Pegue seus óculos de sol, pílulas azuis e vermelhas e faça cara de hacker. O trailer de Matrix Ressurections está entre nós e temos muito para conversar.

Confesso que estou cético com o novo filme da franquia. E é fácil sentir-se assim depois do fiasco de Matrix Revolutions (e vários outros filmes das irmãs Wachowski), da ausência de Lilly Wachowski e da falta de clareza sobre o que o filme será.

Mas, tudo bem. Depois de 22 anos do lançamento da franquia que marcou o fim do século 20, parece que ainda temos muito conteúdo para tirar de Matrix.

Alice e coelhos brancos

No primeiro Matrix, Neo é instruído a “seguir o coelho branco”, uma clara referência a Alice no País das Maravilhas. A trilogia original é repleta de paralelos com a obra de Lewis Carrol e, aparentemente, elas se intensificam no quarto filme da saga.

Uma das personagens no trailer tem um coelho branco tatuado no braço, o livro de Alice no País das Maravilhas aparece em uma das cenas e a canção que toca no trailer, White Rabbit (coelho branco, em português), fala sobre — adivinhe só — Alice no País das Maravilhas.

Sai Prodigy e entra Jefferson Airplane

Uma mudança que chama a atenção neste novo trailer é a trilha sonora. Em 1999, Matrix estava cheio de techno e industrial em sua pesada trilha, com composições de Rob Zombie, Deftones e, claro, muito Prodigy.

Desta vez, a música do trailer é muito mais suave e psicodélica. White Rabbit é uma canção de uma banda chamada Jefferson Airplane — um dos exponenciais da psicodelia dos anos 1960s. A canção, inclusive, foi composta pela vocalista Grace Slick em San Francisco, berço de tantas inovações tecnológicas que dialogam com Matrix.

Neo não é mais a mesma pessoa

Não, não estamos falando sobre o envelhecimento do Keanu Reeves — que agora lembra muito mais John Wick do que o Neo de Matrix original –, mas “daquela” cena em que ele se olha no espelho e vê um senhor de cabelos grisalhos. Essa imagem já havia aparecido nos teasers e, aparentemente, acontece no mesmo espelho em que Neo está tomando as pílulas azuis.

O personagem de Yahya Abdul-Mateen II se parece (até demais) com Morpheus

Um homem negro, careca, com óculos de sol redondos, oferecendo pílula vermelha, falando com ar de sábio e aparecendo em uma cena de luta contra Neo. As referências a Morpheus são claras demais, mas o ator não é mais Laurence Fishburne, e sim Yahya Abdul-Mateen II. Aparentemente, todos os personagens que voltaram estão sendo representados pelos mesmos atores de antes. Portanto, por que Morpheus é exceção? A resposta está no próximo item.

Segundo os games, o Morpheus de Laurence Fishburne morreu

Em The Matrix Online, um MMORPG, que é considerado cânone pela franquia. Ele mostra que, nos eventos após Matrix Revolutions, Morpheus morreu. Isso porque, irritado pelas máquinas não devolverem o corpo de Neo, ele comanda ataques à Matrix, que responde com um programa chamado Assassin, que o mata com vários tiros.

O “mundo real” de Matrix ainda existe

Há uma cena breve em que vemos o mundo completamente destruído e dominado pelas máquinas — mesmo após Neo se sacrificar para deter o Agente Smith. Como o Arquiteto provocava no final de Matrix: Revolutions, a paz parece não ter durado muito tempo.

Ao que tudo indica, o filme é uma sequência, não uma prequel

Há um trecho muito rápido no trailer que mostra o corpo de Neo cego e dominado pelas máquinas — tal como no fim de Matrix Revolutions. Além disso, a ausência de Laurence Fishburne, o retorno de Trinity e o “envelhecimento” de Neo no espelho, indicam que a história seguiu adiante.

Trinity parece estar viva ainda

O “novo” Morpheus indica, em algumas falas, que Neo continua procurando por Trinity. E, além de encontrá-la em uma simulação sem reconhecer o personagem de Keanu Reeves, também vemos uma rápida cena em que o corpo dela parece ligado a uma máquina da Matrix.

Boa parte do mundo ainda não entendeu Matrix

Matrix é sobre muitas coisas e pode ser visto por muito ângulos. No entanto, a franquia, definitivamente, não é uma apologia à extrema-direita. Apesar disso, desde o Gamergate (uma série de ataques misóginos que eram direcionados a mulheres nos videogames), boa parte da extrema-direita passou a usar as metáforas de Matrix como forma de dizer que o “mundo real” seria algo fora do “politicamente correto”. O Nexo resume essa história.

A cooptação da mensagem do filme não poderia ser mais errada. Além de as irmãs Wachowski já terem, reiteradas vezes, desprezado comentários de extrema-direita, Lilly Wachowski já deixou bem claro que, na sua visão de criadora, o filme é uma metáfora sobre aceitação transgênero (vale lembrar que tanto Lily quanto Lana, são mulheres trans).