Novos documentos divulgados pelo Comitê Nacional de Segurança dos Transportes dos EUA (NTSB, na sigla em inglês) nesta semana revelam momentos de agonia de um dos motoristas envolvidos em um acidente fatal com um Tesla Model 3 em Delray Beach, Flórida, em 2019. Este acidente é um dos dois casos recentes que chamaram a atenção do governo federal dos EUA por envolverem a tecnologia de piloto automático da empresa.

Os documentos do NTSB contêm uma entrevista com Richard Wood, um motorista que dirigia um caminhão semirreboque em 1 de março de 2019. Naquela manhã, Wood tirou o caminhão de uma garagem e começou a atravessar para o outro lado de uma estrada com semáforo.

Jeremy Banner, o motorista do Tesla Model 3, estava indo para o trabalho. Ele ajustou a velocidade de seu carro em cerca de 110 km/h, embora o limite de velocidade na estrada seja um pouco abaixo de 90 km/h. Banner tinha o recurso de piloto automático ativado em seu Tesla.

De acordo com Wood, ele viu dois conjuntos de luzes de carros vindo em sua direção, mas achou que tinha tempo de atravessar. Enquanto Banner viajava a 110 km/h, Wood dirigia a aproximadamente 18 km/h.

“Estava escuro, e os carros pareciam estar mais longe do que realmente estavam”, disse Wood aos investigadores do NTSB.

Momentos depois, ocorreu uma tragédia, mas Wood não percebeu de imediato o que havia acontecido. Ele disse que “sentiu um empurrão na carreta” e saiu do veículo. Ele viu detritos presos no lado da carreta e um arranhão do lado. Como estava escuro, Wood não conseguia ver muita coisa e, inicialmente, pensou que alguém tivesse batido e fugido.

Após olhar melhor, ele descobriu que havia peças do pára-brisa do Tesla presas na carreta. Elas pareciam rosadas, o que o levou a acreditar que o outro motorista estava ferido. Ele só começou a entender o que tinha acontecido quando o motorista de uma caminhonete se aproximou dele e perguntou o que aconteceu.

“E esse cara dessa caminhonete apareceu e disse: ‘você é o cara que estava dirigindo este caminhão?’, Eu disse: ‘sim’. E ele diz: ‘esse cara não conseguiu”‘, lembrou Wood.

“Eu disse: ‘do que você está falando?’ Ele disse, ‘aquele cara arrancou todo o teto do carro… ele não conseguiu passar.’ E eu apenas — eu desabei depois disso.”

O carro de Banner passou por baixo da carreta de Wood. O teto do Tesla foi arrancado, e Banner morreu no acidente. Wood não viu Banner porque a velocidade levou o carro para tão longe que ele ficou fora do alcance da vista para o motorista do caminhão. Dados do computador de bordo do Tesla indicam que Banner pisou no freio menos de um segundo antes do acidente.

Investigação

Em um relatório preliminar, o NTSB afirmou que nem os dados preliminares nem os vídeos do acidente indicam que o motorista ou o piloto automático executaram manobras evasivas.

Depois que Wood interagiu com o motorista da caminhonete, ele disse aos investigadores do NTSB que voltou para o caminhão e ficou sentado até a polícia chegar.

“Eu estava tremendo”, disse Wood, acrescentando que “e é nisso que eu tenho pensado desde então”.

A investigação do acidente de Delray Beach está atualmente em andamento. Em um comunicado, o NTSB declarou que um relatório final sobre o acidente, incluindo as descobertas e a provável causa, seria divulgado nas próximas semanas.

Além do acidente de Delray Beach, o NTSB também divulgou documentos relacionados a outra investigação em andamento, que tem como objeto o acidente de um Tesla Model X em Mountain View, Califórnia, em 2018.

O motorista nesse caso, um engenheiro da Apple chamado Walter Huang morreu quando seu Tesla bateu em uma barreira de concreto em uma estrada na região do Vale do Silício. Huang estava com o recurso de piloto automático em seu Tesla Model X ativado quando bateu.

Os documentos do NTSB revelam que Huang havia contado à esposa sobre o piloto automático do modelo X e disse que o recurso havia funcionado mal naquele trecho específico da rodovia em outras ocasiões. O NTSB iniciará deliberações sobre descobertas, recomendações e causas prováveis ​​relacionadas ao caso em sua audiência pública marcada para dia 25 de fevereiro.

Em seu site, a Tesla afirma que os recursos do Autopilot foram projetados para ajudar os usuários com as partes mais pesadas da direção. O piloto automático permite aos carros dirigir, acelerar e frear automaticamente dentro das faixas. No entanto, a empresa afirma que os recursos atuais do piloto automático exigem “supervisão ativa do motorista” e não tornam o veículo autônomo.