cientistas começam a observar o comportamento das vacinas em quatro fases distintas.

Imagem: Steven Cornfield (Unsplash)

Imagem: Steven Cornfield (Unsplash)

Na Fase 1, com algumas dezenas de voluntários, o objetivo é verificar se a vacina é segura, o que significa que o esperado é que ninguém tenha efeitos adversos graves nem fique doente. Se tudo correr bem, começa a Fase 2, em que um grupo maior de pessoas, recebe as doses da vacina e do placebo. Nesta fase, a segurança ainda é importante, mas o objeto de estudo é medir se a vacina é capaz de gerar uma resposta imune – do mesmo jeito que acontece nos testes pré-clínicos com animais.

Vale lembrar que nenhum dos voluntários humanos, em todas as fases de testes, tiveram contato prévio com o vírus ou bactéria específicos.

A taxa de eficácia de uma vacina só pode ser calculada a partir da Fase 3, que é a última etapa que envolve testes clínicos realizados com milhares de voluntários humanos. É também na Fase 3 que os cientistas medem se a vacina protege por um longo período de tempo, uma vez que as pessoas são expostas naturalmente ao vírus no dia a dia, e não em testes fechados propositalmente dentro de um laboratório. Nesse momento em específico é que os cientistas observam o número de novos casos da doença no grupo placebo e no grupo vacinado.

Por conta do fator imunizante, o esperado é que o grupo que recebeu a vacina registre menos casos quando comparado ao grupo do placebo. Isso, no entanto, não exclui por completo o surgimento de efeitos colaterais – os chamados “eventos” -, que costumam aparecer principalmente nas pessoas que tomaram o placebo, mas não é exclusivo em um único grupo. Os sintomas mais comuns costumam ser febre, dor de cabeça e fadiga.

“Cada pessoa é um universo diferente, então é absolutamente normal que algumas pessoas possam apresentar efeitos colaterais [às vacinas]”, diz Luiz Gustavo Almeida, microbiologista da USP e do Instituto Questão de Ciência, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Há ainda a Fase 4. Nesta última etapa, os cientistas observam o nível de proteção após um longo período desde a aplicação da primeira dose da vacina. As primeiras vacinas contra Covid-19, por exemplo, começaram a ser testadas em humanos há pouco menos de um ano, e a boa notícia é que elas ainda apresentam resposta imune altíssima. Além disso, é logo no início da Fase 4 que começa a vacinação em massa na população em geral.

Eficácia x Efetividade

A eficácia é um fator medido em um ambiente controlado e com um número de pessoas pré-determinado. Logo, quando uma vacina alcança uma determinada eficácia, isso quer dizer que ela produziu o efeito esperado pelos cientistas dentro de um teste clínico laboratorial. O cálculo da taxa de eficácia varia entre as empresas farmacêuticas responsáveis pela fabricação dos imunizantes. A Pfizer, por exemplo, determinou a eficácia de sua vacina contra Covid-19 quando registrou 170 eventos; a CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, estipulou a eficácia quando 61 pessoas ficaram doentes.

Assine a newsletter do Gizmodo

Quando se diz que uma vacina apresenta 95% de eficácia, como é o caso do imunizante da Pfizer/BioNtech contra Covid-19, significa que 95 a cada 100 pessoas vacinadas ficam protegidas contra a doença. A CoronaVac, por sua vez, tem 50,38% de eficácia, ou seja, protege 50 a cada 100 pessoas de contrair o novo coronavírus. Obviamente, quanto maior for a eficácia, melhor, já que menos pessoas precisariam ser vacinadas para conter o surto de covid-19. Contudo, vacinas de eficácia menor não devem ser descartadas.

É aí que entram as porcentagens de pesquisas secundárias que estudam a eficácia das vacinas contra as formas leve, moderada e grave de uma determinada doença, além da capacidade de infecção. “A eficácia pode ser medida de várias formas, mas a maneira mais comum usada em todos os estudos clínicos mede a eficácia na prevenção de casos sintomáticos. Tirando isso, outras eficácias podem ser comprovadas a partir de desfechos secundários, como prevenir transmissão, casos graves ou internações”, afirma Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, em Washington, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

A maior prova disso vem da própria CoronaVac: enquanto a eficácia global é de 50,38%, o imunizante do Instituto Butantan alcançou 78% de eficácia contra casos leves e 100% contra casos moderados e graves. Ou seja: de 100 pessoas que tomaram a vacina, nenhuma desenvolveu a forma grave da doença. Elas podem sim ter pego a doença, mas nenhuma precisou de hospitalização, apresentando apenas os efeitos adversos esperados, como febre e fadiga.

Todos esses números se referem aos testes clínicos dentro de laboratório e mediram a eficácia das vacinas. O que os cientistas estão observando agora na Fase 4, justamente quando órgãos de saúde aprovaram as soluções imunizantes para serem aplicadas na população, é sua efetividade. A diferença é essa: a eficácia é analisada em um ambiente ou em um grupo controlado e acompanhado por um período de tempo; a efetividade é quando a vacina é colocada à prova no mundo real, com milhões de pessoas vivendo suas vidas normalmente, evitando, assim, que mais pessoas fiquem doentes ou hospitalizadas.

Por este motivo, os especialistas afirmam que nenhuma vacina é considerada 100% eficaz. E mesmo que fosse, sua efetividade está mais atrelada ao número de pessoas vacinadas. “Por ser uma medida preventiva, a vacina é coletiva. Nenhuma vacina protege totalmente, uma vez que muito da proteção que ela oferece vai depender da taxa de cobertura vacinal. Por isso a importância de se olhar para as vacinas como algo preventivo, coletivo e uma medida de saúde pública, não como algo individual”, destaca Garrett.

A imunidade natural é mais eficaz?

É fato que as vacinas desempenham um papel importante na prevenção de doenças. Mas e a imunidade gerada pelo nosso organismo: ela é ou não mais eficaz do que a resposta imune produzida por uma vacina?

Imagem: Steven Cornfield (Unsplash)

Imagem: Steven Cornfield (Unsplash)

“Isso depende da doença e da vacina. Muitas doenças têm imunidade natural – muito maior do que a própria vacina. No caso da caxumba, por exemplo, a gente vai perdendo a imunidade natural e precisa de reforços, porém essa imunidade é duradoura. Geralmente, as doenças que causam viremia (quando o vírus cai na circulação sanguínea) fornecem uma boa imunidade. Doenças respiratórias, por sua vez, tendem a ter uma proteção menos potente. Com relação ao novo coronavírus, ainda não sabemos por quanto tempo essa imunidade vai permanecer, porém indícios preliminares apontam que essa proteção não será muito curta, mas também não muito longa”, afirma Garrett.

Almeida destaca que a imunidade natural depende da carga viral em que somos expostos. Com uma carga menor em casos leves, pode ser que o nosso organismo não tenha tempo suficiente para criar uma memória imunológica. Por isso, muitas vacinas precisam de doses de reforço. Esse é o caso da covid-19. “As duas doses da vacina servem para causar exaustão em nossos sistema imunológico. Somente depois de um período de no mínimo 20 dias após a segunda dose é que as defesas do nosso organismo estarão bem treinadas”, diz.

“Talvez, as vacinas de Covid-19 tenham um resultado parecido quanto à duração da resposta imunológica. Os dados da Pfizer e da Moderna são espetaculares em questão de eficácia, porque não esperávamos essa magnitude. Claro que, por enquanto, os estudos se limitam a análises de curto prazo, então precisamos ver se essa eficácia se mantém ao longo do tempo. O que sabemos é que dados preliminares apontam para uma proteção prolongada meses após a primeira dose, mas ainda não temos como saber se essa imunidade permanece depois de um ano ou mais”, explica Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em entrevista ao Gizmodo Brasil.

Vacinas não são remédios

Muita gente pode acabar confundindo vacina como um remédio ou até mesmo um tratamento. Mas esse não é o caso. “A vacina é uma medida preventiva. O que ela faz, de certa forma, é ativar seu sistema imunológico para você produzir uma resposta contra um agente que está infectando seu organismo”, explica Garrett.

O mesmo afirma o microbiologista da USP. “Remédios servem para tratar pessoas que já estão infectadas, seja por um vírus ou bactéria. As vacinas ajudam a prevenir que as pessoas fiquem doentes, diminuindo as chances de elas se infectarem”, diz.

“Uma vacina tem o objetivo de prevenir uma determinada doença. Um medicamento, por sua vez, não previne, mas trata uma doença. No final, ambos (vacina e remédio) têm o mesmo objetivo, que é diminuir o impacto de uma doença. Contudo, a vacina é muito mais importante porque ela tem a capacidade de impedir que as pessoas fiquem doentes e precisem de medicamento ou hospitalização. Nesse contexto, as vacinas assumem um papel muito importante do ponto de vista de saúde pública”, comenta Sáfadi.

Você provavelmente não vai virar um jacaré

É verdade que a rapidez no desenvolvimento de vacinas contra a covid-19, uma doença nova e que médicos e cientistas ainda não a conhecem em sua totalidade, pode levantar questões sobre segurança. Afinal, os imunizantes foram criados e estão sendo testados em um curto período de tempo e em tempo recorde.

Imagem: David Clode (Unsplash)

Imagem: David Clode (Unsplash)

Apesar disso, os especialistas são categóricos em afirmar que as vacinas que estão sendo aplicadas na população são seguras, pois todos os procedimentos de segurança foram alcançados nos testes clínicos das Fases 1 e 2. Além disso, os cientistas destacam que esse avanço só foi possível graças a bilhões de dólares em investimentos conjuntos no mundo todo, uma vez que o momento que vivemos atualmente é de urgência e requer medidas rápidas.

“Tivemos muito investimento para desenvolver essa vacinas – a Moderna, por exemplo, teve sozinha um aporte de US$ 2 bilhões. Mas além do valor elevado, o que pesa nesse desenvolvimento é o fato de ainda estarmos vivendo em meio a uma pandemia. A Fase 3 é a mais demorada porque envolve milhares de pessoas. E o diferencial é esse: no cenário de pandemia, os voluntários dos testes, e agora toda a população, voltam a ter suas vidas normais durante o andamento da pandemia. O que precisa ficar claro é que nenhuma etapa, principalmente fases que envolvem ética, foi pulada. Fizemos tudo com todo o rigor exigido, as diretrizes de segurança sempre foram mantidas e agora temos acompanhado como as vacinas e seus efeitos se comportam em milhões de pessoas”, diz Almeida.

A aceleração no desenvolvimento de vacinas também aconteceu por outras duas razões. A primeira, segundo Marco, é justamente a emergência sanitária que o mundo todo enfrenta por conta da covid-19. A segunda é que cientistas já investigavam outras variantes do coronavírus há mais de 15 anos, entre elas o SARS-Cov1 e o MERS. O infectologista diz que, como a covid-19 compartilha semelhanças com a SARS1, as plataformas que fabricam as vacinas conseguiram se adaptar rapidamente.

Mas, no geral, há o consenso que as vacinas contra covid-19 só reforçam o poder da ciência em um momento crítico como este de pandemia. “Quando a gente vê que a ciência foi capaz de produzir uma vacina em tão pouco tempo, é algo realmente fora do extraordinário. Se me dissessem, lá no início da pandemia, que dez meses depois estaríamos vacinando as pessoas, eu com certeza iria duvidar. Acho que a ciência cumpriu o papel dela, e agora cabe a nós cumprir o nosso papel e ser vacinado”, diz Garrett.