Uma nova pesquisa sugere que as fezes podem espalhar o novo coronavírus. O estudo descobriu que partículas virais infecciosas podem sobreviver em matéria fecal retirada de pacientes, mas ainda é desconhecido qual seria a frequência desse caminho de transmissão.

Cientistas ocasionalmente relatam encontrar vestígios de RNA do SARS-CoV-2, o coronavírus que causa COVID-19, nas fezes dos pacientes. Mas testes PCR usados para encontrar o vírus nestas amostras não foram projetados para nos dizer se ele está “vivo”, ou seja, ainda capaz de infectar um novo hospedeiro.

Em um novo estudo publicado nesta segunda-feira (18) na Emerging Infectious Diseases, uma revista administrada pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA), médicos na China conseguiram resolver essa peça do quebra-cabeça.

Eles coletaram amostras fecais de 28 pessoas, 12 das quais deram positivo para o coronavírus. Em seguida, tentaram isolar o vírus de três das amostras destes pacientes e cultivá-lo no laboratório. Eles tiveram sucesso com dois dos três pacientes, incluindo um homem de 78 anos que tinha viajado recentemente de Wuhan, na China, adoeceu em meados de janeiro e morreu um mês depois. O homem foi o caso inicial estudado pelos autores.

As descobertas indicam “que o vírus infeccioso nas fezes é uma manifestação comum da COVID-19”, escreveram.

Se forem validados em outro lugar, os resultados podem ter algumas implicações importantes para o avanço da pandemia. Por exemplo, os autores encontraram algumas evidências indiretas de que as fezes de um paciente com COVID-19 podem conter mais do vírus do que o que é tipicamente expelido durante a respiração. Isso pode tornar os banheiros comunitários um risco ainda maior de transmissão do que outros espaços fechados compartilhados.

Provavelmente não é a primeira vez que um coronavírus é espalhado pelo cocô. Durante o surto da SARS em 2002/2003 (causado por um coronavírus bastante similar com o que causa o COVID-19), um surto num complexo de apartamentos em Hong Kong que acabou por infectar mais de 300 pessoas pode ter sido provocado pelas fezes de um único homem infectado – a tubulação desse conjunto era precária e pode ter jogado o vírus no ar.

Mas existem outras incógnitas sobre a conexão entre as fezes e o novo coronavírus. Primeiro, não temos certeza se a transmissão fecal-oral (apanhar um germe ao comer alimentos contaminados com matéria fecal infecciosa) é possível para esse vírus. Mas a falta de quaisquer casos até agora ligados a alimentos torna essa possibilidade mais remota.

Isso não exclui a ameaça de infecção pela respiração de minúsculas partículas de cocô atadas com o vírus. Como sugere o surto anterior de SARS, o novo coronavírus ainda pode ser capaz de nos infectar por meio das fezes que acabam em aerossol após a descarga – algo a que os cientistas se referem como plumas de vaso sanitário.

Outra fonte potencial de transmissão pode acontecer ao tocar sua boca, nariz ou olhos logo após tocar em superfícies contaminadas em um banheiro. Para entender melhor esses riscos, precisamos saber o quão contagioso é realmente as fezes de alguém com COVID-19 e por quanto tempo o vírus sobreviveria.

Por mais assustadoras que essas descobertas sejam, elas não devem mudar muito nosso comportamento. Respirar gotículas infecciosas de outra pessoa próxima provavelmente continuará sendo a forma mais comum de transmissão de COVID-19.

Muitas das precauções tomadas para diminuir nosso risco de pegar COVID-19, como evitar aglomerações e lavar nossas mãos regularmente, se aplicariam se o vírus puder ou não se espalhar pelo cocô. Para os hospitais, porém, esse risco pode exigir ainda mais vigilância, de acordo com os autores.

“Nossas descobertas indicam a necessidade de precauções apropriadas para evitar a potencial transmissão do SARS-CoV-2 pelas fezes”, eles escreveram. “A alta e as práticas de limpeza hospitalar devem considerar essa possibilidade para pacientes críticos ou para aqueles que morreram que tinham altas cargas virais e são mais propensos a expelir o vírus infeccioso.”