Arqueólogos na Noruega descobriram evidências de uma passagem em uma montanha que foi muito utilizada durante a Era Viking. Centenas de itens muito bem preservados foram encontrados no topo de uma geleira derretida, numa descoberta que, infelizmente, foi possível graças ao aquecimento global.

A nova pesquisa publicada nesta quarta-feira (15) na Antiquity descreve uma passagem de montanha esquecida em Lendbreen, Noruega, que esteve em uso desde a Idade do Ferro até o período medieval europeu.

Localizada em Lomseggen Ridge, a passagem está repleta de artefatos bem preservados, incluindo luvas, sapatos, ferraduras de cavalo, pedaços de trenós e até mesmo os restos de um cão ainda preso à sua coleira e trela. A datação por radiocarbono desses artefatos pinta um quadro de como e quando a passagem de montanha foi usada, e sua importância tanto para as comunidades locais quanto para as externas.

As centenas de itens encontrados em Lendbreen foram largados acidentalmente ou intencionalmente enquanto as pessoas atravessavam a montanha. Esses itens, alguns feitos de materiais orgânicos, ficaram presos em gelo glacial, preservando os materiais por 1.200 anos. A passagem foi descoberta em 2011, e o trabalho de campo tem continuado desde então, à medida que a geleira continua a diminuir e a expor mais itens.

Os restos não datados de um cão, juntamente com a sua coleira e trelaOs restos não datados de um cão, juntamente com a sua coleira e trela. Imagem: Espen Finstad

“O aquecimento global está causando o derretimento do gelo das montanhas em todo o mundo, e as descobertas no gelo são resultado disso”, disse Lars Pilø, principal autor do estudo e co-diretor do Programa de Arqueologia Glacial da Noruega, ao Gizmodo.

“Tentar salvar os restos de um mundo em derretimento é um trabalho muito emocionante – as descobertas são o sonho de um arqueólogo – mas, ao mesmo tempo, também é um trabalho que você não consegue fazer sem um profundo senso de presságio.”

A população local usava o desfiladeiro da montanha para viajar para suas casas de verão, mas também era usado por viajantes de longa distância e comerciantes, de acordo com a nova pesquisa. O caminho mede apenas 700 metros de comprimento, alcançando uma altura máxima de 1.920 metros ao longo da Serra de Lomseggen, em Lendbreen.

Descobertas relacionados a um cavaloDescobertas relacionados a um cavalo: uma mandíbula (superior esquerda), ferradura (superior direita), crânio (inferior esquerda) e esterco (inferior direita). Imagem: L. Pilø et al., 2020/Antiquity

Ao procurar através do gelo derretido, os arqueólogos encontraram ferraduras de neve para cavalos, restos enterrados de cavalos de carga e suas pilhas de esterco, partes de trenós, uma bengala adornada com uma inscrição rúnica, uma faca com cabo de madeira bem conservado e um roca de fiar de madeira usada para segurar a lã durante a fiação manual.

Outros artigos incluíam luvas, sapatos e restos de roupa, além de uma túnica da Idade do Ferro. Alguns itens não tiveram descrição, sem análogos arqueológicos.

“Essas descobertas nos contam uma rica história da comunidade agrícola local, da qual, de outra forma, só existem em fontes escassas”, disse Pilø.

(A) ferramenta de perfuração feita com chifre de cabra ou de cordeiro, (B) faca com cabo de madeira, (C) sapato, (D) luva, (E) galho seco, (F) ferramenta de madeira, e (G) uma roca de fiar(A) ferramenta de perfuração feita com chifre de cabra ou de cordeiro, (B) faca com cabo de madeira, (C) sapato, (D) luva, (E) galho seco, (F) ferramenta de madeira, e (G) uma roca de fiar. Imagem: L. Pilø et al., 2020/Antiquidade

O elevado número de pedras destinadas a ajudar na caminhada – e até mesmo um abrigo – “sugere a necessidade de marcar a rota para não-locais”, disse Pilø, explicando que isso foi utilizado pela equipe como evidência de viagens de longa distância.

Outras evidências, como chifres de rena e peles, apontam para o comércio exterior da Noruega, enquanto os restos de resíduos de leite dentro de panelas sugerem a evidência de viagens locais.

Curiosamente, e talvez de forma contraintuitiva, a passagem foi provavelmente usada durante o final do inverno e da primavera. Isso porque o caminho só funciona realmente para cavalos quando o terreno áspero está coberto de neve.

Pilø disse que a sua equipe encontrou uma ferradura de neve de cavalo preservada saindo do gelo no desfiladeiro durante a temporada de derretimento de 2019, “o que apoia bem essa hipótese”. Ao que ele acrescentou: “a quantidade de cobertura de neve varia muito de ano para ano, por isso a rota pode, por vezes, pode sido utilizada durante mais tempo em um ano”.

Pedras encontradas ao longo da passagem na montanhaPedras encontradas ao longo da passagem na montanha. Imagem: L. Pilø et al., 2020/Antiquity

A datação por radiocarbono foi utilizada para determinar a idade de 60 dos itens recuperados, permitindo aos pesquisadores entender quando o caminho foi utilizado e identificar os tempos de tráfego intenso.

As primeiras evidências da passagem datam de 300 d.C. durante a Idade do Ferro Romano, quando os assentamentos locais estavam em ascensão. O tráfego ao longo do caminho atingiu um pico de cerca de 1000 d.C. durante a Idade dos Vikings – uma época de maior mobilidade, centralização política, aumento do comércio e maior urbanismo no norte da Europa.

Por volta de 1500 d.C., no entanto, a passagem foi abandonada e eventualmente esquecida. Vários fatores foram citados como possíveis razões para isso, incluindo as mudanças climáticas, as mudanças econômicas e as pandemias medievais, especificamente a Peste Negra, que atingiu seu auge na Europa entre 1347 e 1351.

O aquecimento global tornou essa descoberta possível, mas não se iluda pensando que isso é algo bom para a arqueologia. Em 2017, pesquisadores alertaram que a elevação do nível do mar poderia ameaçar cerca de 32.000 sítios arqueológicos pré-históricos e históricos na América do Norte.