A vacina de gripe: uma tarefa anual bem chatinha, mas necessária, caso você não queira gastar uma semana por ano de cama. Ainda assim, não seria incrível se uma única dose pudesse te proteger por toda a vida? Uma vacina de gripe para a vida toda não é impossível, e estamos progredindo em sua produção, mas isso possivelmente ainda demorará alguns anos.

Conforme explica a New Scientist, o vírus da gripe carrega grandes proteínas “falsas” em sua superfície para chamar a atenção do nosso sistema imunológico. E são essas proteínas que inserimos em nossas vacinas para melhorar o funcionamento do nosso sistema imunológico contra a gripe. Mas, como o nome já diz, as proteínas falsas mudam o tempo todo, e depois de alguns anos, nossos sistema imunológico já não as reconhece mais. É por isso que gastamos milhões de dólares prevendo como será a próxima epidemia de gripe para desenvolver vacinas antes de seu início.



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Entretanto, embaixo das proteínas falsas estão as proteínas de raiz, responsáveis por replicar o vírus e nos infectar. Essas proteínas são muito mais estáveis que as presentes na superfície. Se encontrarmos uma maneira de convencer o nosso sistema imunológico a reconhecê-las, nossos corpos não se “esqueceriam” da doença nos anos seguintes. Mas de acordo com a New Scientist, essas proteínas estáveis se provaram uma grande dor de cabeça na hora de reproduzi-las em laboratório.

Depois de anos tentando, duas equipes de pesquisadores anunciaram esta semana que conseguiram produzir versões estáveis e injetáveis de uma proteína raiz H1N1. Mas até agora os resultados de testes destas vacinas em animais foram mistos. Como diz a New Scientist:

Um grupo, no Instituto de Vacina Crucell, em Leiden, na Holanda, e o Instituto de Pesquisa Scripps, em La Jolla, na Califórnia, tiveram sucesso em construir um arranjo de três destas proteínas de raiz que combinam com as que se formam naturalmente no vírus. Ela protegeu ratos de doses letais da gripe H1N1 — e da bem diferente gripe aviária H5N1. Entretanto, em macacos, a vacina apenas reduziu a febre causada por pequenas, não letais, doses dos vírus H1N1, mesmos que os macacos vacinados tenham desenvolvido anticorpos para diversos tipos de gripes.

O outro grupo, baseada no Instituto Nacional da Saúde dos EUA, amarrou diversas proteínas de raiz com a proteína de uma bactéria e colocou tudo isso em uma solução. Essa versão também ativou uma resposta imunológica, mas não foi forte o suficiente para prever a infecção:

A vacina ativou anticorpos que reconheceram as proteínas de raiz nos vírus da família H1, H2, H5 e H9, e até as menos comuns H3 e H7. Mas de novo, anticorpo é uma coisa, sobreviver à infecção é outra. Todos os ratos vacinados sobreviveram a uma dose letal de gripe H5N1, mas apenas quatro de seis furões sobreviveram — a resposta dos furões à gripe deve ser levada como um modelo mais próximo da resposta humana ao vírus.

O x da questão de tudo isso seria uma proteína da gripe que não muda com o tempo, no intuito de desenvolver uma vacina que ative o nosso sistema imunológico o suficiente para prevenir que a gripe nos atinja. Até então, conseguimos atingir os dois primeiros critérios, mas a vacina — em animais, pelo menos — continua fraca demais para prevenir a doença.

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Especialistas do ramo, no entanto, dizem que o recente progresso é muito promissor, e um futuro de vacinas contra a gripe universais podem estar a caminho. “Este é um grande salto comparado a qualquer outra coisa feita recentemente”, diz Jon Oxford, especialista em gripe da Universidade de Londres, ao BBC. “Eles têm bons dados animais, não apenas em ratos, mas em furões e macacos também. E eles fizeram testes com a gripe aviária H5N1. É um ótimo passo”.

Enquanto isso, faça a você mesmo um favor e continue a tomar a vacina contra a gripe.

[Você pode ler os estudos completos na Science e na Nature Medicine via New Scientist]

Foto de capa: Steven Depolo/Flickr