A Cydia, uma loja de aplicativos que roda em iPhones e outros dispositivos da Apple que passaram por jailbreaking (forma de desbloqueio), está desativando a capacidade de comprar e vender apps na plataforma, segundo o TechCrunch.

Em um post no Reddit, o fundador da Cydia, Jay “Saurik” Freeman, disse que, inicialmente, havia planejado fechar a loja toda, depois de anos de frustração ao operá-la. Entretanto, ele havia aumentado o prazo depois da descoberta de um sério problema de segurança:

A realidade é que eu queria apenas fechar a Cydia Store completamente antes do final do ano e estava considerando mudar o cronograma para outro momento (o último final de semana) depois de receber o relatório; esse serviço me faz perder dinheiro e não é algo que eu tenha nenhuma paixão em manter: era um componente essencial de um ecossistema saudável e, por um tempo, ajudou a financiar uma pequena equipe de pessoas para manter o ecossistema, mas isso custou muito a minha sanidade e levou muitas pessoas a me odiarem irracionalmente devido a um mal-entendido proposital sobre como funciona o lucro versus a receita.

O bug em questão “permitia que alguém comprasse aplicativos através da sua conta se você estivesse conectado e navegando em repositórios de aplicativos não confiáveis”, segundo o Engadget. Mas Freeman disse que o problema afetou apenas um pequeno número de usuários, e parece que a decisão foi tomada antes de sua descoberta. Freeman escreveu no post que, apesar de ter sido capaz de contratar funcionários para ajudar a manter a Cydia, as receitas diminuíram a ponto de agora ele estar financiando a hospedagem do seu próprio bolso.

Fechar as funções de compra não afeta a capacidade de baixar aplicativos que já foram comprados anteriormente ou de acessá-los por meio de repositórios de terceiros, apontou o TechCrunch.

A Cydia foi lançada há uma década e, em seu auge, foi um grande destino para os usuários que procuravam contornar o “opressivo jardim murado” da Apple — em certo momento, chegou a obter milhões em receita por ano. Como observou o Engadget, o número de recursos com suporte nativo no iOS cresceu significativamente desde então, incluindo aqueles que imitam funções populares de jailbreaking, deixando menos incentivos para que os usuários façam o desbloqueio. Igualmente importante, a Apple investiu muito tempo e esforço para encontrar e destruir as falhas de segurança que tornavam possível a instalação de software não autorizado (o iOS 11 passou meses sem um jailbreak funcional lançado publicamente). Muitos ex-jailbreakers começaram a vender suas descobertas ou foram trabalhar para a própria Apple, informou o Motherboard no ano passado:

O aumento das medidas de segurança adotadas pela Apple não só dificultou a obtenção de um jailbreak completo, que agora requer uma cadeia de bugs difíceis de encontrar. Ele também tornou os jailbreaks, e os bugs e explorações que estão por trás deles, valiosos demais para se distribuir gratuitamente — ou mesmo para vender à Apple por milhares de dólares.

No ano passado, o chefe de segurança da Apple e “assassino de jailbreaking”, Ivan Krstić, se gabou da força das defesas do iOS, apontando para o fato de que os jailbreaks hoje em dia exigem “entre cinco e dez vulnerabilidades distintas para que seja possível derrotar os mecanismos de segurança da plataforma”.

Freeman disse ao Motherboard naquela época que os jailbreaks costumavam funcionar por meses a fio, enquanto agora eles tendem a ter uma vida útil muito mais curta e são encerrados quase que imediatamente. Ele chegou ao ponto de dizer que não recomendava mais o jailbreak, já que isso expõe os usuários a riscos potenciais de segurança e o retorno simplesmente não existe mais.

“Você costumava ter recursos incríveis que quase eram a razão pela qual você tinha o telefone”, contou Freeman ao Motherboard. “E, agora, você consegue uma pequena modificação.”

Como o 9to5Mac apontou, muitos desenvolvedores na plataforma “deixaram de usar a Cydia Store para compras”, então o impacto disso pode ser pequeno sobre eles.

Embora os tempos possam ter mudado, o jardim murado da Apple não mudou: ainda que seja legal fazer jailbreaking de dispositivos nos EUA, a gigante da tecnologia advertiu repetidamente contra a prática, afirmando que fazê-la poderia anular as garantias dos aparelhos. Sua proibição de conteúdo adulto na App Store segue intacta — e teria se espalhado para outros projetos futuros da Apple, como o de serviço de streaming —, e a empresa tem estado contente em cooperar com censores estatais na China, onde aplicativos que ajudavam os usuários a evitar a censura do governo foram removidos da App Store local.

Segundo o TechCrunch, Freeman planeja fazer um anúncio mais formal sobre a mudança na próxima semana.

[TechCrunch]