O Event Horizon Telescope (EHT), uma rede de telescópios em uma missão para observar buracos negros supermassivos nos centros de galáxias, está programado para divulgar seus primeiros resultados em uma coletiva de imprensa nesta semana.

Não sabemos quais serão os resultados, mas eles têm o potencial de mudar completamente visões de mundo.

“O horizonte de eventos de buracos negros representa os limites de nosso conhecimento”, disse Priyamvada Natarajan, professora de astronomia e física da Universidade Yale, em entrevista ao Gizmodo. “Para mim, (o Event Horizon Telescope) é quase uma peça precisa do que a mente humana é capaz de fazer. Estou tendo uma reação emocionalmente empolgada com tudo isso.”

Buracos negros são objetos tão compactos e densos que eles contêm uma região em seu campo gravitacional, seu horizonte de eventos, além do qual o espaço é tão distorcido que a luz não consegue escapar. Temos muitas evidências de que buracos negros existem, de explosões de radiação emitidas de centros galácticos a ondulações no espaço-tempo chamadas de ondas gravitacionais. Mas nunca vimos um de perto.

É este o objetivo do Event Horizon Telescope, que opera sob um princípio chamado Interferometria de Longa Linha de Base, ou VLBI, na sigla em inglês. O “telescópio” é, na verdade, uma colaboração de telescópios ao redor do mundo, dos Estados Unidos ao Chile e ao Polo Sul, todos observando o mesmo objeto distante ao mesmo tempo. Os dados são juntados em uma localização central e então decodificados para produzir imagens de resolução mais alta do que seriam possíveis com apenas um telescópio. É como transformar toda a Terra em um grande telescópio. O aumento de resolução é impressionante. Com sorte, o telescópio será capaz de solucionar o centro da galáxia, uma região a cerca de 25 mil anos-luz de distância cujo tamanho é apenas aproximadamente o da órbita de Mercúrio em torno do Sol.

Os alvos das tentativas de observação do telescópio até agora foram Sagittarius A*, uma região emissora de ondas de rádio da nossa galáxia que se parece muito com um buraco negro supermassivo com uma massa quatro milhões de vezes maior que a do Sol, assim como o centro da galáxia M87, onde supostamente existe outro buraco negro supermassivo, este cerca de sete bilhões de vezes a massa do Sol e lançando um jato de matéria de alta energia.

Na semana passada, a Fundação Nacional da Ciência, dos EUA, anunciou que ela e a colaboração Event Horizon Telescope fariam uma coletiva de imprensa em Washington, D.C., com coletivas simultâneas em Bruxelas, Santiago, Shanghai, Taipei e Tóquio, para anunciar “um resultado revolucionário”. Infelizmente, não sabemos qual resultado será esse — e eu prefiro não alimentar as expectativas. Porém, se o resultado for o que esperamos que seja, será incrível, possivelmente mostrando a sombra que o buraco negro cria contra o pano de fundo do cosmos. Isso se tornaria uma das mais importantes imagens da história científica.

Para uma amostra do que estou falando, no ano passado, Avery Broderick, professor associado da Universidade de Waterloo, nos enviou uma simulação de como poderia ser um buraco negro observado pelo EHT:

Simulação de um buraco negro observado pelo EHT. Imagem: Avery Broderick

Se pudermos ver a sombra, “seria completamente de cair o queixo”, afirmou Grant Tremblay, astrofísico do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics que esteve em um comitê que aprovou uma melhoria ao EHT, em entrevista ao Gizmodo. “Se virmos uma sombra como achamos que veremos, será muito empolgante, uma confirmação de que, embora não saibamos como a natureza funciona, estamos no caminho certo.”

Porém, ainda não sabemos o que os resultados mostrarão. Se mostrarem algo diferente das expectativas dos astrônomos, isso também seria emocionante. Seja qual for o resultado, os cientistas estão entusiasmados com todas as perguntas e potenciais linhas de pesquisa que sairão do lançamento dos dados.

Estou tentando tratar tudo isso com um otimismo cauteloso, já que, novamente, não sabemos que tipo de imagens vamos ver na próxima semana. Entretanto, quando cientistas convocam grandes coletivas de imprensa internacionais como esta, normalmente é porque eles têm um grande resultado.

A entrevista coletiva começará às 10 da manhã (horário de Brasília) de 10 de abril, e nós definitivamente estaremos de olho.