Todo mês o Gizmodo Brasil abre espaço para seus colunistas. Na primeira semana do mês quem escreve é Waldson Souza*, que trará contos de ficção científica inéditos e exclusivos. Na sua estreia, Souza imagina um futuro em que a automação do trabalho está muito mais intensa. 

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Este é o primeiro relatório que envio ao Comitê de Avaliação e espero que no próximo tenhamos conclusões mais palpáveis. De qualquer forma, concluí que essas primeiras impressões são importantes para decidir se partiremos para a etapa de Contato.. Demos o nome provisório de Ar’chan para o planeta em que estamos devido à quantidade de água aqui existente, afinal foi isso que chamou nossa atenção. Como em outros lugares visitados por nosso povo desde o início da expansão espacial, observou-se que a água foi fator definidor para que a vida se desenvolvesse em Ar’chan.

O Segundo Manual de Exploração Intergaláctica diz que devemos considerar como uma espécie dominante aquela encontrada em maior quantidade no planeta e que viva em grupos organizados, não importando o nível de urbanização. Em Ar’chan encontramos uma espécie dominante não só no que diz respeito a domínio tecnológico e de desenvolvimento cultural, mas também em hierarquias estabelecidas com outros seres vivos. Essa espécie, que batizamos de ekonts, existe em um número altíssimo e vive espalhada em diferentes continentes. Até o ponto atual de desenvolvimento do planeta, há pouquíssimos lugares inexplorados — mas esse fator, assim como estudos detalhados sobre espécies não ekonts, ainda está sendo estudado.

Ekonts são bípedes, possuem braços menores que os nossos, metade da nossa estatura média e pelos em partes localizadas do corpo (como pode ser observado no anexo 2). É interessante pensar em como uma espécie com o porte deles conseguiu dominar outros seres encontrados aqui (exemplos nos anexos 5 e 6) que são muito maiores e mais fortes. Ekonts demonstram leves variações em características físicas entre si na cor de peles e no formato de corpo — uma equipe especializada está analisando se existem arranjos sociais específicos gerados a partir disso. A quantidade de línguas que encontramos também é alta. Escolhemos três idiomas de regiões populosas para observar, fazer registros e incluir os padrões linguísticos no nosso tradutor automático.

Como sabemos, a principal vantagem de uma observação com equipes invisíveis é deixar que as sociedades locais existam por si, sem nossa interferência. Ao chegarmos em outros planetas, já vimos arranjos sendo modificados e grupos inimigos nativos se unindo contra nós ao sermos percebidos como uma ameaça externa comum a ser eliminada. E em Ar’chan existem muitos grupos inimigos. Detectamos territórios nos quais atualmente estão ocorrendo guerras e as consequências têm sido milhares de mortos e feridos, bem como a destruição de cidades. Quando avançarmos com a ferramenta de tradução, poderemos entender a motivação dos conflitos e traçar uma cronologia para identificar quando e por qual motivo se iniciaram.

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De qualquer forma, observar que ainda existem guerras em Ar’chan é sinal do estágio atrasado em que ekonts se encontram, principalmente se tais conflitos forem por causa de bens materiais. Sobre esse fator, podemos observar que há recursos naturais como água e alimentação suficientes para toda a população ekont do planeta, mas ao mesmo tempo não ocorre uma distribuição igualitária. Concluímos isso após um de nossos grupos identificar regiões que vivem em situação bastante precária, enquanto outras apresentam abundância de recursos.

O estágio atrasado em que os ekonts se encontram também é reforçado pela existência de prisões e pela forma com a qual eles lidam com o meio ambiente. Parecem não se preocupar com o futuro e nem estarem dispostos a abandonar sistemas ineficazes. Entretanto, é importante lembrar que mesmo em nosso planeta enfrentamos problemas semelhantes séculos atrás.

Ainda há muito o que ser observado. Os ekonts estão longe de conseguir colonizar outros planetas, o máximo que fizeram até agora foi enviar sondas espaciais para o espaço e colocar uma bandeira na lua de Ar’chan. Nossos equipamentos só detectaram vida no terceiro planeta deste sistema solar, por isso, caso seja decidido não fazer Contato com os ekonts, teremos de partir em busca de outro planeta.

Assinado,
Ozkoruc yn Dwetib
Explorador-mor
Missão de Observação Nível 2
4000.15/5 M-85’101

Este é o relatório de número 95 e que encerra a Missão de Observação Nível 2 no planeta Ar’chan. Como mencionado no relatório anterior, as coisas não saíram como o planejado e fomos descobertos por um grupo de ekonts. Neste momento, eles estão se organizando e preparando uma estratégia de defesa, pois partem do pressuposto que iremos atacá-los. Diante disso, solicito ao Comitê de Avaliação uma resposta definitiva. Faremos ou não contato? Se sim, aguardamos orientações sobre nossa abordagem.

Juntamos material suficiente sobre os ekonts, sabemos que Ar’chan ainda pode ser salvo. Se virarmos as costas aos ekonts, estaremos condenando uma espécie inteira à extinção. Será muito mais difícil iniciar o Contato agora, não poderemos fazer isso de forma pacífica. Mas há estratégias de intervenção viáveis e com o menor dano possível. O início será conturbado, mas com nossos ensinamentos e a capacidade dos ekonts de se adaptar, construiremos um futuro melhor para Ar’chan.

Assinado,
Ozkoruc yn Dwetib
Explorador-mor
Missão de Observação Nível 2
4000.15/5 M-89’202

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Waldson Souza é escritor. Formado em Letras e mestre em Literatura pela UnB, pesquisa sobre afrofuturismo e literatura brasileira contemporânea.