O governo dos EUA enviou um aviso à Alemanha de que pode limitar as informações entregues por meio de acordos de compartilhamento de inteligência se o país permitir que a gigante das telecomunicações Huawei instale suas redes 5G, informou o Wall Street Journal na segunda-feira (11).

Autoridades norte-americanas de inteligência vêm alertando há anos que a tecnologia da Huawei poderia ser cooptada pelo governo chinês para fins de espionagem, embora nunca tenham divulgado provas concretas e a Huawei tenha negado repetidas vezes.

Em uma carta ao ministro da economia alemão, o embaixador dos EUA na Alemanha, Richard A. Grenell, escreveu que o compartilhamento de inteligência será reduzido se a Huawei for autorizada a participar de redes 5G. Diz o Wall Street Journal:

A carta, que foi datada de sexta-feira e conferida pelo The Wall Street Journal, marca a primeira vez conhecida que os EUA explicitamente alertaram um aliado que se recusar a afastar a Huawei poderia diminuir a cooperação de segurança com Washington. Entre outras coisas, as agências de segurança europeias dependem fortemente na inteligência dos EUA na luta contra o terrorismo.

Autoridades dos EUA se recusaram a dizer se outros países receberam ou receberiam avisos semelhantes […] [Grenell] observou que o código executado em equipamentos 5G precisaria de atualizações frequentes e era tão complexo que o potencial para os chamadas backdoors e outras vulnerabilidades do sistema não poderia ser descartado, mesmo que a Huawei permitisse que os reguladores inspecionassem regularmente seu software.

A preocupação central parece ser que, se o equipamento de rede Huawei for usado em redes 5G alemãs, elas não estarão mais seguras contra invasões chinesas. Além disso, os EUA provavelmente precisarão de seus aliados para apoiar a campanha negativa contra a Huawei para que a tática de isolamento tenha algum efeito significativo. Os EUA têm preocupações adicionais sobre o uso do pessoal chinês, como, por exemplo, não saber se a Huawei permitirá supervisão feita por serviços de segurança, de acordo com o jornal.

Embora o fundador da Huawei, Ren Zhengei, insista que sua empresa não instalará backdoors em seus produtos 5G, especialistas dizem que a empresa é obrigada por lei a fazê-lo se o governo da China exigir. Conforme relatado pela CNBC, tanto a Lei de Inteligência Nacional de 2017 quanto a Lei de Contra-Espionagem de 2014 determinam que as empresas chinesas cumpram iniciativas de segurança do Estado.

O WSJ diz que o Conselho de Segurança Nacional dos EUA também alertou os aliados na segunda-feira, dizendo que o uso da tecnologia Huawei não é aconselhável, porque as redes 5G contam com softwares que podem ser manipulados para permitir uma vigilância irrestrita.

“Como as redes 5G são amplamente definidas por software, as atualizações enviadas pelo fabricante por meio da rede podem mudar radicalmente a maneira como elas operam”, disse o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Garrett Marquis. “As redes 5G que nossos aliados compram não serão as redes que eles eventualmente operam, já que o software pode ser modificado, a cada momento, pelo fabricante.”

“De fato, o Ministro Federal para Assuntos Econômicos e Energia recebeu uma carta”, disse à CNN o porta-voz da Embaixada da Alemanha em Washington, Matthias Wehler. “Não há comentários sobre o conteúdo por parte dele. Haverá uma resposta rápida.”

No entanto, o WSJ informa que um porta-voz do Ministério da Economia alemão disse que as preocupações não eram novas, e eles não viram nenhuma evidência de que seriam verdadeiras. Um oficial da segurança alemã disse ao jornal que ele recebeu uma mensagem menos agressiva de seus equivalentes nos Estados Unidos, então é possível que a carta para o embaixador tenha sido mais barulho do que fato.

Como a CNN nota, os EUA pressionaram para que “o Reino Unido, a Austrália, a Polônia, a União Europeia, as Filipinas e vários outros países” impusessem proibições ou restrições aos produtos Huawei. Uma proibição na Austrália e proibições parciais em Nova Zelândia também estão correlacionadas com este movimento.

As tensões também aumentaram com a detenção da diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, que enfrenta uma possível extradição para os EUA sob alegações de ter cometido fraude financeira em supostas violações de sanções internacionais contra o Irã. Zhengei, pai de Meng, descreveu recentemente as batalhas sobre a empresa como “politicamente motivadas” e parte de uma tentativa de “esmagar-nos” porque sua tecnologia 5G possui uma ampla vantagem sobre os concorrentes ocidentais.

Na semana passada, a Huawei moveu uma ação contra os EUA por proibir órgãos de governo de usarem produtos da empresa chinesa, dizendo que uma lei assinada pelo presidente Donald Trump em agosto de 2018 — que proíbe a Huawei e sua compatriota ZTE de serem usadas em trabalhos do governo — é inconstitucional. Essencialmente, o processo está desafiando os serviços de inteligência dos EUA a mostrar o que tem nas mãos. A empresa disse que tem um “histórico sólido em segurança cibernética” e ainda acusa os EUA de invadir seus sistemas corporativos e roubar informações.

[Wall Street Journal/CNN]