Você loga no Facebook, rola o feed de notícias e vê fotos da sua amiga na festa, outras de um conhecido num churrasquinho entre amigos, comenta algumas músicas e vídeos que seus amigos ouviram/assistiram, curte algumas coisas, bloqueia os chatos que querem transformar o site numa sucursal do 9gag… fica alguns minutos ou horas nesse loop infinito. Isso é ser “social”? Quão deturpado é esse termo, de origem latina e que significa a reunião de pessoas, no contexto das redes sociais? Estariam Facebook e similares nos deixando antissociais? Como fazer diferente?

René Pinnell, CEO da Foreca.st, jogou alguma luz sobre essas questões em um dos tópicos quentes do Mashable, o grande site sobre redes sociais. Há, basicamente, um choque de interesses entre o que as redes sociais deveriam fazer e o que elas realmente fazem. Para simplificar, é uma quase guerra fria entre amigos e telas. Zuckerberg não quer você socializando muito por aí, ele o quer dentro do site, vendo páginas, transferindo seus gostos para os algoritmos do Open Graph e, claro, vendo e clicando em anúncios. Quanto mais social, quanto mais longe do computador o usuário fica, menos interessante ele é para o Facebook, segundo Pinnell. O ideal é ter vivência o suficiente para subir uma foto aqui, publicar uma atualização ali. Nada que o deixe muito distante de uma tela.

É um paradoxo: as redes sociais nos deixam menos sociáveis. Não importa o tanto de “curtidas” ou comentários você receba no Facebook; se você não sai de casa ou não gosta de estar com pessoas cara a cara, pessoalmente, você não é um cara social, ao menos no sentido clássico da coisa. O problema começa em casa, aliás, como nota Sherry Turkle no ótimo Alone Together: Why we expect more from technology and less from each other (Juntos sozinhos: por que nós esperamos mais da tecnologia e menos das pessoas):

Nós estamos vendo o surgimento de famílias “pós-familiares. Os seus membros estão sozinhos juntos, cada um em seu quarto, cada um em seu computador ou dispositivo móvel conectado a internet. Nós entramos online porque estamos ocupados, mas acabamos gastando mais tempo com a tecnologia e menos com cada um de nós de verdade. (…) Nós sempre nos voltamos para a tecnologia para ficarmos mais eficientes no trabalho; agora [com o uso de redes sociais] mostramos como queremos ficar mais eficientes na nossa vida privada. Mas quando a tecnologia simula a intimidade, os relacionamentos podem ser reduzidos a meras conexões. E então, conexões fáceis são redefinidas como intimidade.

Qual a saída? Há cada vez mais gente achando que a própria tecnologia pode ser parte da resposta, considerando o binômio mobilidade e futuro. Smartphones estão em toda parte e cumprem um papel importante na conexão entre redes sociais e eventos reais. Redes como foursquare e o próprio check-in do Facebook atuam nesse sentido, mas mesmo essa mecânica é falha. A ideia basilar do foursquare é saber onde seus amigos estão e, no caso, juntar-se a eles. Quem faz isso além daquele “amigo” inconveniente? É aí que entra a previsão do futuro. Ao saber onde e o que você fará, as redes sociais ativam possíveis interações reais e agradáveis a todos os envolvidos.

Embora não seja o “core business” do Facebook, ele depende da vivência das pessoas para que conteúdo seja gerado, segurando mais e mais os usuários ali dentro. Por isso que, vez ou outra, a rede se dá ao luxo de fomentar relações no mundo real. Ontem, surgiu o “Eventos sugeridos”, um mecanismo que exibe planos (eventos) futuros dos seus contatos, um facilitador de conexões fora da tela, face a face. Outras deverão surgir e, nessa, claro que empresas aproveitarão a brecha para interagirem com os usuários — e isso não será de todo ruim; imagine você dizendo que vai comprar uma pizza e duas ou mais pizzarias “brigando” para lhe dar o maior desconto?

Há cada vez mais gente dizendo que existem muitas redes sociais para pouca vida social. Culpas delas ou não, nós temos o poder de reverter esse quadro. Melhor se houver uma ajuda mútua nesse sentido, claro. Independente do que elas façam, porém, pergunte-se a si mesmo: entre sair com os amigos no sábado à noite e ficar no Facebook, o que você faria? Desculpe-me, Mark, mas eu ficaria com a primeira. [Mashable]