O Pornhub tem passado por uma extensa reformulação nos últimos dias. Tudo graças a um editorial do New York Times que expôs como o site de vídeos se omite diante de publicações de abuso sexual e violência infantil. Desde então, a companhia já perdeu contratos com Visa e Mastercard e desativou milhões de vídeos. Agora, ex-funcionários da empresa estão vindo a público contar como eram algumas das políticas internas do site adulto.

Uma dessas entrevistas foi publicada esta semana pelo Business Insider, que conversou com três moderadores que trabalharam na MindGeek, a empresa-mãe do Pornhub e de outras grandes plataformas de pornografia online, entre elas Redtube, Youporn, XTube e Brazzers. O trio trabalhou há alguns anos na sede da empresa, em Montreal, no Canadá, onde eram responsáveis por filtrar vídeos sexualmente explícitos nos sites adultos da MindGeek, entre eles o Pornhub.

De acordo com os ex-funcionários, que não tiveram seus nomes verdadeiros revelados, a maior parte da força de trabalho nos níveis mais baixos da companhia é bastante jovem. Eles descreveram um sistema projetado para categorizar e marcar cada ato sexual e fetiche que os usuários do site mais assistem. E embora coisas absurdas — melhor dizendo: criminosas — fossem excluídas imediatamente, como vídeos de animais sendo esmagados e sexo sem consentimento, o Pornhub demorou um bom tempo para impor restrições mais severas.

O trio de ex-empregados também afirma que o site demorava para relatar conteúdos suspeitos às autoridades. Na realidade, os funcionários eram incentivados a criar “desculpas sem sentido” para manter os vídeos nos sites da rede MindGeek, em vez de retirá-los. Isso, segundo as fontes, valia até para casos comprovados de estupro e do chamado “pornô de vingança”, quando a vítima tem conteúdo íntimo divulgado sem a devida autorização.

Em um dos exemplos citados, o entrevistado contou ao Business Insider que um vídeo com o título anunciando que um homem fazia sexo com “sua mãe” não seria aprovado pelo Pornhub. No entanto, se o nome do vídeo fosse alterado para uma expressão mais ampla, como “filho da mãe”, então o conteúdo permaneceria na plataforma, já que, com base nas diretrizes da empresa, ele não afirmava explicitamente que o homem e a mulher eram parentes.

Por dia, os trabalhadores tinham de examinar uma média de 1.200 vídeos, e se a meta de moderação não fosse atingida, os funcionários eram alvos de retaliações, podendo até serem demitidos. Muitos moderadores disseram que a carga psicológica foi tanta que impactou suas vidas pessoas fora do ambiente empresarial, diminuindo ou aumentando impulsos sexuais por conta de toda a exposição dos vídeos. Outros alegaram ter ataques de pânico todas as semanas.

Mudou alguma coisa?

Os ex-funcionários descrevem como era o trabalho há alguns anos, apesar do Business Insider não especificar exatamente há quanto tempo eles deixaram a MindGeek. Um deles, que integrou a equipe do Pornhub pelo menos até março deste ano, diz que a companhia parece ter reformulado alguns processos de moderação de conteúdo no início de 2020. Na época, a empresa moveu algumas equipes que não trabalhavam como moderadoras para ajudar na revisão dos vídeos hospedados no site.

Por conta da pandemia de COVID-19, as novas equipes demoraram para serem integradas, e foram poucas sessões de treinamento — apenas duas. Depois, começaram a trabalhar usando como base uma planilha no Excel que listava milhares de vídeos sinalizados como suspeitos. Dos 1.200 vídeos que deveriam ser analisados todos os dias, os colaboradores passaram a assistir cerca de 400.

Para os usuários que acompanham as notícias do lado de fora, o que se sabe é que, desde a semana passada, o Pornhub não permite mais que usuários sem conta verificada ou sem o selo de parceiro da plataforma enviem novos vídeos ao site. E após perder a parceria da Visa e Mastercard para processar pagamentos, o Pornhub optou por desativar todos os vídeos que também não foram postados por perfis verificados. Estima-se que, no mínimo, 8 milhões de vídeos sumiram da plataforma. Eles estariam passando pelo mesmo processo de revisão citado acima até que o Pornhub decida se eles voltarão ou não ao ar.

O que diz a MindGeek

Ao Business Insider, um porta-voz da MindGeek declarou em comunicado via e-mail que “segurança é a principal prioridade da empresa”, destacando as medidas que a companhia vem implementando ao longo das duas últimas semanas.

No entanto, o comunicado em questão não incluía o nome de nenhum executivo. E isso é um problema, já que o Pornhub tem o histórico de nunca apresentar seus verdadeiros representantes — e quando o faz, os nomes citados parecem não existir de verdade. Questionada pelo Business Insider sobre a veracidade do porta-voz do e-mail, a MindGeek se recusou a comentar.

[Business Insider, The New York Times]