Os neandertais usavam adornos de penas, criavam pinturas em cavernas e até faziam joias com garras de águia. Porém, cientistas se surpreenderam ao encontrar um osso esculpido de 55 mil anos. A análise da peça, publicada na Nature Ecology & Evolution, evidencia a capacidade de pensamento simbólico e comportamento sofisticado desses povos antigos.

“As evidências de decorações artísticas sugerem a produção ou modificação de objetos por razões simbólicas além da mera funcionalidade, adicionando uma nova dimensão à complexa capacidade cognitiva dos neandertais”, diz Silvia Bello, arqueóloga do Museu de História Natural de Londres.

A escultura foi encontrada no sítio arqueológico de Einhornhöhle nas montanhas Harz, no norte da Alemanha, e apresenta um padrão de linha que consiste em seis gravuras que formam cinco divisas empilhadas. As “gravuras paralelas e regularmente espaçadas têm dimensões comparáveis ​​e muito provavelmente foram criadas em uma abordagem uniforme, sugerindo um ato intencional”, descreve o estudo, liderado pelo arqueólogo Dirk Leder do Serviço Estatal de Patrimônio Cultural da Baixa Saxônia em Hannover, na Alemanha.

Imagens em escala de cinza feitas de micro-tomografias computadorizadas da relíquia. Um total de 10 gravuras foram encontradas no osso, seis das quais (mostradas em vermelho) foram usadas para criar o padrão chevron. Imagem: NLD

A datação por radiocarbono coloca o osso no Paleolítico Médio, pouco antes da chegada do Homo sapiens à região. A análise microscópica do fóssil sugere que ele foi fervido — o que provavelmente foi feito para amolecê-lo antes de ser esculpido. A escultura provavelmente tinha um significado simbólico, dada a raridade de cervos gigantes ao norte dos Alpes durante este período. O significado exato dos padrões, entretanto, é uma incógnita.

Que a escultura em osso foi produzida por eles não é uma certeza. Evidências genéticas apresentadas no início deste ano situam a chegada de humanos anatomicamente modernos à Europa central por volta de 45 mil anos atrás, o que é posterior à escultura em cerca de 6 mil anos. Essa lacuna temporal aponta para o artefato como pertencente a neandertais, mas não é totalmente implausível sugerir que o Homo sapiens produziu, ou possivelmente influenciou, a criação dessa obra de arte.

Bello, que não estava envolvida na pesquisa, afirmou que “não podemos excluir uma troca de conhecimento semelhante entre humanos modernos e populações de neandertal, que pode ter influenciado a produção do artefato gravado de Einhornhöhle”. Essa possibilidade de que os neandertais aprenderam a habilidade com humanos modernos não diminui suas capacidades cognitivas, entretanto.

“A capacidade de aprender, integrar a inovação na própria cultura e adaptar-se a novas tecnologias e conceitos abstratos deve ser reconhecida como um elemento de complexidade comportamental. Nesse contexto, o osso gravado de Einhornhöhle aproxima o comportamento do Neandertal ainda mais do comportamento moderno do Homo sapiens”, declarou.

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Claro, também é possível que os autores do novo estudo estejam completamente certos e os neandertais foram, de fato, responsáveis ​​pela escultura dos ossos e que os humanos modernos não tiveram nada a ver com isso. Os neandertais, além de suas contribuições culturais mencionadas, se engajaram em muitos outros comportamentos sofisticados, como cuidar de entes queridos deficientes, enterrar seus mortos e cuidar de seus dentes. O fato de que eles criaram arte a partir de ossos dificilmente é um exagero.