Havia uma enorme expectativa sobre o resultado das eleições para presidente nos Estados Unidos. Se pudesse votar, o resto do mundo escolheria Obama (como 80% dos brasileiros), mas havia uma certa apreensão pela possibilidade do candidato republicano, Mitt-eu-não-ligo-para–47%-das-pessoas-Romney ser eleito. A disputa parecia apertadíssima, mas um sujeito chamado Nate Silver, um gênio precoce da matemática, foi alçado ao posto de celebridade das notícias ao cravar dias antes em seu blog que Obama seria eleito, com 90,9% de certeza. Os conservadores gritaram pelas suas análises “tendenciosas” publicadas no democrata New York Times, republicanos fizeram apostas de que ele estava errado, mostrando as pesquisas, como a da CNN, 4 dias antes, que apontavam um empate. Mas no fim, Nate Silver acertou o resultado de 50 dos 50 estados americanos. Bruxaria? Sorte? A matemática parece ter sido a vencedora aqui.

Prever o resultado das eleições nos EUA é um exercício matemático interessante e que pode ser um tanto complexo. Pelo sistema de Colégio eleitoral, 50 mil votos a mais em um estado como a Flórida pode render mais 29 “pontos” (de 270 necessários para vencer o jogo) na corrida presidencial, por exemplo. Então pode acontecer de o candidato com mais votos populares não vencer a a eleição (como aconteceu em 2000). Some a isso o fato de o voto não ser obrigatório e em alguns lugares ser realmente difícil votar (há filas intermináveis em alguns distritos), fazer previsões tão certas parece incrível. E se há tantas pesquisas eleitorais e um tanto de sondagens bastante erradas (como vimos no pleito municipal aqui no Brasil este ano), como usá-las para fazer uma boa previsão? O primeiro segredo de Nate então é escolher quais pesquisas de intenção de voto terão seus dados considerados.

O método de Nate envolve fazer uma pesquisa sobre a pesquisa, em busca da metodologia e furos nas amostras: alguns institutos de pesquisa usam apenas ligações para linhas fixas em horário comercial e acabam sub-representando os mais jovens, por exemplo. Ter a percepção para encontrar a pesquisa mais abrangente é essencial. Em estados onde a pesquisa não era perfeita e a margem de erro maior, era necessário reaplicar pesos para os votos, para garantir uma igual representação de todas as populações na enquete: em um estado onde 37% dos votantes se dizia republicano, uma pesquisa com 50% de intenções para Obama deveria ser reexaminada.

Após escolhida as fontes dos dados para a população, bastava acrescentar um pouco do histórico das eleições, e polvilhar uma pitada de análise demográfica: o aumento dos imigrantes latinos (que votam maciçamente para Obama) em estados com tendências republicanas era registrado no censo, mas nem sempre era refletido nas pesquisas. A tudo isso eram acrescidas mais 3 colheres de sopa de estatística, molho secreto (o algoritmo proprietário) e, claro, muito amor. Pela estatística, mais exatamente.

Toda essa história começou com blogs e beisebol. Formado em economia pela prestigiosa Universidade de Chicago, com mestrado na London School of Economics, Nate tinha como hobby calcular a possibilidade de um time ganhar de acordo com os jogadores e suas estatísticas e publicava os resultados em seu blog (alguém assistiu MoneyBall? É por aí). Em 2008 Silver começou a jogar seus algoritmos para a política, e previu com um incrível nível de precisão a esmagadora vitória de Obama. A partir daí, o homem das “Frankenreviews” de pesquisas eleitorais começou a fazer sucesso e logo seu pequeno blog foi adquirido pelo gigante New York Times, seus posts sendo responsáveis na reta final por 20% das visitas ao site. Passe lá e veja a barra da lateral direita, com mil números e gráficos. É impressionante.

É claro que os dons de estatística não são exclusividade de Silver. Sites como RealClearPolitics e Talking Points Memo também acertaram porcentagens com precisão igual, ou em alguns estados maior que a de Silver. E, é importante dizer, sem pesquisas eleitorais bem-feitas ele não teria como começar o trabalho em primeiro lugar. Mas, por ser uma pessoa tão atacada pelos conservadores (inclusive por sua sexualidade, já que é gay assumido), a sua vitória pessoal virou uma espécie de meme na internet americana. O Gizmodo lá de fora postou as piadas de Chuck Norris refeitas para Nate. E ontem não faltaram tuites que exageravam a capacidade divinatória do economista de 34 anos.

No fim, quem venceu as eleições este ano não foi apenas Barack Obama ou Nate Silver. As pesquisas americanas e a estatística séria, apartidária, realmente merecem um prêmio pela vitória. Precisamos de mais precisão científica em mais pesquisas, por aqui também. Quem se candidata?

 

Veja alguns dos melhores tuítes sobre o ébrio estatístico.

 

Nate Silver Bêbado está andando de metrô, falando para desconhecidos o dia que irão morrer.

 

Nate Silver Bêbado desmaiou encaracolado em uma parábola.

 

Nate Silver Bêbado suspira bem alto enquanto observa uma russa fazer sudoku no metrô.

 

Nate Silver Bêbado está na Times Square, fazendo a contagem regressiva antes de todo mundo.

Quer saber mais sobre a nova celebridade das ciências exatas? Leia o seu novo livro (que teve um aumento de 800% nas vendas esta semana) ou essa ótima entrevista que ele deu depois da vitória no Jon Stewart:

The Daily Show with Jon Stewart Mon – Thurs 11p / 10c
Nate Silver
www.thedailyshow.com

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