Na manhã da última sexta-feira (15), a espaçonave Cassini, da NASA, mergulhou na atmosfera de Saturno, com um breve brilho de sua vaporização marcando o fim de uma missão de 13 anos. Mas foram necessárias pessoas para tornar esse pedaço de alumínio e silício em uma extensão de nossa curiosidade.

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Nos dias que precederam o adeus da Cassini, conversei com engenheiros e cientistas nas mesas de madeira que permeiam o centro comercial do Laboratório de Propulsão a Jato e nos jardins repletos de sabedoria nas cercanias da Caltech. Pessoas por trás da missão da Cassini, que guiaram a espaçonave desde o conceito até a conclusão. Elas são o coração, o cérebro e a alma coletivos que transformar suas medições em dados. De veteranos de missões de 27 anos de duração a novos contratados nos últimos meses, todos eles compartilhavam reações de orgulho, exaustão e tristeza quando diante do Grand Finale da Cassini.

Jonathan Lunine

“Fico me perguntando se minha musa está desaparecendo”, Jonathan Lunine me conta, enquanto uma equipe de documentário passa por nós no pátio. Ele é o cientista interdisciplinar coordenando a exploração de Titã, a maior lua de Saturno. “A Cassini sempre será o ponto alto da minha carreira.” Deixando de lado sua reflexão melancólica, ele encontra um lado bom para compartilhar. “Estou ansioso para passar mais tempo ocupado com os dados do que com planejamento.”

Joey Jefferson

Dias antes do mergulho final da Cassini, perguntei a David Doody, que supervisionava as operações em tempo real, como ele estava se sentindo. “Temerário”, disse-me, com uma risada. “Essa bela missão está acabando, navegando para o desconhecido.”

Doody supervisiona as operações em tempo real, “onde a borracha se encontra com a estrada” — os diretores de tráfego humanos para os dados que chegam da Cassini que manobram os uns e zeros até estações apropriadas. Ele começou a trabalhar na Cassini em 1997, e o fim da missão o deixou reflexivo. Mas ele não vai descansar muito agora que a missão acabou: “Tenho muita documentação para fazer”.

Trina Rey é outra veterana da Cassini de longa data, que se juntou à equipe do dia para a noite em 1996 para ajudar com os testes de vibração e calor durante a construção da espaçonave. Ela ficou por lá desde então.

Trina Rey

“Tenho convocado reuniões de status de operações há vinte anos”, conta. “A última reunião é na terça-feira.” O lenço que ela usou para secar seus olhos é da cor púrpura Cassini, perfeitamente em equilíbrio com sua camisa de missão oficial.

“A cada mês, mais ou menos, a Cassini me enviava esse pequeno conjunto de dados. ‘Aqui, Trina, aqui está algo que talvez você não conheça…'”, diz, antes de se recompor. “Vai levar um tempo para me acostumar a não ter isso.”

Quando pergunto para Joan Stupik, a controladora de voo da Cassini, como ela está se sentindo, ela devolve a pergunta para mim. “Estou acostumada a ver como ela [Cassini] se sente todos os dias.” Nova na missão, ela ficou encantada em compartilhar a empolgação quando os cientistas não viam a hora de receber imagens das luas de Saturno. Para ela, a manhã de sexta-feira foi uma vigília meio positiva mas amarga.

Todd Barber e Joan Stupik

“Acho que ainda estou em negação”, confidencia Carl Murray, durante uma pausa de almoço, enquanto, no Sistema Solar, a Cassini faz sua última turnê fotográfica do sistema de Saturno, na quinta-feira (14). “Ainda temos imagens chegando. Temos uma espaçonave funcional. O que possivelmente poderia dar errado?”

Murray se inscreveu para se juntar à Cassini no começo da missão que usava astrometria para explorar imagens aos expô-las até que objetos fossem cobertos por céus estrelados. Foi assim que ele encontrou Peggy, uma falha no anel externo de Saturno que ainda não foi completamente explicada. “A Cassini respondeu perguntas”, ele me conta. “Mas como é o dever de toda boa missão, produziu muito mais perguntas que precisam ser respondidas.” Uma pitada de sorriso surge, enquanto ele contempla os mistérios a serem resolvidos.

“A Cassini respondeu perguntas. Mas como é o dever de toda boa missão, produziu muito mais perguntas que precisam ser respondidas”

Depois de a Cassini evaporar nas tempestades de Saturno, com seu sinal de rádio final sumindo para sempre, o clima de incerteza muda e se solidifica. Um momento de tristeza, uma intensidade de emoção esmagadora até mesmo para aqueles que se achavam imunes, e então aplausos e, por fim, uma celebração toma conta do local.

“Como você está?”, pergunto a Andrew Ingersoll, cientista atmosférico da equipe. “Tenho muita sorte de ter feito parte desta missão e de estar vivo na Era do Espaço”, ele responde imediatamente. Eu logo descubro sobre sua carreira, da Pioneer aos 27 anos trabalhando com a Cassini, passando pela Voyager, e descubro também sobre o quão empolgado ele está de ver como a sonda se saiu na coleta de uma amostra atmosférica para ele analisar. “Hidrogênio e hélio flutuam até a superfície de Saturno”, ele explica. “Qualquer coisa que não seja hidrogênio ou hélio deve estar vindo de cima!”

John Casani e Charles Elachi

Cruzo o auditório para escutar John Casani, gerente de projetos pré-lançamento da Cassini, e Charles Elachi, ex-diretor de supervisão de operação no Laboratório de Propulsão a Jato e líder de radar da Cassini. “Como você está se sentindo?”, pergunto, no meu agora habitual refrão. “Sinto-me ótimo!”, Casani declara. “A espaçonave se foi da maneira como eu espero ir: rapidamente!”

“E fazendo ciência até o fim”, brinca Elachi.

“Para mim, era apenas um pedaço de alumínio e silício”, diz Casani. “Era apenas partes, até que engenheiros fizessem algo com elas.” Considerando todo seu pragmatismo, ele se enche de brilho ao descrever suas descobertas favoritas. “Encélado”, ele declara sem hesitação. Em seu primeiro ano em torno de Saturno, a Cassini descobriu que essa lua gelada abrigava não apenas um oceano de água líquida abaixo de sua crosta, mas que também tinha gêiseres cuspindo essa água para o espaço. “Existe uma pedra minúscula no espaço cuspindo água. É incrível.” Elachi evita intervir, tentando esperar sua vez de se entrevistado.

“Na minha opinião, essa é uma das maiores missões científicas já conduzidas por esse país”, diz Elachi. Sua maior descoberta foram os lagos e oceanos na Titã. “A Titã é como a Terra, mas o clima é todo de gás natural líquido.”

Continuo andando pelo auditório, conversando com qualquer membro da equipe que eu encontre que esteja vestindo uma camisa púrpura. Chuck Kirby passou 19 anos de seus 30 de carreira na Cassini. “É ao mesmo tempo bom e doloroso.” Mas ele está animado com o treinamento para sua nova missão, o monitoramento de umidade de solo do satélite SMAP, da NASA. “Eu gostaria de passar o resto da minha carreira combatendo a mudança climática.”

Encontro então um cientista vestindo uma camisa laranja, mas, ainda assim, com o mesmo logotipo da Cassini. Kareem Badaruddin é um testador do cérebro da Cassini, dedicado a encontrar problemas antes que eles surjam na missão. “Como você está?”, eu pergunto. “Cansado”, ele diz, mas quanto mais conversamos, mais detalhes surgem. Ele lembra de vir para esse mesmo auditório aproximadamente 20 anos atrás para assistir ao lançamento da Cassini. Sua esposa estava no fim da gravidez de seu primeiro filho e nada feliz quando uma falha de equipamento forçou o cancelamento do lançamento. Eles voltaram para testemunhar a Cassini libertando-se de suas amarras à Terra em 15 de outubro, e seu filho nasceu nove dias depois.

“Meu filho e a Cassini atingiram a maioridade juntos”, ele me conta. “Chegamos em Saturno quando ele estava na primeira série, descobrimos gêiseres na Encélado quando ele estava na segunda série.”

“Na minha opinião, essa é uma das maiores missões científicas já conduzidas”

Nosso encontro de manhã é um eco de uma época anterior para Badaruddin. A Cassini partiu sem um algoritmo de inserção orbital, a capacidade de usar suas rodas de reação ou a de implantar a sonda Huygens. Durante os seis anos e oito meses que a espaçonave voou pela Terra, por Vênus e Júpiter durante sua jornada até Saturno, Badaruddin ia até o Laboratório de Propulsão a Jato às 3h30 da manhã para começar cedo seu dia de trabalho, trabalhando antes da chegada a Saturno. “São escuras e frias”, ele me conta, sobre as caminhadas de madrugada tanto do passado quanto do presente. “Vi três gambás nesta manhã. Só havia visto um em todas as minhas caminhadas antes.”

Rosina Miaze

Familiares estão presentes também. Lembranças de que as exigências implacáveis da dinâmica orbital se estendem além de eventos de imprensa às 3h da manhã para testemunhar o fim da espaçonave. Rosina Maize está orgulhosa das conquistas de seu marido, Earl, como gerente de programa da Cassini. Mas ela também escreveu a linha do tempo da missão em seu calendário em casa por anos, deixando de lado compromissos pessoais e sociais em nome de sobrevoos e correção de trajeto importantes.

“Eu posso ficar sozinha no Natal ou convidar todos esses cientistas europeus para nossa casa”, ela diz, relembrando a vez em que a Cassini lançou a sonda Huygens, liderada pela Agência Espacial Europeia, em 24 de dezembro de 2004. Depois do Grand Finale da Cassini, os Maizes acrescentarão uma nota pessoal à sua celebração. “Ontem (14) foi nosso aniversário de casamento”, ela confidencia.

Todas as imagens: Mika McKinnon