Conto: Desconexão

Quando a internet acabou, eu estava em casa assistindo a um filme com Carina. Aquela sexta à noite foi nosso primeiro encontro sozinhas, então era um passo importante. Ela chegou com uma garrafa de vinho tinto e eu já estava com boa parte do jantar adiantado. Não nos beijamos na porta de entrada, mas demos um abraço e ela fez um comentário sobre a cor do meu batom quando nos afastamos.

Durante o resto da noite, a conversa fluiu bem. Nos divertimos e bebemos não só a garrafa de vinho que ela levou, como também abrimos outra que eu tinha guardada. Depois perguntei se Carina queria assistir algo. Ela concordou e ficamos uns quinze minutos procurando no catálogo da Netflix um filme que interessasse a nós duas e não fosse muito longo. Por que era tão difícil encontrar filmes de 1h30? Mas no fim, pouco importou a duração. Nós nunca terminamos de assistir ao filme.

Em 38 minutos de filme, o player travou. E sei desse tempo exato porque apertei o botão de pause algumas vezes, pensando que podia ser problema na minha internet. Afinal, meu celular também ficou desconectado. Mas logo vimos que não era um problema com o meu wi-fi, o celular de Carina também estava sem os dados móveis. Desistimos do filme e fomos para o quarto. Terminamos a segunda garrafa de vinho, fizemos sexo e fomos dormir, sem saber que o mundo estava mudando para sempre.

Na manhã seguinte, acordamos despreocupadas e ficamos um tempo na cama antes de levantar. Eu tinha o costume de sempre colocar música ao acordar, mas quando tentei, percebi que a internet ainda não havia voltado. Por isso, resolvi ligar a televisão. Carina disse que não precisava, mas eu queria deixar algo ligado, de ruído de fundo. Eu nem lembrava a última vez que assistira algo na televisão aberta, fazia tanto tempo que a antena nem estava conectada ao aparelho. No primeiro canal que colocamos, o caos. O mundo estava em completo caos.

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Ficamos absortas, ouvindo sem comentar nada uma com a outra. O problema com a internet não era algo local, mas mundial. O repórter da TV lia em um papel o nome de vários países, atualizando a lista dos lugares que estavam sem conexão. Ele reforçava a todo instante que ninguém sabia o que estava afetando a rede mundial. Carina falou um palavrão e lembrei da panela com água fervendo que deixara no fogão para preparar o café. Me afastei da televisão com uma sensação estranha.

Depois de tomar café da manhã, Carina disse que era melhor ir embora enquanto estava cedo.

— Tem alguma parada de ônibus aqui perto? — ela perguntou.

Ela viera de Uber e não tínhamos como chamar um táxi, porque ambas estávamos sem crédito no celular e eu também não tinha telefone fixo.

— Sim, eu vou com você até lá.

No meio do caminho, já na avenida comercial, passamos na frente de um banco. A fila estava enorme, chegando em outras duas lojas ao lado.

— Será que os caixas eletrônicos estão funcionando? — perguntei.

— Não tenho certeza — respondeu Carina. — Uma vez li em algum lugar que eles precisam de internet pra funcionar.

De qualquer forma, todas aquelas pessoas na fila pareciam querer pelo menos tentar. Era a incerteza se espalhando e criando uma ansiedade geral. E isso foi só o começo do que vi nos próximos dias com pessoas correndo para comprar alimento e gasolina — sem falar nas lojas sendo saqueadas.

Fiquei com Carina até o ônibus dela chegar, o trânsito estava caótico. Voltando para casa, concluí que o que me afligia, mais do que o acontecimento em si, era a percepção de que, até então, eu encarava a internet como algo fixo, que não podia acabar, impossível de viver sem. O que sequer fazia sentido, porque ela nem sempre existiu. Tudo tem um começo e um fim. Nada é imutável.

Ao longo daquela semana, as coisas seguiram em um ritmo lento. Os jornais não falavam de outra coisa, ficavam lembrando toda hora que não havia mais indícios de conexão online em nenhuma parte do globo. As teorias em busca de uma explicação eram muitas e quase todas beiravam a conspiração. Além disso, especialistas começaram a fazer previsões sobre como seriam nossas vidas dali em diante caso não houvesse solução para o problema. Muita coisa deixaria de existir ou precisaria se transformar. Serviços que a maioria das pessoas não imagina que precisavam da internet começaram a ser interrompidos ou passaram a operar de uma forma mais lenta. E não estou falando só de comodidades, como fazer compras online ou usar aplicativos, mas também de serviços de transporte, distribuição de mercadorias, empregos… A maior crise econômica das últimas décadas se iniciou, sem aviso ou explicação, em uma sexta-feira qualquer. Carina? Bem, nós seguimos juntas, conversamos por telefone fixo, que mandei instalar em casa, assistimos aos DVDs antigos que ela guardava. Meu celular agora é uma ótima calculadora e bloco de anotações, mas só isso.

E você, onde estava quando a internet acabou?


Waldson Souza é escritor. Formado em Letras e mestre em Literatura pela UnB, pesquisa sobre afrofuturismo e literatura brasileira contemporânea.

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