Novas pesquisas procuram fornecer um panorama mais completo do passado trágico e brutal que era o comércio transatlântico de escravos. Com base na análise genética de 50 mil pessoas, o estudo reafirma outras evidências históricas de como diferentes grupos de pessoas na África foram retirados à força de suas casas e como essas populações contribuíram para a composição genética da população atual. O estudo também pode preencher algumas lacunas que faltam nessa história.

Dentre as novidades, estão a fundamentação da tese de tráfico de africanos dentro do continente americano (sobretudo de escravos saindo do Caribe para a América do Norte), a grande predominância de pessoas vindas dos lugares que hoje são Angola e a RDC (República Democrática do Congo) e como as mulheres contribuíram com a descendência africana às custas de um processo de embranquecimento ocorrido, sobretudo, na América Latina.



A equipe de pesquisadores analisou os genes de diferentes grupos de pessoas que previamente autorizaram que seu DNA pudesse ser usado para propósitos de pesquisa, um grupo composto majoritariamente por clientes da 23andMe.

Esses grupos incluíam pessoas que viviam nas Américas (América do Norte, Central, do Sul e no Caribe) consideradas com mais de 5% de ascendência africana; pessoas com 95% de ascendência europeia ou mais; e pessoas que vivem em várias partes da África com 95% ou mais de ascendência africana.

Eles então compararam esses grupos entre si para determinar aproximadamente as raízes da ancestralidade africana nas Américas, procurando similaridades nos marcadores genéticos.

Os pesquisadores não pararam por aí. Eles fizeram referência cruzada de suas análises genéticas com registros de remessa dos barcos que operavam durante a era do comércio transatlântico de escravos, coletados por meio do projeto Slave Voyages.

O projeto multiuniversitário agora tem o registro de 36 mil viagens feitas entre 1514 e 1866, que incluem as regiões de origem das pessoas sequestradas e comercializadas. As descobertas foram publicadas no American Journal of Human Genetics.

“Em geral, nossos resultados são consistentes com os manifestos de remessa mantidos durante o comércio de escravos e outros documentos históricos”, disse Steven Micheletti, geneticista populacional do 23andMe, ao Gizmodo.

“Por exemplo, os registros mostraram que 5,7 milhões de pessoas escravizadas foram transportadas à força desde os dias atuais de Angola e RDC (República Democrática do Congo) para as Américas, e descobrimos que as pessoas de ascendência africana nas Américas têm as mais conexões genéticas com Angola e RDC.”

Houve algumas surpresas, no entanto, segundo Micheletti. Por um lado, havia muito menos ancestralidade da região da África Ocidental na Senegâmbia (região que compreende Senegal e Gâmbia) do que o esperado hoje, considerando-se o número de pessoas de lá que chegaram nas Américas, particularmente nos EUA.

Como o povo senegambiano era frequentemente forçado a trabalhar em plantações de arroz perigosas, onde doenças mortais como a malária eram especialmente comuns, a equipe especula que muitos simplesmente não sobreviveram tempo o suficiente para deixar descendentes.

Entre as pessoas nos EUA, houve também evidências que endossam a existência de um forte comércio intracontinental de escravos. A ascendência nigeriana foi super-representada nos afro-americanos, concluíram os autores, sugerindo que muitas pessoas escravizadas na verdade vieram para os EUA de lugares como o Caribe, para onde muitas pessoas nigerianas foram originalmente levadas.

Outra descoberta foi que as mulheres contribuíram muito mais para a ascendência africana dos americanos hoje do que os homens.

Embora não seja uma completa surpresa, considerando outros dados, ainda é impressionante, pois mais homens foram escravizados do que mulheres. Isso reforça a triste realidade de que gerações de mulheres escravizadas foram estupradas por seus chamados “donos”. Mas também houve diferenças nessa proporção entre as regiões das Américas.

Por exemplo, os pesquisadores estimaram que para cada homem escravizado que vive na América Central, do Sul e no Caribe, que teve um filho, havia 15 mulheres escravizadas que tiveram filhos. Na América do Norte, a proporção era menor, mas ainda assim, distorcida em relação às mulheres. Os pesquisadores analisaram para os marcadores genéticos passíveis de serem transmitidos pelas mulheres para apresentar suas estimativas.

Essas diferenças regionais, dizem os autores, podem ser atribuídas às práticas culturais pós-escravidão na América Latina, que promoveram a “diluição” de populações com pele mais escura, incentivando homens europeus a terem filhos com mulheres negras.

As pessoas da América Latina também tendiam a ter uma porcentagem menor de ascendência inequivocamente africana. Acredita-se que isso possivelmente se deve ao fato de que os africanos escravizados e os indígenas escravizados tinham frequentemente filhos entre eles.

Faltam dados de africanos para melhorar estudos genéticos

“Eles realmente trabalharam duro para integrar esses dados genéticos aos registros de viagens de escravos. E isso exige muito trabalho e muito raciocínio”, disse Simon Gravel, pesquisador da Universidade McGill, ao Gizmodo. Gravel não esteve envolvido na pesquisa, que também estudou o legado genético da escravidão.

“Esses são dois aspectos do mesmo processo histórico, por isso é natural pensar que reuni-los será realmente útil para entender o que está acontecendo. Mas como essas informações são provenientes de idiomas muito distintos, é realmente muito difícil fazer a conexão.”

Gravel disse que, idealmente, você precisaria de ainda mais dados genéticos de pessoas que vivem na África (um pouco mais de mil pessoas do continente africano foram incluídas no conjunto de dados) para que essas comparações sejam mais precisas possíveis.

O estudo da genética populacional, incluindo ancestralidade, requer um grande número representativo de pessoas para servir como ponto de referência. De fato, esse tem sido um problema no mundo da genética, em que as populações europeias estão super-representadas em comparação com pessoas de outras regiões.

Sem maior diversidade nesses estudos, é mais provável que percam diferenças importantes entre as pessoas, como marcadores genéticos que deixam algumas pessoas em maior risco de desenvolver problemas hereditários; ou podemos fazer suposições erradas sobre o risco genético em geral.

Porém, esses tipos de estudo são um passo importante, e os dados que coletaram ajudarão futuros pesquisadores, disse Gravel.

Os autores do estudo reconhecem que mais dados ajudarão a refinar suas pesquisas, e eles podem refazer parte de seu trabalho quando tiverem amostras mais representativas de pessoas que vivem em outras regiões da África onde se sabe que o comércio de escravos existia, como Moçambique, segundo a co-autora Joanna Mountains, diretora sênior de pesquisa da 23andMe.

Embora seja possível que algum dia os dados que eles coletaram até agora possam ser usados para informar pesquisas sobre doenças genéticas, a equipe está mais focada na importância de suas pesquisas para pessoas que desejam entender seu passado genético.

“É um tópico difícil e doloroso de discutir, mas os detalhes são essenciais para entender o atual cenário genético da ancestralidade africana”, disse Micheletti. “Esperamos que isso seja revelador para pessoas de ascendência africana que talvez não tenham muito conhecimento de seus ancestrais.”