Uma nova pesquisa publicada no New England Journal of Medicine nesta quinta-feira (3) mostra uma análise mais detalhada de como o coronavírus se alastra pelo organismo de um ser humano. As imagens, tiradas com ampliação de 1 micrômetro, retratam o vírus causador da COVID-19 em massa infectando as células do pulmão humano, e podem fornecer dicas de por que o vírus é tão devastador em nossos corpos.

Camille Ehre, pneumologista pediátrica e pesquisadora de pulmão na Universidade da Carolina do Norte, e sua equipe recriaram a foto em alta definição para entender exatamente como o coronavírus interage com as vias respiratórias do pulmão após a infecção, bem como estudar como as células infectadas se comportam quando são dominadas pelo vírus.

Os cientistas usaram células do epitélio, superfície das vias aéreas em forma de árvore do pulmão, retiradas de pulmões transplantados. As células, então, foram cultivadas em laboratório. Em seguida, expuseram as células ao SARS-CoV-2 e deixaram que o vírus as infectasse. Todos os experimentos de infecção foram realizados em um laboratório de Biossegurança Nível 3, reservado para estudar alguns dos germes mais perigosos do mundo.

Essencialmente, os vírus são um conjunto minúsculo de proteínas e material genético (DNA ou RNA, como acontece com o SARS-CoV-2) que invadem e “sequestram” células vivas, modificando toda sua estrutura genética. O vírus força essas células infectadas a produzir e enviar mais cópias de si mesmas para o organismo, iniciando esse processo por várias e várias vezes até que a célula seja morta. Os vírus são tão dependentes de outros organismos que ainda é um debate acirrado entre os cientistas se eles devem ser considerados seres vivos ou não.

As imagens acima e abaixo desta matéria mostram cópias individuais totalmente intactas do vírus, chamadas de vírions, circulando livremente pelas células das vias aéreas 96 horas após a infecção. As fotos foram tiradas em um microscópio eletrônico de varredura (SEM, na sigla em inglês), que é necessário para ver coisas incrivelmente pequenas, como os vírus.

Os objetos que parecem várias bolinhas em grupo são o SARS-CoV-2, enquanto as estruturas mais compridas em forma de bastão são células com cílios – projeções semelhantes a cabelos que se movem no mesmo ritmo para limpar detritos, muco e micróbios das vias aéreas, permitindo que possamos respirar normalmente.

Imagens mostram como o coronavírus infecta os pulmões. Crédito: Camille Ehre/The New England Journal of Medicine

Nesta imagem, os vírions do SARS-COV-2 aparecem infectando as células que revestem as vias respiratórias do pulmão. A foto está 10 vezes mais próxima do que a figura que destaca esta matéria. Crédito: Camille Ehre/The New England Journal of Medicine

Ehre descobriu que o vírus da COVID-19 gosta de infectar especialmente essas células ciliadas e que, produzindo mais e mais cópias de si mesmo. “A observação mais impressionante foi o número enorme de vírions produzidos por uma única célula infectada. Algumas dessas células infectadas estavam tão cheias de vírus que aumentaram de tamanho e se desprenderam do epitélio, dando a impressão de que estavam prestes a explodir”, disse Ehre, por e-mail.

Os altos níveis de SARS-CoV-2 produzidos pelas células das vias aéreas (uma proporção de 3 para 1, segundo o estudo) ajudam a explicar por que o coronavírus pode afetar diferentes partes do corpo próximas umas às outras, entre elas o revestimento da nossa cavidade nasal, o que é crucial para nosso olfato. Um dos principais efeitos de quem contraiu a COVID-19 é a perda de olfato – alguns casos são tão graves que o paciente perde essa capacidade definitivamente.

“Uma enorme carga viral está disponível para se espalhar dentro de um indivíduo infectado e infectar o epitélio olfatório, o que explica o sintoma comum de perda do olfato, e também infectar as glândulas salivares, o que explicaria o sintoma de boca seca. O pior é quando os vírus vão para os pulmões e produzem pneumonia que causa falta de ar e pode levar à morte”, completou a pneumologista.

Ehre ainda destacou que as fotografias reforçam a importância do uso de máscaras por todas as pessoas, estejam infectadas ou não. Essa é uma das formas mais eficazes na redução dos níveis de transmissão do vírus. E, particularmente, a última coisa que quero é saber que essas várias bolinhas de vírus que aparecem nas fotos estão atacando os meus pulmões.