Em uma pequena instalação da Força Aérea dos Estados Unidos no leste de Wyoming, eu estou sentado em um painel eletrônico, pronto para desencadear um inferno nuclear.

Na minha frente está uma estranha combinação de interruptores dos anos 60 e telas digitais modernas. É o painel de controle para lançar um míssil balístico intercontinental, o ICBM.

Em um display arcaico no centro do painel, três grandes letras piscam em rápida sucessão. “EAM chegando,” diz meu vice-comandante e o segundo membro da tripulação de lançamento. Uma mensagem de ação de emergência está a caminho, talvez vinda da Joint Chiefs of Staff, talvez do comandante do U.S. Strategic Command, talvez mesmo do presidente. Nós dois mecanicamente pegamos nossos livros de códigos, grossos fichários repletos de páginas com sequências alfa-numéricas, e rapidamente deciframos a mensagem.

Depois de quase quatro anos com a tarefa de receber alertas da ICBM, este processo é instintivo. Eu deliberadamente recito os caracteres codificados para garantir que meu suplente esteja na mesma página, literalmente e figurativamente, já que seis caracteres curtos podem comunicar efetivamente uma riqueza de informações através do uso dos fichários especiais para decodificação. “Charlie, Echo, Seven, Quebec, Golf, Bravo, seis caracteres terminando com Bravo.” Meu parceiro concorda, escrevendo em seu livro de códigos.

“Destruição em massa,” ele fala sem emoção, referindo-se a um plano de guerra que determina o lançamento imediato de todos os nossos mísseis nucleares, 10 no total.

Claro, isto é apenas um treinamento. As ordens codificadas são uma simulação. O painel é um mockup do verdadeiro, alojado em um grande gancho e mantido sete dias por semana por uma pequena equipe de empreiteiros da Boeing.

Se isso fosse um evento de verdade, eu estaria enterrado 30 metros abaixo do solo em um casulo de aço. Eu estaria vestindo meu macacão padrão e botas. Ao invés disso, eu estava vestindo um moletom, pantufas acolchoadas e, naturalmente, meu indispensável cobertor Snuggie azul royal.

A América do Norte e seus guerreiros nucleares têm um relacionamento estranho. Por décadas, missileers (como somos conhecidos entre os militares) tem silenciosamente cumprido suas tarefas, guardiões de uma espécie de arma em extinção. Mas cidadãos americanos não tem nenhuma conexão real com os operadores obscuros que ocupam os antigos postos da Guerra Fria, apesar do fato de eles gastarem até 8 bilhões de dólares por ano para manter o arsenal militar do país. No funo, esse emprego é uma enorme responsabilidade, mas é bem estranho.

De volta ao simulador com ar-condicionado, meu parceiro e eu cuidadosamente, mas rapidamente, seguimos uma sequência de preparação precisamente coreografada. Deciframos códigos fornecidos pelo presidente que permitem ativar os mísseis para lançamento, uma função similar à trava de segurança de uma arma. Neste momento, a segurança está desativada.

Várias vezes durante o processo, nós verificamos que as ordens são autênticas e formatadas corretamente, e que elas foram originadas das autoridades de comando apropriadas. Nós dois ficamos atentos à espera de uma “mensagem de cancelamento”, uma rápida notificação que cancelaria nossas ordens de ataque. Nenhuma chega.

Nós terminamos nossa sequência em menos de um minuto, deixando 30 segundos de sobra antes de iniciar nosso treinamento de lançamento. Parece uma eternidade. Meu parceiro encara o teclado, enquanto meus olhos estão grudados em um grande relógio vermelho acima de nossas cabeças. O relógio está ajustado para o Tempo Médio de Greenwich (“Horário Zulu”, no jargão dos mísseis), e é verificado com o relógio atômico da marinha duas vezes por dia para precisão até o milésimo de segundo.

Faltando 10 segundos, nós posicionamos nossas mãos em uma série de interruptores para o lançamento. Ao contrário do mito popular, não há botão vermelho. Quatro interruptores significam que são necessárias quatro mãos para lançar – é um dos muitos mecanismos de segurança incorporados ao sistema como meio de prevenir execução não autorizada dos mísseis por um indivíduo sozinho. Faltando cinco segundos, eu começo a contagem regressiva, comandando ao final “3, 2, 1 – executar.”

Nós giramos nossas chaves, e assistimos a tela de controle piscar com notificações de lançamento de mísseis. Alguns são lançados imediatamente, outros com um atraso para prevenir um fratricídio nuclear quando as bombas se aproximarem de seus alvos em 20 ou 30 minutos.

O inimigo final: Tédio

Em quatro anos de serviço no alerta nuclear, eu passei por um número infinito de sequências de ataque e lutei incontáveis guerras nucleares virtuais. Eu sabia como mirar meus mísseis em minutos e lançá-los em segundos. O processo era rigoroso, completo e totalmente controlado por uma checklist que era, ao nosso conhecimento, indefectível. A possibilidade de erro humano era mínima.

Mas o treinamento era mais excitante do que qualquer outro momento do trabalho, uma bênção considerando a missão. Ser um missileer significa que seu pior inimigo é o tédio. Não há heroísmo no campo de batalha, nenhuma medalha a ser conquistada. O trabalho é visto hoje como um tedioso anacronismo.

Os comandantes do esquadrão que deu o alerta nuclear durante o final da Guerra Fria, contam histórias dos bons e velhos tempos entre canecas de cerveja gelada nos clubes da base dos oficiais. A dura mediocridade do trabalho com mísseis é exigente o suficiente para desgastar física e emocionalmente, mas fácil o suficiente para que os missileers fiquem envergonhados demais para admitir qualquer tristeza. Missileers têm cobertores aconchegantes e comida quente; Fuzileiros navais dormem na lama.

Para os missileers da geração 11 de setembro, relevância – um artigo cada vez mais raro em uma comunidade cada vez menor – é uma experiência sofrida. Durante a Guerra Fria, eles tinham instruções da inteligência em tempo real, buzinas berrando, e um poder três vezes maior do que o inventário atual. Hoje existe o Facebook e o PowerPoint.

O campo de mísseis é anexo à F.E. Warren Air Force Base de Wyoming, um dos três campos que existem no país. Corresponde aproximadamente ao tamanho de Rhode Island.

Quando os profundos silos para os ICBM e as instalações subterrâneas de alerta foram escavadas na década de 60, os projetistas militares colocaram cada um deles a muitas milhas de distância um do outro como um recurso para a sobrevivência. A distância garantiu à teoria dos jogos nucleares uma perversa abordagem de “olho por olho, dente por dente” (retaliação equivalente), nascida da ultrapassada era de destruição mútua assegurada, mas sofisticada o suficiente em sua simplicidade. Um ataque exigiria uma bomba nuclear para destruir outra bomba nuclear. Isso significava uma viagem de duas horas da base até a central de alerta, uma jornada através das altas planícies da América do Norte.

Durante uma missão típica de quatro anos, missileers passam mais de um ano separados de suas famílias e trabalham em média 25 dias por mês em alerta ou em treinamento. Nos velhos e bons tempos, as forças de alerta de aproximação iriam aparecer às 8 da manhã para cinco minutos de instruções antes de iniciar a preparação. Graças à crescente influência da Microsoft nas forças armadas dos Estados Unidos, aquelas instruções de cinco minutos sobre o clima e a manutenção transformaram-se em uma hora de extravagância no PowerPoint.

“Alerta” é um termo meio errado, definição que servia melhor na Guerra Fria. Dois oficiais se trancam atrás de uma porta de segurança de 4 toneladas, em uma pequena cápsula com o tamanho aproximado da cabine de um caminhão, por um período de 24 horas. Permanecer alerta é o verdadeiro desafio.

Eu passei longas e silenciosas horas com as luzes diminuídas – lendo, monitorando o estado dos mísseis, assistindo DVDs (Lost e Entourage eram meus favoritos), e lutando contra a sensação crescente de tédio, confinamento e isolamento.

Meu primeiro “ataque” nuclear

Uma maneira de afastar estes sintomas é com humor. No começo da minha jornada, eu fui surpreendido por um comandante brincalhão que acionou o alarme de incêndio, cortou as luzes e descobriu uma maneira de fazer a capsula se balançar pra frente e para trás nas correntes que a prendiam no teto. Meu treinamento indicava que essas condições eram indicações de um ataque nuclear.

Para a diversão do meu colega, eu corri pela capsula usando cueca samba canção de bolinha tentando ao mesmo tempo restaurar o controle do sistema e tratar o galo na cabeça que surgiu quando fui derrubado da cama.

Apesar de tedioso, o trabalho com mísseis tem suas regalias. As regulamentações sobre uniformes são mais relaxadas, mas não de propósito. Depois que a porta de segurança é fechada e a tripulação está livre dos olhos curiosos do público e dos oficiais de cargo mais alto; surgem os pijamas e os moletons com capuz.

Em meu patch de uniforme favorito (à esquerda), o ceifador sinistro senta em frente a um painel da ICBM, usando pantufas de coelho. No mundo real, a morte usa uma camiseta da faculdade, calças JCrew e o onipresente Snuggie. O híbrido manta/roupão é adequado para as forças de mísseis, mantendo um oficial quentinho enquanto permite que ele interaja com o painel de controle das armas livremente.

Missilers aprendem isto quando estão em alerta: conforto é tão importante quanto humor. Um colega empreendedor gostava de pendurar uma rede entre as duas cadeiras da central de comando e esticar um pouco para aguentar os longos turnos no painel de controle. Videogames são proibidos, uma regra que era ridicularizada até que se teve notícia de que o controle wireless do Wii podia fazer com que o sistema detectasse um falso ataque com seu pulso eletromagnético e desligasse.

Eu costumava imaginar que haveria uma reviravolta em algum momento onde eu receberia “a ordem”, quando eu guardaria meu Snuggie e pantufas, fecharia o zíper do meu uniforme de vôo, e faria referências imperiais sobre “me vestir adequadamente.”

Apesar da URSS não existir mais, a tarefa ainda tem uma sensação meio kamikaze, deixada pela Guerra Fria, quando um lançamento significava um contra-ataque imediato da União Soviética. Você se conforma com o fato que você está 30 metros embaixo da terra, enquanto bombas capazes de abrir crateras de 60 metros de profundidade estão indo em sua direção. Isso não traz muita paz de espírito.

O isolamento muitas vezes dá espaço para a reflexão, e o trabalho com mísseis traz à tona estranhos enigmas.

O treinamento com mísseis promove uma inquestionável mentalidade de automação. Eu fui treinado para ser a engrenagem de uma máquina: Ordens são ordens, e um comando legal do presidente não era passível de debate ou desacordo.

Cada missileer é cuidadosamente selecionado por sua aptidão mental e estabilidade, ainda assim eles são avaliados por sua prontidão para desencadear um inferno.

Embora eu nunca tivesse duvidado que fosse executar uma ordem de lançamento sem questionar, outros receios apareciam ocasionalmente. Nós prendemos um grupo de freiras católicas que estavam fazendo um protesto pacífico em uma de nossas instalações de lançamento alguns anos atrás. Para um missileer que é católico praticante, uma situação como esta levanta questões: se mulheres que comprometeram com a palavra de Deus se sentem tão ultrajadas a respeito da imoralidade das armas nucleares a ponto de ficarem confinadas para defender suas convicções, que tipo de cristão sou eu que controlo o lançamento? Como você soluciona um conflito entre o dever com seu Deus e o dever para seu país? Quem ganha, fé ou bandeira?

A ideia de que uma grande violência sustenta a grande paz é um dos verdadeiros paradoxos do nosso tempo, e eu luto com isso de tempos em tempos. O fator humano é a maior vulnerabilidade do sistema, algo que eu involuntariamente contribuí sempre que começava a filosofar, pensando com meus botões.

Mas essas batalhas filosóficas não são nossa luta – mesmo na quieta solidão de um posto arcaico, que está lutando a guerra de ontem.

John Noonan é assessor político e escritor. Ele serviu como Capitão na força aérea dos Estados Unidos, designado para o 321º Esquadrão de Mísseis em Cheyenne, Wyoming.

Fotos: DoD, cortesia de Chuck Penson

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