O YouTube começou como um simples canal para compartilhamento de vídeos, mas hoje ele é muito mais do que isso: para algumas pessoas, o YouTube se tornou sinônimo de fonte de renda, sucesso e fama — o site não só mudou a maneira como assistimos e compartilhamos vídeos na internet. Ele também mudou a vida de algumas pessoas e os hábitos de navegação na internet de milhões de espectadores.

Blogs em vídeo – Os vlogs

O Lonelygirl15 foi o primeiro caso internacionalmente conhecido de vlog — criado em 2006, o canal nada mais era que um diário audiovisual (e nada secreto) de uma garota de 15 anos. A menina chegou a estampar capas de revistas por causa do vlog, mas meses após a inauguração do canal foi revelado que ele não passava de uma obra de ficção protagonizado pela atriz Jessica Rose e produzido por três filmmakers. Mas mesmo sendo um produto de ficção, o sucesso de lonelygirl15 abriu portas para que produções caseiras — de verdade — começassem a surgir.

Exemplos de vlogs são inúmeros, mas são poucos os que alcançam fama e fazem do canal de vídeos uma carreira. O mais bem sucedido talvez seja o caso do cantor (não mais) adolescente Justin Bieber — em 2007, a mãe do garoto, Patricia Mallette, começou a postar no YouTube vídeos caseiros de Bieber cantando e tocando músicas populares de R&B. O sucesso do canal era estrondoso, chegando a ultrapassar a casa dos milhões em visualizações, o que chamou a atenção do empresário Scooter Braun e, em 2009, ele e Justin lançavam o primeiro álbum da carreira do garoto, que vendeu mais de um milhão de cópias.

No Brasil, ainda não temos um equivalente musical, mas temos vídeos caseiros que também se tornaram sucesso e fizeram com que seus criadores se tornassem famosos. O caso mais notório por aqui é o do vlogueiro Felipe Neto que, assim como Bieber, começou com vídeos caseiros, gravados no próprio quarto. Abordando temas variados e sempre expondo opiniões polêmicas, Felipe fez um enorme sucesso entre o público adolescente e mesmo com vídeos simples e informais, o vlogger se tornou extremamente popular e se tornou o primeiro brasileiro a atingir o número de 1 milhão de seguidores no YouTube. O sucesso foi tanto que Felipe chamou a atenção do Netflix e, em 2013, quando a empresa se instalou no Brasil, Felipe foi convidado a produzir a primeira série brasileira inédita para o serviço de streaming.

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A carreira de Felipe Neto passa longe de ser tão bem sucedida quanto a de Justin Bieber, mas a coisa toda não deixa de ser memorável, já que a escolha do Netflix foi feita com base nos elevados números de visualizações e seguidores do canal do rapaz. Hoje, graças ao sucesso alcançado no YouTube, Felipe lidera uma produtora de conteúdo audiovisual e é empresário de youtubers que também estão fazendo suas carreiras no site de vídeos.

O conteúdo criado no YouTube

Boa parte das produções do YouTube não custam nada ou então custam muito pouco — no segundo caso, o dinheiro costuma vir dos bolsos dos criadores do vídeo ou do canal. Ou seja: são produções independentes. Por isso, os criadores de conteúdo do YouTube tendem a explorar áreas narrativas e formatos bem diferentes dos que aparecem nas grandes redes de TV. O YouTube permitiu que os produtores criassem conteúdo que seria considerado de arriscado pelas televisões — em outras palavras, não havia como ter certeza de que isso poderia render dinheiro. Para os YouTubers não existe a necessidade de pedir permissão ou aprovação. Eles não têm a sombra de uma grande corporação televisiva controlando as produções, os programas não precisam passar num horário pré-estabelecido… enfim: as produções são realmente independentes.

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A série Broad City, por exemplo, criada, produzida e interpretada pelas amigas Ilana Glazer e Abbi Jacobson nasceu no YouTube da forma mais barata possível — os primeiros vídeos das garotas são… pobres. Não existe a qualidade audiovisual presente nas séries de grande investimento, mas o roteiro divertido cativou tantos fãs que elas foram “amadrinhadas” pela humorista Amy Poehler, que produziu e vendeu a série para a rede de TV Comedy Central. Hoje elas trabalham na terceira temporada para a TV — a série para a web teve duas temporadas independentes).

O YouTube dá aos usuários a liberdade para criar o próprio diário audiovisual ou até mesmo a própria série. Na rede, qualquer pessoa é um possível criador de conteúdo e isso muda a forma como consumimos conteúdo e acaba se refletindo nas grandes empresas, sites, revistas e redes de televisão.

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Há tempos o mercado de revistas e jornais impressos está em declínio: são poucos os motivos para se comprar um pedaço de papel. Sites ganham cada vez mais público e assinantes. Agora, por que eu assinaria o conteúdo de um site, se posso ver algo parecido, ou até mais direto, em vídeos de usuários no YouTube? Pegue a cobertura de jogos, por exemplo: o Minecraft é o segundo termo mais buscado em todo o YouTube e tem mais de 42 milhões de vídeos postados na rede, o que faz dele o jogo mais compartilhado e buscado na história do YouTube. O jogo, criado por apenas uma pessoa, foi vendido à Microsoft ano passado por US$ 2,5 bilhões e parte deste valor veio do sucesso proporcionado pelo YouTube.

Mas essa cobertura e criação de conteúdo não fica apenas na área de jogos: veja as blogueiras de moda, por exemplo. O que começou com postagens em texto e muitas fotos de look do dia, hoje cria grandes produções e grandes nomes, com direito a coberturas internacionais e até um curso universitário na área.

Mídia e TV

A facilidade para fazer uploads de vídeos e administrá-los nas redes não se restringe à produção de vídeos caseiros ou aos canais que acabaram se tornando profissionais. Em janeiro de 2009, por exemplo, o congresso americano criou uma série de canais no YouTube — o que deixou os cidadãos mais perto do que nunca do governo. Um mês depois, o Vaticano inaugurou o próprio canal.

O YouTube revelou mês passado que já atinge mais pessoas entre 18 a 49 anos do que redes de televisão. E isso só nas plataformas móveis.  Um número impressionante, especialmente quando se leva em consideração que ele foi atingido em apenas dez anos.

Apesar de algumas exceções como a série Broad City, ainda é arriscado para as redes de televisão investir em produtores do YouTube, especialmente pelo amadorismo de muitos deles. Um produto feito para a web muitas vezes funciona só na web: levá-lo para a TV pode ser arriscado e as redes sabem disso. Mas como levar o público do YouTube de volta para a TV?

Ainda não temos uma resposta exata, mas algumas emissoras já mostram entender como funciona essa geração: o SBT libera os vídeos das pegadinhas produzidas pelo canal no YouTube minutos depois delas terem ido ao ar. Uma atitude certeira que chegou a dar fama internacional à pegadinha dos zumbis no metrô. Mas além dos vídeos de humor, o SBT tem disponibilizado programas inteiros — alguns longos, com mais de 1 hora de duração — na rede de vídeos do Google. Será esse o futuro da televisão?

Mas não é apenas esse risco que assusta as emissoras. O sucesso do YouTube e da internet vem mudando a maneira como as coberturas jornalísticas são encaradas. O imediatismo da internet faz com que a notícia chegue velha no jornal da noite e por que alguém vai querer assistir algo que já sabe, já leu e já viu? Ainda mais podendo voltar à internet para rever na hora que quiser e bem entender?

A Mídia Ninja, por exemplo, um coletivo independente de jornalismo, se provou muito mais ágil e veloz que grandes redes de televisão e jornais durante a cobertura dos protestos de junho de 2013, que levaram milhares de pessoas às ruas. O coletivo expôs também facetas de histórias e casos jornalísticos muitas vezes ignorados pelas grandes corporações. Da mesma forma que a série Broad City, a Mídia Ninja não precisa de uma rede de TV para produzir e exibir o conteúdo feito por ela — ela mesma pode fazer isso, até mesmo ao vivo.

Em apenas dez anos, o YouTube revolucionou a forma como produzimos, consumimos e compartilhamos conteúdos audiovisuais, fazendo de cada um de nós um potencial produtor de conteúdo audiovisual, seja ele sobre jogos, moda, notícias ou até mesmo um diário pessoal. Mas enquanto a televisão continua a produzir conteúdo que trará um retorno certeiro, o YouTube arrisca e cria a própria cultura e os próprios gêneros. O YouTube não vai roubar os programas da TV — ele tem a própria programação e agora expõe que a televisão que conhecemos talvez precise se reinventar. [Time]

Imagem de capa: esthervargasc/CC