Uma nova pesquisa alega ter encontrado uma ligação entre uma vacina de mRNA (ou RNA mensageiro) contra Covid-19 e herpes zóster em certas pessoas com doenças autoimunes. Mas, embora valha a pena estudar essa relação, não é preciso se preocupar com esse possível risco ou prestar muita atenção às notícias duvidosas que divulgaram a pesquisa.

O estudo foi publicado na semana passada na revista Rheumatology por cientistas de Israel. Eles estudaram pessoas com doenças reumáticas inflamatórias autoimunes, condições que incluem artrite reumatoide, e as compararam a um grupo semelhante de pessoas que não tinham nenhuma doença autoimune. De quase 500 pacientes com essas condições, eles identificaram seis (1,2%) que desenvolveram herpes zóster logo após receberem a vacina contra Covid-19 da Pfizer/BioNTech, em comparação com zero pessoas no grupo de controle que também receberam o imunizante.

Os resultados, escreveram os autores, mostram que mais pesquisas são necessárias para “esclarecer a associação” entre a vacina de mRNA da Pfizer e o herpes zoster, uma doença causada pelo vírus varicela-zóster. É importante ressaltar que isso não significa que a vacina transmitiu o vírus do herpes zóster.

A autora principal Victoria Furer teve o cuidado de dizer ao Jerusalem Post na segunda-feira (19) que eles não podiam dizer que a “vacina é a causa” neste momento. No máximo, ela acrescentou, a vacinação “pode ser um gatilho para alguns pacientes”. Mas isso não impediu o New York Post de divulgar os resultados da forma mais indevida possível, com o título: “Infecção por herpes possivelmente ligada à vacina de Covid-19, diz estudo”.

O que foi dito pelo jornal é tecnicamente verdade. A herpes zóster é causada pelo mesmo vírus responsável pela varicela ou catapora, um membro da família do vírus da herpes chamado varicela-zóster. Mas quando as pessoas lerem as palavras “infecção por herpes”, a maioria sem dúvida vai pensar que estamos falando sobre herpes genital, a infecção sexualmente transmissível causada por dois outros vírus. O Jerusalem Post, por sua vez, deixou claro que o estudo era sobre herpes zóster, mas as pessoas nos EUA provavelmente reconheceriam a doença mais comumente como “shingles”, em inglês. No Brasil, a doença também é conhecida como “cobreiro”.

Simplesmente chamar a herpes zóster de infecção por herpes leva a outro possível equívoco. Não se trata de uma nova infecção, mas sim da reativação do vírus que ficou latente no corpo por anos ou décadas, após um caso inicial de varicela. Isso geralmente acontece devido ao enfraquecimento do sistema imunológico à medida que envelhecemos, mas também é mais provável de acontecer em uma idade mais jovem em pessoas com doenças autoimunes.

Uma vez que a herpes reaparece, pode causar erupções cutâneas distintas e, às vezes, dores nos nervos intensas, que podem persistir depois de a infecção ser novamente derrotada. Felizmente, os vacinados contra a varicela parecem ter um risco muito menor de herpes zóster, e agora existe uma vacina disponível especificamente para isso.

Diante disso, não é implausível que a vacina de Covid-19 possa aumentar o risco de uma pessoa ter uma reativação de herpes zóster. Há algumas evidências de que a própria Covid-19 pode desencadear o herpes zóster devido aos seus efeitos no sistema imunológico ou ao estresse que causa nas pessoas. E pelo menos alguns cientistas, desde o final dos anos 1990, têm demonstrado preocupação sobre a resposta imune causada por qualquer vacina temporariamente tornar as pessoas mais vulneráveis ao herpes zóster.

Todos esses riscos teóricos podem ser amplificados em pessoas cujo sistema imunológico já está comprometido ou que estão tomando medicamentos para regular seu sistema imunológico hiperativo, como foi o caso de alguns dos pacientes do estudo.

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Pelo menos um outro caso e várias relatos de médicos também sugeriram uma ligação entre as vacinas de Covid-19 e o herpes zóster. Mas outros especialistas, com razão, advertiram que nós simplesmente não temos fortes evidências de uma relação causal direta entre os dois neste momento. Mesmo neste novo estudo, a relação não parece ser extremamente clara, dado que apenas 1,2% dos pacientes com uma condição autoimune desenvolveram herpes zóster após a vacina. Enquanto isso, não há até agora nenhuma indicação de aumento do risco da doença após a vacinação no público em geral.

Portanto, sim, embora os cientistas precisem continuar estudando essa conexão, é improvável que seja algo mais do que um risco muito raro entre algumas pessoas já vulneráveis ​​ao herpes zóster. E não, a vacina contra Covid-19 não vai te dar herpes.