EUA estão mais perto de zerar as emissões de carbono na rede de energia do que o esperado

As emissões de carbono do EUA em 2020 caíram 40% em comparação com 2005, ficando 52% abaixo das projeções para o ano.

Turbinas eólicas em Block Island Sound em 8 de julho de 2018, a leste de Montauk, Nova York. Crédito: Getty (Getty Images)

Os Estados Unidos têm muito trabalho a fazer para reduzir as emissões de carbono. Mas um novo relatório mostra que, quando se trata da rede de energia, as coisas estão, na verdade, melhor do que os pesquisadores pensaram que estaria neste momento.

A análise do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley do Departamento de Energia dos EUA examinou as projeções federais da Administração de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês) a partir de 2005. A agência previu que a poluição de carbono ligada à geração de eletricidade iria aumentar 600 milhões de toneladas métricas entre 2005 e 2020, um aumento de 25% das 2.400 milhões de toneladas.

Mas não foi isso que aconteceu. Em vez disso, as emissões de carbono da rede na verdade caíram para 1.450 milhões de toneladas métricas em 2020. Isso é uma redução de 40% em comparação com 2005 e 52% abaixo das projeções da EIA.

“Estamos agora ‘na metade do caminho para zerar’”, disse Ryan Wiser, cientista do Berkeley Lab e principal autor do estudo, em uma declaração em referência ao nome do relatório e à ideia do copo “meio cheio” sobre as emissões.

Isso é bom para o clima, embora as emissões precisem cair a zero para evitar os piores impactos da crise climática. Mas esta redução de carbono ao longo dos últimos 15 anos também veio com uma série de outros benefícios, especialmente quando comparada à perspectiva da EIA. O total de contas de energia para os consumidores foi 18% menor em 2020 do que a EIA projetou em 2005, o equivalente a US$ 86 bilhões em economia para os norte-americanos. A redução na geração de energia por combustíveis fósseis também diminuiu drasticamente as emissões de enxofre e nitrogênio, o que levou a menos doenças. Enquanto a previsão da EIA apontava para 38 mil mortes prematuras por doenças respiratórias em 2020, o número real acabou sendo de 3,1 mil.

Claro, 2020 não foi um ano comum para o setor de energia. Devido a uma queda brusca na demanda por combustível em meio às restrições devido à Covid-19, o uso de eletricidade nos EUA no ano passado foi 4% menor do que em 2019. Como resultado, a nação viu muito menos poluição de carbono da rede do que esperava. A EIA estimou uma queda histórica de 11% em relação ao ano anterior.

Mas os autores do relatório mostram que, embora 2020 tenha sido um ponto fora da curva, não foi uma aberração completa; as emissões de carbono da rede estavam em um declínio constante, mesmo antes do início da pandemia. As emissões de energia dos EUA em 2019 foram 46% menores que as projeções do governo em 2005 mostraram que seriam e 33% menores do que as emissões em 2005.

Os autores também analisaram as formas como a rede elétrica dos Estados Unidos mudou nos últimos 15 anos para determinar quais foram os maiores impulsionadores dessa redução. Eles descobriram que uma das razões foi a quantidade total de energia usada. Em 2005, os analistas da EIA esperavam que houvesse um aumento de 24% no uso até 2020, mas, na verdade, a demanda total de eletricidade foi quase exatamente a mesma em 2020 que em 2005 (e isso apesar de um aumento na população e no PIB). E, novamente, não foi apenas por causa da pandemia — se você olhar os dados pré-pandêmicos de 2019, os norte-americanos ainda usaram 21% menos eletricidade do que a agência previu.

Essa redução, afirmam os autores, reflete que equipamentos e eletrodomésticos tornaram-se mais eficientes devido à inovação tecnológica e a padrões de eficiência mais rígidos. Tudo, desde iluminação a equipamentos de construção, começou a funcionar com menos energia para fazer as mesmas tarefas.

Os pesquisadores também descobriram que a energia renovável superou em muito as expectativas da EIA. As soluções eólica e solar geraram 13 vezes mais energia em 2020 do que a agência projetou em 2005. Isso foi resultado da inovação tecnológica impulsionada por políticas estaduais e federais, que também tornaram as fontes de energia limpa muito mais acessíveis durante aquele período de 15 anos. Isso também significa que o progresso futuro pode ser ainda mais rápido e economizar ainda mais dinheiro.

“Dados os avanços nas tecnologias eólica, solar e de bateria, a descarbonização do setor de energia agora parece ser mais eficiente do que o esperado há apenas alguns anos”, diz o relatório.

O relatório também constatou que o fechamento de usinas de carvão proporcionou uma redução nas emissões de carbono, uma vez que o carvão está entre os combustíveis mais poluentes. Mas, graças ao boom do fraturamento hidráulico e aos baixos preços do gás, os EUA substituíram a maior parte desse carvão por gás natural, que emite menos carbono por unidade de energia do que o carvão, mas ainda não pode ser considerado limpo de forma alguma.

Abandonar o gás natural será um dos principais desafios quando se trata de continuar a descarbonizar nossa rede de energia. Em 2019, o combustível foi o principal contribuinte para o crescimento das emissões de carbono do país e continua a ser a fonte de energia que cresce mais rápido. Mas, para eliminar completamente os combustíveis fósseis, os EUA precisam interromper esse crescimento e aumentar rapidamente a implantação de fontes de energia renováveis.

Os autores dizem que uma grande parte da capacidade de energia limpa necessária para alcançar um setor de energia livre de carbono já está em desenvolvimento. No momento, os desenvolvedores solicitaram permissão para colocar cerca de 660 gigawatts a mais de energia eólica e solar em funcionamento, o que é mais da metade do que os autores acham que será necessário para atingir a meta de descarbonização completa. Melhor ainda, “foi solicitado que aproximadamente 570 gigawatts dessa capacidade proposta seja interconectada e colocada em funcionamento antes do final de 2025”, afirma o relatório.

Mas nada disso significa que devemos apenas sentar e assistir à descarbonização acontecer. A ciência deixou claro que precisamos fazer a transição o mais rápido possível. Deixada à sua própria sorte, a indústria de combustíveis fósseis não desaparecerá de maneira silenciosa ou justa — ela continuará a tentar fazer um greenwash de seus produtos nada sustentáveis, ao mesmo tempo que demite funcionários e gera poluição. Podemos lidar com tudo isso com uma política que priorize a eliminação rápida dos combustíveis fósseis, os direitos dos trabalhadores e a segurança ambiental.

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