Um dos segredos da Apple para causar impacto no mercado e em seus consumidores é saber guardar os seus próprios segredos. A empresa, conhecida por ser muito restritiva, tem lidado com mais seriedade com os vazamentos de seus produtos desde 2010, quando um iPhone 4 foi deixado em um bar por um funcionário e acabou caindo nas mãos do Gizmodo, em um dos maiores vazamentos da história. No começo deste mês, a companhia fez uma reunião interna para explicar novas medidas e detalhar como tem trabalhado para coibir que seus lançamentos apareçam na mídia antes da hora, além de instruir seus funcionários sobre as condutas. Acontece que o pessoal do The Outline obteve acesso à gravação desse encontro.

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As instruções, batizadas de “Stopping Leakers – Keeping Confidential at Apple” (ou “Impedindo vazamentos – mantendo a confidencialidade na Apple”, em tradução livre), foram lideradas pelo Diretor de Segurança Global da empresa David Rice, o Diretor de Investigações Globais, Lee Freedman, e Jenny Hubbert, que trabalha nas equipes de treinamentos e comunicações de segurança global. Na apresentação, que deve acontecer mais vezes nos escritórios da Apple, são exibidos diversos vídeos com depoimentos de funcionários, sempre indicando que “vazamentos prejudicam a imagem da empresa” ou afirmando que “esse comportamento não pode ser mais tolerado”.

Em um momento, Greg Joswiak, vice-presidente da Apple para marketing de produto do iPod, iPhone e iOS, afirma que a Apple construiu uma infraestrutura e um time “para encontrar essas pessoas que vazam” e que o time “tem sido muito efetivo”. Esse time a que Joswiak se refere é o de “Segurança de Novos Produtos”, ou NPS na sigla em inglês. Essa equipe faz parte do time maior de Segurança Global e foi criada justamente depois do vazamento do iPhone 4.

A chefia da equipe de segurança da Apple tem um currículo nada modesto: Rice trabalhou na Agência de Segurança Nacional (NSA) como Analista Global de Vulnerabilidade de Redes e como Criptologista de Deveres Especiais na Marinha dos EUA. Já Lee Freedman trabalhou como líder da divisão de crimes de hackers no Ministério Público dos EUA e como Procurador-Geral Assistente no Brooklyn. O time reúne um número não revelado de investigadores ao redor do mundo que previnem que informações cheguem a concorrentes, falsificadores e imprensa, além de encontrar a fonte dos vazamentos. Alguns desses investigadores já trabalharam para agências de inteligência dos EUA, como a NSA, agências de imposição da lei como FBI e o serviço secreto americano e no exército.

Origem dos vazamentos

A maior parte dos vazamentos de produtos acontece na cadeia de produção. E os principais aconteceram quando partes dos dispositivos foram roubados de fábricas na China. O Outline exemplifica com as fotos do iPhone 5 vazadas em 2012. Uma das peças mais valiosas no mercado negro ou para a imprensa são as carcaças dos produtos. “Se você tem a carcaça, você praticamente consegue saber o que vai estar lá dentro”, diz Rice.

Trabalhadores das Apple nas fábricas chinesas ganharam aproximadamente US$ 350, de acordo com um relatório do China Labor Watch do ano passado. A baixa remuneração é um dos incentivos para esses vazamentos: “Uma série de pessoas pode ser aliciada, porque o que acontece se eu oferecer, digamos, três meses de salário para ele? Em alguns casos, ficamos sabendo de pessoas que ofereceram até um ano de salário em recompensa pelo roubo de produtos”, comentou Rice.

Rice afirmou posteriormente que as situações na cadeia de produção foram tratadas com muita intensidade e que já não mais representam um risco tão grande. “Em 2014, tivemos 387 carcaças roubadas”, disse. “Em 2015, tivemos 57 roubos, 50 dos quais foram roubados na noite do anúncio, o que é bem doloroso”. Em 2016, Rice diz que a empresa produziu 65 milhões de carcaças, e apenas quatro foram roubadas. “Então, trata-se de uma relação de um roubo a cada 16 milhões de unidades, o que é inédito na indústria.”

Depois de conseguir diminuir drasticamente os vazamentos a partir das fábricas, o time percebeu outra fonte: os próprios campus na Califórnia. “O ano passado foi o primeiro ano em que os campus [da Apple] vazaram mais do que a cadeia de produção”, completou Rice. No ano passado, a empresa descobriu dois “grandes” vazadores nos escritórios: um deles trabalhava na loja online da Apple “há dois anos” e outro trabalhava no iTunes há “cerca de seis anos”. Foi descoberto que esses caras estavam dando informações para blogueiros. Um deles conversava com um jornalista pelo Twitter, enquanto o outro já mantinha uma amizade com um repórter antes mesmo de trabalhar para a empresa.

Vazamentos acidentais

Durante a sessão de perguntas e respostas da apresentação, um empregado da companhia afirmou que muitos dos vazamentos acontecem de forma acidental, como ao copiar a pessoa errada em um email ou convidando alguém para uma reunião e acabando por revelar informações confidenciais na mensagem. Isso porque, segundo esse funcionário, muitas pessoas na empresa têm o mesmo nome.

Isso é tão frequente que a Apple já tem até um procedimento a seguir, criando uma espécie de “equipe da SWAT”, como define Lee Freedman, Diretor de Investigações Globais da empresa, para lidar com o problema logo que ele aparece. Eles retiram a mensagem daqueles que ainda não a leram, passam por todos que a receberam e veem quem estava autorizado a saber a respeito do produto discutido na mensagem. Então, chegam às pessoas que não estavam autorizadas e abriram a mensagem, com quem falam individualmente, lembrando das obrigações de manter segredos.

Cultura de vigilância

Segundo o Outline, os empregados da Apple não podem discutir lançamentos que estão por vir, preços ou disponibilidade de produtos, e outros tipos de informação podem ou não ser confidenciais, sendo difícil de determinar. Em caso de dúvidas, os funcionários têm uma espécie de equipe de discrição à disposição, com quem podem conversar caso algo não pareça certo ou caso as linhas que delimitam o que é divulgável e o que não é não estejam muito claramente definidas. David Rice, no entanto, ressalta que esse estado de segredo constante não criou uma cultura de medo: “Não temos uma cultura de Big Brother. Não tem ninguém na minha equipe lendo emails, te seguindo no ônibus. Não fazemos isso”.