A invasão do terror brasileiro na televisão

Com pouquíssimo espaço no cinema, produtores brasileiros de filmes de terror encontraram na televisão (e na internet) um novo espaço assustador

Esta reportagem, assinada pela repórter Fernanda Reis, foi produzida para o risca faca, novo projeto da F451. O risca faca será um novo site sobre cultura e comportamento, trazendo grandes histórias e personagens.

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Dois lutadores, um descamisado com máscara de monstro e outro de fantasia vermelha, se enfrentam numa batalha estilo “Street Fighter” num galpão escuro. Trocam alguns golpes até que um agarra a cabeça do outro e a esmaga com as próprias mãos como se fosse uma fruta molenga, espirrando sangue para todos os lados. Algo como uma das mais famosas mortes do seriado “Game of Thrones”. Igualmente sangrento, mas menos sofisticado.

Produzido a custo zero, só com materiais que a equipe já tinha, o curta que mistura ação com terror é parte do programa “Cinelab”, que chega no dia 16 à segunda temporada (20h, Canal Universal). Cada episódio acompanha a produção de um pequeno filme nessa linha, com poucos diálogos e muitos efeitos especiais. Há cenas em cemitérios, tiroteios, alienígenas, zumbis, assassinos e zumbis assassinos. “O programa dá a oportunidade pra gente de fazer filmes que a Ancine [Agência Nacional do Cinema] não deixaria, por exemplo, se a gente mandasse os roteiros”, resume Kapel Furman, um dos três apresentadores da atração.

De tudo o que Kapel e seus colegas Armando Fonseca e Raphael Borghi – todos especialistas em efeitos especiais – disseram em uma conversa em São Paulo, é essa frase que chama mais a atenção. “Cinelab” não é incrível, é só legal. Mas tem ali algo de diferente. Revirando a biblioteca mental em busca de algo brasileiro parecido com os curtas que o programa apresenta, pouca coisa vem à cabeça.

No ano passado, de 113 longas nacionais lançados em circuito, segundo dados da Ancine, só um era de terror. É “Mar Negro”, aventura zumbi com um pouco de folclore brasileiro (tem um feiticeiro chamado Velho do Saco e seres como Baiacu-Sereia, por exemplo), em que uma vila de pescadores é contaminada misteriosamente e animais marinhos viram criaturas mortíferas. De Rodrigo Aragão, diretor de “Mangue Negro” e “A Noite do Chupacabras”, o filme estreou em janeiro. No resto do ano, alguns suspenses, mas nenhum puramente de horror.

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O público para o gênero, porém, existe. Lançado no ano passado, o americano “Annabelle”, por exemplo, foi o filme de terror mais visto do Brasil nos últimos anos, com 3,7 milhões de espectadores, levando as pessoas a buscar a fantasia da boneca-título na rua 25 de março. O “Cinelab” quer levar justamente esse público de terror americano para a TV. E mais: estimular a produção de terror brasileiro no cinema.

A cada episódio o programa apresenta o making of de um curta de terror, ação ou ficção científica bem improvisado. Com poucos recursos (às vezes nenhum) e só uma diária de filmagem, os três apresentadores devem produzir algo do zero à pós-produção, revelando os truques por trás das cenas (a cabeça esmagada, por exemplo, foi feita com uma máscara maleável cheia de sangue cenográfico acoplada ao braço do ator).

Alguns curtas têm um quê de humor — o da luta, por exemplo, em que o personagem de vermelho se chama Capitão Comunista –, mas outros são tensos de verdade, como um em que uma menina morta volta como zumbi para se vingar do homem que a assassinou. “Tem um efeito bizarro pra caramba. Incomoda, tem pressão psicológica. De vez em quando a gente quer fazer um filme sério. É um filme de terror que poderia participar de festival. Ficou redondo e tenso pra caramba”, avalia Kapel.

TIRO, PORRADA E BOMBA

Citando suas referências, o trio menciona filmes de ação chineses, histórias com grandes catástrofes, gore, e “aqueles filmes dos anos 1980 que passaram despercebidos do grande público”. Produções de terror e ação, basicamente, gêneros com os quais trabalham fora do “Cinelab”. Raphael participou do thriller chinês “Plastic City” e do brasileiro “Pólvora Negra”. Com Armando dirigiu o suspense com zumbis “Desalmados”. Já Kapel é especializado em cinema fantástico e cenas de violência. No currículo tem filmes como “O Cheiro do Ralo” e “Encarnação do Demônio”.

“Sem querer falar que filme de drama, que só tem diálogo, é chato, mas o filme que tem ação, explosão e luta é muito mais divertido de filmar do que ficar 12 horas num banheiro com um casal discutindo. Isso é inegável”, opina Armando. Na televisão, tiveram a oportunidade de fazer o que gostam fora do circuito de festivais de nicho — “Desalmados”, por exemplo, esteve no Fantaspoa, Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, mas não chegou aos cinemas.

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“No programa a gente tem a oportunidade de contar histórias bizarras, ou mesmo de experimentar linguagens, experimentar efeitos”, diz Kapel. “Tá bizarro isso? Tá estranho? A gente gosta. É muito legal. A gente acaba se divertindo porque a experiência é um presente.” E usar a televisão como meio tem ajudado a conquistar o público de cinema, aquele que vai ver “Annabelle” e não encontra alternativas nacionais.

“A gente achava que não tinha público nenhum pro nosso trabalho, pra filme de terror, de ação. Com o ‘Cinelab’ passando na TV a gente descobriu que tem pra caralho. Mas nem todo o mundo pode estar aqui [em São Paulo] vendo nosso filme”, diz Raphael. “Descobrir que tem público pra esse nicho de filme é uma coisa muito massa. A gente achava que cinema de terror no Brasil fosse um fracasso, que não tinha público. O ‘Cinelab’ abriu uma porta.”

Segundo ele, há pessoas de todos os cantos do Brasil entrando em contato com o trio para falar de seu trabalho e apresentar suas próprias produções. “Tem mais gente que gosta desse tipo de filme fora de São Paulo do que aqui. Mas nossos filmes não atingiam esse público. Eles passavam em festival e ninguém vai em festival, só realizador. Por conta do ‘Cinelab’ passar na TV, a gente tem acesso a público e divulga nosso trabalho e o de gente que faz filme de terror. A gente é bem ativista nisso.”

MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL

E quais são as dificuldades para se fazer filmes de terror no Brasil? Segundo Rodrigo Aragão, diretor do solitário “Mar Negro”, todas. O cineasta começou como a equipe de “Cinelab”, trabalhando como técnico de efeitos especiais. “Era um profissional muito frustrado por trabalhar em poucos filmes, já que o cinema brasileiro não tem tradição de usar esse tipo de recurso. Aí resolvi fazer meus próprios filmes”, conta.

Os problemas, porém, não terminaram aí. Produzir terror no Brasil é missão “quase impossível”, diz ele. “Infelizmente, pra entrar na máquina e ser aprovado em edital, você tem que disfarçar seu filme de terror de outra coisa. Tem que fazer filme de terror envergonhado, de ‘suspense psicológico’”, afirma. “Qualquer filme de terror brasileiro que teve apoio e patrocinadores teve que cortar o título ‘terror’ do projeto. Isso é lamentável. Uma grande tristeza. Ou você consegue um caminho totalmente alternativo e independente ou tem que se enquadrar e fingir que está fazendo outra coisa, fazer terror sem sangue e sem tesão.” Esses filmes “pau mole” — diz, rindo — não agradam a ninguém: quem não gosta de terror não vai nem ao cinema assistir, e quem gosta sai frustrado.

O preconceito está em todos os setores da produção de cinema, diz. “Você tem comissões julgadoras de editais que consideram que o gênero tem pouco conteúdo cultural — o que é uma besteira –, patrocinadores que não querem colocar o nome da empresa num filme de terror, exibidores que, por não ter tradição do gênero no país, não aceitam distribuir esse tipo de filme, e um público que não está acostumado a ver terror brasileiro”, enumera Aragão.

“Nunca consegui passar nas leis de incentivo, misteriosamente. Mesmo tirando notas máximas em orçamento, capacidade. A gente não consegue passar. Todos os meus filmes foram feitos de maneira independente, com recursos particulares”, diz. Depois de prontos, é mais fácil exibi-los no Japão ou na Europa do que aqui. “Tento fazer terror tropical, com tempero bem brasileiro, figuras típicas, paisagens bonitas e música brasileira. Isso encanta muito o estrangeiro.”

Sem conseguir “romper a barreira do cinema”, Aragão tem buscado outras vias. Seu próximo filme, “Fábulas Negras”, feito com José Mojica Marins, o Zé do Caixão, será lançado direto digitalmente. “A contabilidade mais importante dos meus filmes é justamente nessas distribuições alternativas. Se juntar o que tive de downloads, mesmo ilegais, passa de 1 milhão fácil”, afirma.

“Toda semana recebo roteiros de jovens. O terror tem uma legião de fãs muito fiéis. Isso é comprovado com o sucesso de filmes baratos como [o americano] ‘Annabelle’. Mas ainda são órfãos de filmes brasileiros”, opina. Além da internet, a televisão é outra alternativa possível e, assim, programas como o “Cinelab” podem ajudar a mudar essa situação e alavancar o gênero no cinema, acredita. “Meus filmes estão passando no canal Space e sinto que esse apoio da televisão tem sido muito importante. O brasileiro tem que se acostumar a se ver”, diz.

Nas gravações de “Fábulas Negras”, conta o cineasta, Mojica lhe disse algo marcante. “Ele falou: ‘Rodrigo, quem faz filme de terror é maldito’. Isso é uma coisa muito triste. Esse conceito precisa mudar”, diz. “Fazer cinema de gênero no Brasil tem que ser considerado bendito. Estamos colocando cores brasileiras no nosso cinema, que tem sido pastel, às vezes muito careta e intelectual, sem contato com o povo. A gente precisa mudar o foco do cinema de gênero, não ser ‘under’.”

Apesar dos pesares, Aragão é otimista: “Existe uma nova geração de realizadores que está muito interessada em terror, produzindo cada vez mais filmes, e melhores. Vejo o futuro com bons olhos. Acho que as coisas vão mudar”.

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