Dermatologistas estão começando a relatar alguns sintomas peculiares relacionados ao COVID-19: manchas de pele descoloridas e/ou ásperas, geralmente ao longo dos dedos das mãos e dos pés. Nesse ponto, porém, não está claro com que frequência esses sintomas ocorrem nos pacientes ou o quê exatamente os causa.

Os primeiros relatos de uma possível conexão entre COVID-19 e a pele surgiram a partir de médicos que trataram pacientes da pandemia no início do surto, como na Itália. Eles documentaram pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19 que também desenvolveram erupções cutâneas. Mais recentemente, esses relatos envolveram uma manifestação específica de problemas relacionados à pele, denominados “dedos de COVID”.

“No nosso grupo pediátrico, essas discussões começaram cerca de duas semanas atrás, onde ouvimos nossos colegas italianos e espanhóis sobre ver cada vez mais essas descolorações nos dedos dos pés. Então, começamos a procurar e começamos a notar isso também”, disse Amy Paller, diretora de dermatologia da Faculdade de Medicina Feinberg da Northwestern University e dermatologia pediátrica no hospital infantil Ann & Robert H. Lurie, em Chicago, ao Gizmodo, por telefone. “Agora, provavelmente já recebi cerca de 40 imagens que parecem quase idênticas”.

Condição nos dedos é potencialmente ligada a sintomas de COVID-19
Pé de uma adolescente um pouco antes depois que começou os sintomas nela. Crédito: Amy Paller/Northwestern University

Estes relatos levaram a organizações como a Academia Americana de Dermatologia (AAD, na sigla em inglês) a criar um registro no qual os médicos podem relatar qualquer condição de pele possivelmente relacionada ao COVID-19 em seus pacientes. De acordo com Esther Freeman, que gerencia o registro e também é diretora do programa Global Health Dermatology do hospital geral de Massachussetts, houve cerca de 200 relatos enviados à AAD até agora. Cerca da metade deles envolvem os “dedos de COVID”.

“A maioria desses pacientes está em regime ambulatorial e, de outra forma, é relativamente jovem e saudável. Então, esses são pacientes que estão indo muito bem. Acho que é importante saber disso”, disse Freeman ao Gizmodo.

Casos envolvendo erupções cutâneas ou urticária provavelmente não são tão incomuns. Freeman observou que muitas infecções virais causam problemas de pele distintos, como o sarampo, também são principalmente infecções respiratórias como a causada pelo novo coronavírus. Os dedos afetados, no entanto, são outra história. Eles se assemelham mais a uma condição específica conhecida como pérnio, que não é comumente ligada a infecções virais.

Muitos casos de pérnio não têm causa conhecida, mas alguns são associados à exposição a baixas temperaturas.

Os dermatologistas geralmente pensam que o pérnio é causado por uma resposta inflamatória rebelde do sistema imunológico que obstrui os vasos sanguíneos, com consequências nos dedos dos pés e das mãos. Algo semelhante pode estar acontecendo com pacientes de COVID-19, de acordo com Paller, que também faz parte de um registro dos EUA de dermatologia pediátrica para COVID-19. Mas, neste ponto, ela acrescentou, há muitas incógnitas para ter certeza de alguma coisa.

Por um lado, os sintomas em si são bastante variados. Algumas pessoas têm apenas descoloração dos dedos, o que pode ou não envolver todos os dedos. Outros também relatam dor ou sensibilidade ato toque. Outros ainda têm pés que coçam e podem se tornar dolorosos, disse Paller. Às vezes, as pessoas também podem desenvolver lesões na parte inferior dos pés ou dedos podem ficar descoloridos da mesma forma.

Embora algumas pessoas também tenham relatado sintomas respiratórios superiores juntamente com os problemas dos dedos dos pés, muitos não o fizeram. Felizmente, esses sintomas parecem desaparecer por conta própria. “Então, ainda estamos aprendendo sobre as várias características da condição”, disse Paller.

De fato, enquanto Paller e seus colegas certamente viram um aumento nesses casos de pérnio, é possível que eles não estejam realmente conectados ao COVID-19. O medo e o estresse da pandemia podem tornas as pessoas mais consciente de qualquer coisa errada seus corpos e mais propensas a relatar sintomas a seus médicos, independentemente de terem tido COVID-19 ou não. Pelo menos em alguns casos, disse Paller, pessoas com supostos dedos de COVID não deram positivo para o vírus.

No entanto, ainda existe uma grande lacuna no acesso a testes nos EUA e em outros países. Muitas pessoas, especialmente com sintomas leves ou sem sintomas, nunca farão o teste do swab (em que há coleta de material do nariz para testar se a pessoa foi infectada ou não).

Os testes de anticorpos, que teoricamente podem dizer a alguém se eles já tiveram a infecção no passado, também ainda estão indisponíveis e muitos são afetados por problemas de precisão. O teste de anticorpos em larga escala da população, disse Freeman, resolveria se esses sintomas são realmente causados pela infecção por COVID-19, bem como com que frequência e quando isso ocorre durante o curso da doença. Ela espera que demore meses para que esse tipo de pesquisa esteja disponível.

Paciente adolescente quatro meses após os sintomas. Crédito:  Amy Paller/Northwestern University
Paciente adolescente quatro meses após os sintomas. Crédito:  Amy Paller/Northwestern University

Curiosamente, Paller e outros notaram que os pacientes com dedos de COVID às vezes relatam ter um resfriado leve uma semana ou mais antes da infecção. Isso pode significar que esses sintomas estão ocorrendo após a infecção ter desaparecido e a pessoa não ser mais contagiosa (também pode ser responsável por pessoas com dedos feridos e com resultados negativos para o vírus). Mas Freeman não descarta a possibilidade de alguém com esses sintomas ainda estar infectado.

Por mais estranho que seja acordar com os dedos esquisitos, Freeman espera que as pessoas não se assustem muito com esses casos.

“Um dos meus conselhos para o público seria: não entre em pânico. Porque minha preocupação é que as pessoas vejam esses tipos de relatos e digam: ‘ah, meu Deus, meus dedos estão roxos, eu vou ficar muito, muito doente’. E eu diria que isso ainda não foi provado com os dados disponíveis”, disse ela.

As pessoas com esses sintomas devem conversar com seus médicos, se possível, acrescentou Freeman, que pode fazer com que sejam testadas ou tratadas. Aqueles cujos dedos também ficaram com coceira ou erupção cutânea podem se beneficiar de tratamentos como cremes com esteróides, disse Paller. Mas se o teste não estiver disponível, isolar-se temporariamente dos outros pode ser a coisa mais inteligente a fazer.