Uma equipe de geneticistas sequenciou 137 genomas humanos modernos do Oriente Médio, dando uma pista sobre como os humanos chegaram à região e como as populações mudaram conforme a seca das regiões.

A pesquisa traça um longo caminho, em uma região onde há poucos registros de fósseis. A recente aridificação da península Arábica, especialmente, significa que os ossos podem ficar tão frágeis que podem simplesmente se desintegrar em uma mínima interação dos arqueólogos, como conta Mathew Stewart, zooarqueólogo do Instituto Max Planck para o Estudo da História Humana.

Evidências genéticas são facilmente perdidas no tempo. Os resultados da equipe baseiam-se em amostras modernas de oito grupos diferentes no Levante, Iraque e Arábia. Genomas antigos também foram incluídos em sua análise, publicada nesta semana pela Cell.

“O Oriente Médio é uma região importante para entendermos a história humana, as migrações e a evolução: é onde os humanos modernos se expandiram pela primeira vez para fora da África, onde caçadores estabeleceram-se e transformaram-se em agricultores. É também onde os primeiros sistemas de escrita se desenvolveram e onde o surgiram as primeiras grandes civilizações conhecidas por nós”, disse Mohamed Almarri, principal autor do estudo e geneticista do Instituto Sanger na Inglaterra, em um comunicado à imprensa. “No entanto, apesar de tal importância, a região tem sido historicamente pouco estudada em termos de genômica.”

Expansões para além da África, desenvolvimentos agrícolas e até eventos climáticos podem ser interpretados a partir dos dados genômicos, conforme afirma a equipe de Almarri. Observando genomas antigos de populações do Oriente Médio, a equipe determinou que elas eram capazes de crescer à medida que pessoas começavam a se estabelecer e iniciou-se o cultivo.

Os pesquisadores usaram uma abordagem de sequenciamento relativamente nova, chamada “sequenciamento de leitura vinculada”, permitindo a reconstrução de histórias populacionais de até 100 mil anos atrás. Os geneticistas podem então utilizar esta abordagem para analisar mais do respectivo genoma, neste caso, potencialmente identificando milhões de variantes genéticas exclusivas das populações do Oriente Médio.

Foi descoberto também que os habitantes do Oriente Médio descendem de uma população que deixou a África entre 50 e 60 mil anos atrás. Foi criado um pequeno mistério sobre o osso de um dedo humano de 88 mil anos, encontrado em um lago pré-histórico na Arábia Saudita; pode ser que o osso pertença a um grupo (humano) que se dispersou cedo sem contribuir para o pool genético moderno da região.

Muitos humanos anatomicamente modernos deixaram a África antes, mas esta genética sugere que as populações modernas do Oriente Médio descendem do grupo que deixou a África há cerca de 50 mil anos.

“Nosso estudo preenche uma grande lacuna nos projetos genômicos internacionais ao catalogar esta variação genética no Oriente Médio”, disse o autor Chris Tyler-Smith, também geneticista do Instituto Wellcome Sanger, no comunicado da Cell. “Os milhões de novas variantes que encontramos em nosso estudo irão melhorar os próximos estudos de associações médicas na região. Nossos resultados explicam como a genética dos habitantes do Oriente Médio se formou ao longo do tempo, fornecendo novos insights, que complementam o conhecimento da arqueologia, antropologia e linguística”.

Imagem de satélite da Arábia Saudita e arredores em junho de 2007. (Reprodução/NOAA)

Almarri e o co-autor do estudo Marc Haber, geneticista da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, disseram que um dos benefícios da pesquisa é ser capaz de conectar dados arqueológicos e climáticos antigos com as mudanças genéticas da população local. Os gargalos populacionais na Arábia há 6 mil anos e Levante há 4,2 mil anos apontam para momentos em que o verdejante leste começou a secar, dizem os autores, com a rápida aridificação sendo responsável por causar diminuições no tamanho da população.

Com base na época quando diferentes grupos se misturaram, há milhares de anos, a equipe também avaliou como as línguas semíticas podem ter se espalhado além de Levante, apontando especificamente para a Idade de Bronze como marco dessa mistura. Os pesquisadores também observaram que as populações árabes têm menos ancestralidade neandertal do que outros eurasianos, indicando que havia menos mistura entre “nossos” parentes próximos extintos e os humanos árabes.

“É emocionante ver tantos novos dados genômicos de uma parte crucial do mundo. É interessante ver a coerência genética de grupos sociais recentes e, como dizem os autores, para entender a saúde moderna é importante ter uma boa amostra de pessoas ao redor do mundo ”, diz Huw Groucutt, paleoantropólogo do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, que não estava envolvido com o estudo. Ele acrescenta que há limitações para os estudos genômicos e que as interpretações da equipe devem ser consideradas exatamente desta forma.

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A equipe pretende acompanhar a pesquisa examinando os sinais de adaptação do conjunto de dados, que podem indicar como as populações do Oriente Médio aprenderam a sobreviver naqueles ambientes quando a região secou. A recente descoberta de ossos de animais e restos humanos, em um tubo de lava saudita, provavelmente ajudará a dar corpo a este retrato genético do Oriente Médio.