O espaço é cheio de potenciais perigos — cometas, marcianos, sacolas cheias de cocô de astronauta, você escolhe. Mas, caso fosse mesmo necessário se defender de um inimigo interestelar, uma arma tradicional funcionaria no espaço?

O vácuo do espaço sideral não é um problema na hora de disparar uma arma. Afinal, tecnicamente, armamentos não precisam de oxigênio para funcionar. A pólvora (ou qualquer que seja o explosivo que está no cartucho da arma) é completamente selada e não sofre interferência da atmosfera presente. Ela possui um oxidante misturado com o combustível e é perfeitamente capaz de disparar no vácuo. Até a cápsula do cartucho, que também é selada, funcionaria no vácuo.

De fato, uma arma não só funcionaria no espaço, como funcionaria até um pouquinho melhor, já que o projétil não precisaria comprimir o ar enquanto é disparado. E como no espaço não existe ar para diminuir a velocidade da bala conforme ela faz sua trajetória, a distância que o disparo pode atingir seria essencialmente infinita. É claro que a trajetória eventualmente faria uma curva, uma vez que ela provavelmente ainda estaria em órbita, mas uma órbita notoriamente diferente da órbita da arma ou da de quem fez o disparo.

Por exemplo, a Estação Espacial Internacional (EEI) tem uma velocidade orbital de aproximadamente 27,000 quilômetros por hora, que é o equivalente a 7,600 metros por segundo. Dependendo da arma, a velocidade de saída do projétil pode variar de 120 a 1.200 metros por segundo. Portanto, a órbita da bala se diferencia da órbita do astronauta que a disparou. Em geral, atirar reto de qualquer lugar vai resultar em uma órbita que sempre ficará acima ou igual a órbita da EEI. E ainda, se o projétil for disparado contra a órbita, ela pode sair da atmosfera e se perder no espaço.

Não há necessidade de modificar uma arma para que ela funcione no espaço. A diferença de massa da bala e da massa da arma — mais a da pessoa carregando a arma — vai assegurar que a bala receba a maior energia cinética da explosão (mesmo ambas recebendo o mesmo impulso devido à conservação de impulso).

No entanto, considerando que o astronauta esteja flutuando no espaço, se o cano da arma for apontado do centro da massa da arma/astronauta, o disparo causará um pequeno impulso angular ao astronauta.

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via Wikipedia

Fazendo alguns cálculos, o projétil da carabina M4 (acima) pode atingir a velocidade de cerca de 910 metros por segundo, a arma pesa 3,4 quilos e a munição 4 gramas. O traje espacial de transporte da EEI pesa cerca de 124 quilos e vamos imaginar que o astronauta pese uns 70 quilos. Então, o peso de tudo isso junto — arma, astronauta e traje — é de aproximadamente 197 quilos. Sendo a velocidade do projétil 910 metros por segundo, a bala terá um impulso de 3,6 nanosegundos (veja 4g * 910 m/s). Para o astronauta e a arma terem o mesmo impulso, eles se moveram a 18 milímetros por segundo (veja 4 g * 910 m/s /197 kg). A energia cinética do projétil será de 1656 joules (veja 4 g * (910 m/s)^2/2) enquanto o astronauta+arma terão a energia cinética de 0.002 joules (veja 122 kg * (18 mm/s)^2/2), então conforme prometido, quase toda a energia cinética estará no projétil.

Na pior das hipóteses, se a arma foi disparada enquanto estiver próxima da cabeça do astronauta, o corpo dele talvez rode uma vez a cada 3 minutos. O que poderia ser facilmente corrigido com os propulsores do traje que os astronautas usam para se locomover.

Enfim, recapitulando, sim, você pode atirar uma arma no espaço. Mas, para segurança de todos os astronautas, vamos apenas torcer para que nunca seja necessário.

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