1.100.000 unidades de habitação. 10.000 quilômetros de avenidas. 2.000 escolas. US$45 bilhões de dólares. O Egito está planejando uma nova capital fora de Cairo e quer fazê-la rápido.

Imagem: AP Photo/Hassan Ammar

Como já escrevi, o Egito sediou uma conferência de desenvolvimento econômico no qual detalhou planos para uma mais uma enorme pirâmide. Mas o país também anunciou uma nova cidade: um projeto chamado The Capital Cairo, feito pelos arquitetos americanos do escritório Skidmore Owings & Merrill, os designers responsáveis pelo Burj Khalifa e pelo One World Trade Center. A BBC informa que o esboço do plano “atraiu valorosas garantias [US $ 12 bilhões] em auxílio e investimentos do Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes.”

A cidade não será construída apenas por arquitetos do Burj. Ela também será construída pelo homem por trás do Burj — um empresário dos Emirados Árabes Unidos chamado Mohamed Alabbar , que comanda o fundo de investimento que irá financiar o projeto. “É uma oportunidade maravilhosa poder criar algo do zero e projetá-lo tendo em mente as necessidades do povo egípcio e do governo egípcio,” Alabbar disse à BBC.

Parece que os líderes egípcios estão querendo replicar as brilhantes formas urbanas de Dubai — ao mesmo tempo em que o país tem sido atormentado com problemas tanto sociais quanto econômicos.

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Mas deixando de lado o Burj por um segundo, o Egito está em meio a uma grave escassez de habitação de baixa e média renda em suas cidades reais, enquanto há um excesso de unidades de alto preço. Há declaradamente até 20 milhões de pessoas que vivem na habitação “informal” ilegal sem serviços básicos. Mas enquanto a nova habitação é urgentemente necessária, não está claro como o governo planeja para combater a crise em Cairo enquanto se concentra na construção de uma nova capital.

Então, o que os egípcios acham dessa ideia? O Washington Post traz uma resposta bem elaborada do historiador e professor egípcio Khaled Fahmy, que chamou o projeto “perseguir miragens no deserto”:

Com 66 bilhões de dólares, o Cairo facilmente poderia resolver os problemas de transporte, habitação, saneamento e coleta de lixo. Com 66 bilhões de dólares, poderíamos resolver os problemas das cidades do interior do Cairo onde vivem 63% dos habitantes da cidade. Nós poderíamos prover a eles as necessidades básicas que eles foram privados ao longo dos últimos cinquenta anos: água potável, saúde, ar puro, lazer e muito mais. Com 66 bilhões de dólares podemos melhorar a qualidade de vida de milhões de cairenes e dos egípcios que, na melhor das hipóteses, são tratados como cidadãos de segunda classe em seu próprio país.

Mas não, nossas elites políticas, militares e econômicas, intoxicadas por Dubai, querem virar suas costas para uma história que remonta há milhares de anos e fingir que o Egito é uma tabula rasa na qual eles poderiam desenhar seus depravados sonhos para o futuro. Mais sério que isto, estas elites profundamente corruptas estão dispostas a virar as costas ao seu povo. Elas anseiam ter um novo Egito, com uma nova capital e um novo povo.

A parte mais estranha, talvez, é o cronograma: o correspondente do The Guardian no Egito, Patrick Kingsley, diz que o projeto será construído em cinco a sete anos, uma previsão tão apertada que é virtualmente impossível. Leva muito para construir um arranha-céu único, que dirá uma cidade completa, com dezenas de torres, milhões de unidades residenciais e um parque temático de quase 4 quilômetros quadrados.

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No final, parece que mudar a capital é uma tentativa de mostrar que, no novo governo, investimento, infraestrutura e habitação também estarão a caminho. É um expediente que é repetido pelos arquitetos em todo o mundo — o Washington Post, por exemplo, fala sobre Brasília, a capital brasileira que foi feita do zero na década de 1960. Mas há muitos outros, como Sejong City, a cidade que a Coreia está construindo para abrigar grande parte de seu governo. O Egito já realocou suas capitais dezenas de vezes, como observa Kingsley, embora não tenha feito isso nos últimos séculos.

O sonho da “cidade instantânea”, onde a democracia cresce da arquitetura e da tecnologia, é mais fácil de falar do que de fazer. Cidades são raramente instantâneas — e elas raramente são fixas. [The Washington Post; BBC; SOM]