Um pequeno estudo na China pode ter colocado em questão o tratamento considerado como um dos mais promissores para salvar as pessoas do novo coronavírus. O teste clínico não encontrou evidências de que a hidroxicloroquina seria mesmo mais eficiente para os pacientes hospitalizados pelo COVID-19 em relação a um tratamento tradicional.

No entanto, os resultados não são muito mais definitivos do que pesquisas anteriores que sugeriam que a droga poderia funcionar.

A hidroxicloroquina e a sua parente cloroquina são medicamentos já existentes, utilizados para tratar casos agudos da malária, além de certas doenças autoimunes como o lúpus e até mesmo da artrite reumatoide. Mas os cientistas especulam há muito tempo que ambos os medicamentos têm um amplo efeito antiviral.

Pesquisas anteriores feitas em laboratórios tinham demonstrado especificamente que esses medicamentos podiam matar o vírus da SARS, intimamente relacionados com o novo coronavírus conhecido como SARS-CoV-2.

Mais recentemente, relatos de médicos na China e França que tratavam doentes com COVID-19 grave disseram ter tido sucesso com o uso de hidroxicloroquina, por vezes em combinação com o antibiótico azitromicina.

Os relatos fizeram com que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiasse o medicamento e pedisse que fossem enviados imediatamente para hospitais em todos os EUA. Hospitais brasileiros também passaram a usar a droga em caráter de testes.

Os especialistas em saúde pública da própria administração Trump e pesquisadores independentes, no entanto, adotaram um tom mais cauteloso, argumentando, com razão, que uma pesquisa mais rigorosa é necessária para testar qualquer tratamento promissor para o COVID-19 antes que ele pudesse ser amplamente utilizado.

Essa semana, a Organização Mundial de Saúde anunciou que a hidroxicloroquina/cloroquina estaria entre os medicamentos avaliados em um grande ensaio clínico de alcance mundial dos tratamentos de COVID-19.

Mas dado o sucesso inicial anedótico dos medicamentos, os médicos já começaram a realizar os seus próprios pequenos e controlados ensaios clínicos. Esse último, relatado no Journal of Zhejiang University, envolveu 30 pacientes na China que haviam sido hospitalizados com COVID-19.

Metade recebeu cuidados recomendados, e a outra metade recebeu hidroxicloroquina durante cinco dias além desses cuidados. Os pacientes faziam coletas frequentes de muco da garganta para procurar pela presença genética do vírus, com um resultado negativo indicando que a infecção ativa havia passado.

De acordo com a Bloomberg, os cuidados recomendados realizados pelo departamento de infecção e imunologia do Shanghai Public Health Clinical Center nos 15 pacientes do grupo de controle incluíam repouso, inalação de oxigênio e uso de outras drogas antivirais como lopinavir e ritonavir, além de antibióticos quando necessário. Neste momento, muitas drogas estão sendo experimentadas para combater o coronavírus.

No 7º dia, a maioria das pessoas de ambos os grupos apresentou exames negativos, sem vantagem clara para aqueles que tomaram a hidroxicloroquina. Também não houve diferença significativa na quantidade de tempo que os pacientes de ambos os grupos levaram para deixar de ter sintomas como febre alta (o estado de uma pessoa no grupo da hidroxicloroquina piorou severamente, mas todos melhoraram até o final do ensaio).

Os resultados parecem ser os primeiros de um estudo randomizado e, o que é importante, controlado, envolvendo hidroxicloroquina. Mas o tamanho da amostra ainda é muito pequeno.

Esse estudo também não testou a combinação de azitromicina, que os pesquisadores acreditam que pode ter um efeito anti-inflamatório adicional e ajudar a tratar casos graves da COVID-19, quando as pessoas são infectadas por bactérias juntamente com o coronavírus.

Este estudo, em outras palavras, não acaba com a possibilidade de a hidroxicloroquina e cloroquina serem efetivos, mas pode fornecer uma lição clara de por que qualquer tratamento experimental não deve ser comemorado muito cedo.

Depois da afirmação de Trump, muitas pessoas nos Estados Unidos e no mundo começaram a estocar o medicamento, o que pode afetar a distribuição para quem realmente precisa dele, principalmente aqueles que tratam a malária, lúpus e artrite reumatoide.

Tragicamente, uma pessoa morreu após tomar comprimidos de cloroquina que originalmente se destinavam a tratar infestações parasitárias em aquários, enquanto a esposa dessa pessoa permanece em estado crítico (a cloroquina pode ser tóxica em doses muito altas).

Colaborou: Alessandro Feitosa Jr.

Atualização às 15h26: Incluímos uma informação a respeito do tratamento utilizado pelo grupo de controle, que tomaram antivirais experimentais contra o coronavírus.