Em agosto, o CEO da Tesla, Elon Musk, desencadeou uma cadeia de eventos catastrófica e completamente evitável ao tuitar que estava “considerando fechar o capital da Tesla em US$ 420 (por ação). Com financiamento garantido”. Musk não forneceu detalhes de financiamento, e a Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) mais tarde determinou que ele nunca finalizou nenhum tipo de acordo com o fundo soberano saudita por trás da aparente compra. Na semana passada, a comissão o acusou de fraude por fazer declarações “falsas e enganosas” e por não cumprir as exigências regulatórias.

Musk e o conselho da Tesla inicialmente pareciam estar buscando uma batalha, mas, de acordo com o Washington Post, ele cedeu no sábado (29). Musk fechou um acordo em que ele e a Tesla pagarão multas separadas de US$ 20 milhões, e o executivo deixará o cargo de presidente da Tesla por pelo menos três anos. O único lado positivo disso para Musk é que ele poderá permanecer como CEO da empresa, escreveu o Washington Post:

O presidente-executivo da Tesla, Elon Musk, concordou no sábado em pagar uma multa de US$ 20 milhões e deixar a presidência da empresa como parte de um acordo com a Comissão de Títulos e Câmbio.

A Tesla irá pagar, separadamente, US$ 20 milhões e concordou em acrescentar dois novos diretores independentes ao seu conselho e monitorar as comunicações públicas do bilionário mais atentamente… Sob o acordo, Musk deixará o cargo de presidente da montadora em até 45 dias e será barrado da posição por três anos. Mas ele seguirá como CEO da Tesla e, como parte do acordo, não precisa admitir nenhuma transgressão.

(“Novo arquivamento na Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos dos Estados Unidos v. Musk: Julgamento”)

Em um comunicado, a SEC escreveu:

A SEC hoje também acusou a Tesla de não ter exigido controles e procedimentos de divulgação em relação aos tuítes de Musk, uma acusação com que a Tesla entrou em acordo.

Os acordos, que são sujeitos à aprovação do tribunal, vão resultar em uma governança corporativa abrangente e em outras reformas na Tesla — incluindo a remoção de Musk como presidente do conselho da Tesla — e no pagamento de penalidades financeiras por Musk e pela Tesla.

Esta é uma grande humilhação para Musk, que, nos últimos meses, viu surgir uma série de polêmicas bizarras e, em sua maioria, causadas por ele mesmo. Elas foram desde um processo de difamação por acusar, sem base alguma, um dos mergulhadores da caverna inundada na Tailândia de pedofilia, passando por alegações de uso de drogas até uma entrevista no New York Times em que descreveram-no alternando “entre risos e lágrimas”. Nesse meio tempo, vários executivos de alto escalão na Tesla deixaram a empresa, e uma investigação do National Labor Relations Board (Conselho Nacional de Relações do Trabalho) sobre as práticas na fábrica em Fremont, na Califórnia, foi ganhando tração. A sua remoção como presidente do conselho trará limites significativos à capacidade de Musk de exercer poder de forma unilateral na empresa.

Também é humilhante porque a SEC alegou no processo que Musk escolheu o número 420 especificamente para impressionar sua (possivelmente ex-) namorada, a cantora Grimes:

De acordo com Musk, ele calculou o preço de US$ 420 por ação com base em um prêmio de 20% sobre o preço de fechamento do dia porque ele pensou que 20% era um “prêmio padrão” em transações de fechamento de capital. Esse cálculo resultou em um preço de US$ 419, e Musk afirmou que ele arredondou o preço para US$ 420 porque ele havia recentemente descoberto sobre o significado do número na cultura da maconha e achou que sua namorada “acharia engraçado, o que ele admitiu não ser um bom motivo para escolher um preço”.

De acordo com a CNBC, as ações da Tesla na Nasdaq já haviam “fechado com cerca de 14% de queda na sexta-feira (28), a US$ 264 por ação”.

Entretanto, poderia ter sido pior: sem um acordo, a SEC teria buscado a proibição de Musk agir mesmo como oficial ou diretor de uma empresa pública. Como CEO, ele permanecerá como responsável das operações diárias da Tesla, e a empresa não perderá um fundador que é amplamente visto como um visionário essencial para o futuro da companhia. Como apontou o New York Times na sexta-feira, se Musk tivesse se recusado a aceitar o acordo, as coisas poderiam ter se arrastado por anos.

[Washington Post]

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