Graças à aquisição da Motorola pelo Google por US$ 12,5 bilhões, a Nokia passou de patinho feio a possível objeto de compra para analistas e investidores. Ontem as ações da fabricante finlandesa se valorizaram em quase 10%, potencializada pela esperança de uma aquisição. Entre os possíveis compradores, a Microsoft parece ser a mais factível. Mas o que ela ganharia com esse negócio?

Apesar da boa recepção e da opinião positiva praticamente unânime entre especialistas e (ainda poucos) usuários sobre as qualidades do Windows Phone, o sistema ainda não emplacou. No último trimestre, a sua participação de mercado caiu 38% e, hoje, o WP7 responde por apenas 5,8% da base de smartphones em território americano. O próprio Steve Ballmer, falando a parceiros sobre o sistema móvel da Microsoft, disse que “fomos de muito pequeno para muito pequeno, mas foi um ano daqueles!”.

O Windows Phone é um animal diferente no cenário de sistemas móveis. Ele conserva a integridade e homogeneidade do iOS (os celulares com ele rodam na mesma resolução e velocidade, graças a requisitos mínimos), sem ficar preso a uma única fabricante, tal qual o Android. Entretanto, as empresas parceiras da Microsoft se sentiram um pouco “traídas” com o acordo firmado com a Nokia, que concede a essa privilégios na customização do sistema, ponto no qual a Microsoft sempre foi extremamente rígida. A esse abalo nas relações institucionais somam-se denúncias de que lojas do varejo “sabotam” o sistema na hora em que consumidores dispostos a levá-lo para casa aparecem.

Neste cenário que começa a preocupar, a gigante de Redmond tem duas cartas na manga para revertê-lo: a atualização Mango e a parceria com a Nokia. Parceria essa que, já faz algum tempo é fruto de rumores sobre uma possível aquisição. Os afeitos a teorias da conspiração vão dizer que a Nokia já foi comprada, com um ex-funcionário da MS infiltrado pagando alguns bilhões por um acordo. Ao menos às abertas, o negócio ainda não aconteceu de fato, mas e se a Microsoft resolvesse abrir a volumosa carteira? Deve haver bem mais de onde vieram os US$ 8,5 bilhões para o Skype.

Com a Nokia sob suas asas, a Microsoft ganharia muito poder frente aos principais rivais, Google e Apple, num dos setores mais aquecidos da informática, o móvel. Em termos de patentes, a moeda de troca da moda, a Nokia é campeã, tanto é que pode tirar uns bons trocados da Apple em processos. Mas isso é obsessão do Google. Para a MS, talvez a maior motivação para a aquisição da Nokia seria levar no pacote a reconhecida capacidade de penetrar em mercados emergentes e a logística global da Nokia.

Por mais que o Symbian esteja com os dias contados e seja um desastre em termos de usabilidade, ele ainda é muito utilizado em países como o Brasil. Pesquisa recente feita pela W/McCann e Grupo .Mobi mostra que, no Brasil, a Nokia lidera o segmento de smartphones: 35% dos entrevistados disseram ter aparelhos da marca. O Windows Phone, com seus aparelhos topo de linha e requisitos mínimos altos, se beneficiaria muito dessa expertise — e há rumores de que a Microsoft esteja preparando um “spin-off” do sistema, codinome Tango, especialmente voltado para esses modelos mid-end. Por mais que LG e Samsung, que ganham cada vez mais espaço, sejam grandes, o tal “mindshare” de Nokia e Microsoft no Brasil é ainda maior, e se conseguissem emplacar aparelhos a menos de R$ 1.000, isso poderia ser um golpe importante nos Androids baratos, aqui e em outros mercados.

Esse apelo junto ao consumidor menos abastado somado à logística da Nokia, que coloca celulares à venda até na menos suspeita lojinha de esquina da cidadezinha do interior, é o suficiente para fazer os executivos da Microsoft salivarem por uma relação mais próxima, por uma aquisição. Seria uma excelente oportunidade de tornar o Windows Phone popular.

Comprar a Nokia significaria um abalo ainda maior junto a outras fabricantes, como Samsung, LG e HTC, as quais, embora parceiras da Microsoft, estão mais preocupadas e focadas no Android. E não à toa: enquanto todos os Windows Phones somados chegavam a 1,5 milhão de unidades vendidas (para as operadoras, diga-se), a Samsung celebrava a marca de 10 milhões de Galaxy S comercializados. E nem a aquisição da Motorola parece ser capaz de estremecer o relacionamento; todas as fabricantes emitiram comunicados diplomáticos dizendo que a movimentação é favorável ao Android — com exceção da Nokia, que vê nessa mais uma razão para cair de cabeça no universo “microsoftiano”.

No geral, mesmo por um preço salgado (estimativas do valor da Nokia chegam a até US$ 32 bi), comprar a outrora maior empresa de celulares do mundo pode ser uma saída bastante interessante para a Microsoft. Se por um lado ela corre o risco de enfraquecer ainda mais a já abalada relação com as outras parceiras, por outro leva tudo o que a Nokia ainda tem de bom — know-how em segmentos mid-end e localização, logística e um vasto portifólio de patentes. Parece um bom negócio para ambos.

Fotos: AP Photo/Alastair Grant; Nokia/Divulgação.